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O piloto do helicóptero e os dois paramédicos mostraram-se profissionais experientes. Um dos paramédicos efetuara os procedimentos de emergência em Lisbeth Salander, enquanto o outro cuidava de Karl Axel Bodin, cujo verdadeiro nome era Zalachenko, pai de Lisbeth Salander e seu pior inimigo. Ele havia tentado matá-la, mas fracassara. Mikael encontrara o sujeito, gravemente ferido, num galpão de lenha anexo àquela granja isolada, com o rosto dilacerado por uma machadada nada gentil e um ferimento na perna.

Enquanto esperava o helicóptero, Mikael fizera todo o possível por Lisbeth. Pegara um lençol limpo num armário, que retalhara e usara como uma bandagem improvisada. Observara que o sangue havia coagulado, formando um tampão no orifício de entrada da cabeça, e não sabia se devia se atrever a aplicar um curativo. Por fim, tinha amarrado frouxamente o lençol em volta da cabeça, mais para evitar que o ferimento ficasse exposto a bactérias e sujeira. Em compensação, detivera a hemorragia causada pelas balas no quadril e no ombro da maneira mais simples. Encontrara dentro de um armário um rolo grande de fita adesiva prateada e com ela simplesmente colara os ferimentos. Também enxugara o rosto de Lisbeth com uma toalha úmida, fazendo o possível para limpar a sujeira.

Não fora até o galpão de lenha para cuidar de Zalachenko. No íntimo, reconhecia que, para ser sincero, não estava nem aí para aquele homem.

Enquanto esperava o sos-Brigada, telefonara ainda para Erika Berger, a fim de lhe explicar a situação.

— Você está ferido? — perguntou Erika.

— Eu estou bem — respondeu Mikael. — Lisbeth é que está ferida.

— Pobre menina — disse Erika Berger. — Li o relatório do Björck para a Sapo no final da tarde. Como você vai administrar tudo isso?

— Estou sem energia para pensar nisso agora — disse Mikael. Enquanto conversava com Erika, sentado no chão ao lado da banqueta, mantinha um olhar atento em Lisbeth. Tinha tirado os sapatos e a calça dela para fazer o curativo no quadril e, em dado momento, sua mão encostou na roupa que jogara no chão, junto à banqueta. Sentiu um objeto num dos bolsos; era um Palm Tungsten T3.

Franziu a testa e contemplou, pensativo, o computador de mão. Ao ouvir o barulho do helicóptero, enfiou o Palm no bolso interno do seu casaco. Depois — enquanto ainda estava sozinho — inclinou-se e deu uma olhada em todos os bolsos de Lisbeth. Encontrou outro molho de chaves do apartamento de Mosebacke e um passaporte em nome de Irene Nesser. Sem perder tempo, guardou tudo no compartimento externo da mochila de seu computador.

Minutos depois de o helicóptero da Brigada aterrissar, chegou a primeira viatura, trazendo Fredrik Torstensson e Gunnar Andersson, da polícia de Trollhattan. Eles vinham acompanhados do delegado responsável, Thomas Paulsson, que imediatamente assumiu o comando das operações. Mikael se apresentou e se pôs a explicar o que tinha acontecido. O delegado passou-lhe a impressão de um sujeito obtuso e cheio de si. Assim que Paulsson chegou, as coisas começaram a dar errado.

Paulsson obviamente não entendia nada do que Mikael estava explicando. Parecia estranhamente assustado, e a única informação que conseguiu captar foi que a jovem em estado deplorável, deitada no chão diante da banqueta da cozinha, era Lisbeth Salander, a tríplice assassina procurada pela polícia, e que aquela era uma captura de peso. Em três ocasiões, Paulsson perguntou ao paramédico se a jovem estava em condições de ser presa de imediato. Por fim, o paramédico se levantou e berrou para Paulsson que se afastasse.

Depois disso, Paulsson concentrou sua atenção em Alexander Zalachenko, bastante machucado no galpão de lenha, e Mikael ouviu Paulsson anunciar pelo rádio que Salander, de acordo com todas as evidências, havia tentado matar mais uma pessoa.

A essa altura, Mikael estava tão irritado com Paulsson, o qual obviamente não escutava uma palavra sequer do que ele tentava dizer, que ergueu a voz e o aconselhou a ligar imediatamente para o inspetor Jan Bublanski em Estocolmo. Pegou o celular e se ofereceu para discar o número. Paulsson não estava interessado.

Então Mikael cometeu dois erros.

Declarou taxativamente que o tríplice assassino era, na verdade, um homem chamado Ronald Niedermann, que tinha o porte de um robô antitanque, sofria de analgesia congênita e naