Выбрать главу

— Você poderia me assistir?

— Confesso que passei a noite na companhia de uns amigos. Fui dormir à uma da manhã e muito provavelmente estou com um nível impressionante de álcool no sangue...

— Eu tomo as decisões e faço a cirurgia. Mas preciso de alguém que me acompanhe e me avise se eu estiver cometendo alguma aberração. E, verdade seja dita, mesmo um professor Ellis completamente bêbado sem dúvida tem mais condições que eu de avaliar danos cerebrais.

— Está bem. Estou indo. Mas você me deve um favor.

— Tem um táxi esperando você na frente do hotel.

O professor Frank Ellis ergueu os óculos sobre a testa e cocou a nuca. Concentrou o olhar na tela do monitor que mostrava todos os pontos e meandros do cérebro de Lisbeth Salander. Ellis tinha cinqüenta e três anos, cabelos negros com um fio branco aqui e ali, uma barba escura incipiente, e lembrava um ator secundário do seriado E. R. Seu corpo dava a entender que ele passava algumas horas por semana na academia.

Frank Ellis gostava de morar na Suécia. Chegara ao país como jovem pesquisador de um intercâmbio no final da década de 1970 e ficara por dois anos. Retornara depois várias vezes, até que lhe ofereceram um cargo de professor no Instituto Karolinska. Seu nome já era respeitado no mundo inteiro. Anders Jonasson conhecia Frank Ellis havia catorze anos. Tinham se visto pela primeira vez durante um seminário em Estocolmo, quando descobriram um entusiasmo em comum pela pesca com isca artificial. Anders o convidara para pescar na Noruega. Mantiveram contato ao longo dos anos e participaram de muitas outras pescarias. Em compensação, nunca haviam trabalhado juntos.

— O cérebro é um mistério — disse o professor Ellis. — Faz vinte anos que pesquiso sobre ele. Até mais.

— Eu sei. Desculpe ter te incomodado, mas...

— Deixa disso. — Frank Ellis fez um gesto com a mão para que o amigo não dramatizasse. — Vai lhe custar uma garrafa de Cragganmore na próxima vez que a gente for pescar.

— Combinado. Você não cobra caro.

— Esse caso me lembra de um outro, alguns anos atrás, quando eu trabalhava em Boston — e que descrevi no New England Journal of Medicine. Era uma garota da mesma idade da sua paciente. Estava indo para a universidade, quando atiraram nela com uma besta. A flecha entrou pela borda da sobrancelha esquerda, atravessou a cabeça e saiu quase no meio da nuca.

— E ela sobreviveu? — perguntou Jonasson, pasmo.

— Quando ela chegou ao pronto-socorro foi aquela confusão. Cortaram a flecha e passaram a cabeça dela pelo tomógrafo. A flecha atravessava o cérebro de lado a lado. Pela lógica e pelo bom senso, ela deveria estar morta, ou pelo menos em coma, dada a extensão do traumatismo.

— E em que condição ela estava?

— Ficou consciente o tempo todo. E não só: é claro que estava apavorada, mas se manteve absolutamente coerente. Seu único problema era aquela flecha atravessada no cérebro.

— O que você fez?

— Bem, peguei uma pinça e extraí a flecha, depois fiz um curativo. Mais ou menos isso.

— E ela se safou?

— Ficou em estado crítico por um bom tempo, até receber alta. Mas, para ser franco, poderia ter ido para casa no mesmo dia em que deu entrada no hospital. Nunca tinha visto um paciente com uma saúde tão boa.

Anders Jonasson se perguntou se o professor Ellis não estava zombando da cara dele.

— Por outro lado — Ellis prosseguiu —, alguns anos atrás tive um paciente de quarenta e dois anos, em Estocolmo, que tinha batido a cabeça na beirada de uma janela, uma pancadinha no cérebro. Ele estava com náuseas e seu estado piorou tão depressa que foi levado de ambulância para o pronto-socorro. Estava desacordado quando o recebi. Apresentava um inchaço pequeno e uma hemorragia mínima. Mas não voltou a acordar e morreu depois de nove dias de cuidados intensivos. Até hoje não sei do que ele morreu. No relatório da autópsia, colocamos "hemorragia cerebral em razão de acidente", mas nenhum de nós ficou satisfeito com essa conclusão. A hemorragia era minúscula, situada num lugar onde não poderia causar dano nenhum. Mesmo assim, o fígado, os rins, o coração e os pulmões foram parando de funcionar, um depois do outro. Quanto mais velho fico, mais chego à conclusão de que isso tudo parece uma loteria. Na minha opinião, nunca vamos descobrir como, exatamente, o cérebro funciona. O que você pretende fazer?

Ele tamborilou no monitor com uma caneta.

— Eu estava esperando que você me dissesse.

— Primeiro, me diga como você vê a situação.

— Bem, para começar, parece ser uma bala de calibre pequeno. Entrou pela têmpora e se alojou uns quatro centímetros dentro do cérebro. Ainda está junto ao ventrículo lateral, e há uma hemorragia.

— Providências necessárias?

— Para usar a sua terminologia: pegar uma pinça e extrair a bala por onde ela entrou.

— Excelente sugestão. Mas meu conselho é que você use a pinça mais fina que tiver.

— Simples assim?

— Num caso desses, o que mais se pode fazer? Podemos deixar a bala onde está, e a garota talvez viva até os cem anos, mas é só uma aposta. Ela pode vir a sofrer de epilepsia, de enxaquecas terríveis, todo tipo de complicação. E não dá muita vontade de deixar para abrir a cabeça dela só daqui a um ano, quando o ferimento em si já vai estar curado. A bala está um pouco afastada das grandes veias. Meu conselho é extraí-la, mas...

— Mas o quê?

— A bala não é o que mais me preocupa. Isso é o fascinante nos traumatismos cerebrais — se ela sobreviveu à entrada da bala no crânio, é sinal de que também vai sobreviver à saída. O maior problema se situa neste ponto. — Frank Ellis pôs o dedo na tela. — Em volta do orifício de entrada há um monte de estilhaços de osso. Estou vendo pelo menos uma dúzia de fragmentos de uns poucos milímetros de comprimento. Alguns se cravaram no tecido cerebral. É isso que pode matá-la, se você não tomar cuidado.

— Essa parte do cérebro é associada à fala e à aptidão com números. Ellis deu de ombros.

— Isso é besteira. Não faço a menor idéia de que função tem essas células cinzentas. Quanto a você, tudo o que precisa fazer é dar o melhor de si. Você é quem vai operar. Vou estar logo atrás de você. Posso vestir um jaleco? E onde é que eu lavo as mãos?

Mikael Blomkvist olhou para o relógio e constatou que eram três e pouco da manhã. Estava com algemas nos pulsos. Fechou os olhos por um instante. Sentia-se extenuado, mas a adrenalina ajudava a agüentar o tranco. Tornou a abrir os olhos e encarou agressivamente o delegado Thomas Paulsson, que retribuiu com um olhar constrangido. Estavam sentados ao redor de uma mesa de cozinha, numa granja de um lugarejo chamado Gosseberga, em algum lugar perto de Nossebro, do qual Mikael ouvira falar pela primeira vez não fazia nem doze horas.

A catástrofe acabava de ser confirmada.

— Idiota — disse Mikael.

— Escute...

— Idiota — repetiu Mikael. — Puta merda, eu falei que ele era um perigo mortal ambulante. Avisei que precisava ser tratado como uma granada sem pino. Ele matou pelo menos três pessoas, tem o físico de um tanque de guerra e mata com as próprias mãos. E o senhor manda dois guardinhas irem buscá-lo, como se ele fosse um bêbado de festa de aldeia.

Mikael voltou a fechar os olhos. Perguntou-se o que mais poderia dar errado naquela noite.

Tinha encontrado Lisbeth Salander pouco depois da meia-noite, gravemente ferida. Ligara para a polícia e conseguira convencer o sos-Brigada a mandar um helicóptero a fim de transportar Lisbeth ao Hospital Sahlgrenska. Descrevera em detalhes os ferimentos dela e o buraco que a bala deixara em sua cabeça, e recebera o apoio de uma pessoa inteligente e sensata, que havia se dado conta de que Lisbeth precisava de cuidados imediatos.

Ainda assim, o helicóptero demorara meia hora para chegar. Mikael tinha tirado os dois carros do galpão que fazia às vezes de garagem e acendera os faróis para indicar uma zona de pouso, iluminando o pasto em frente à casa.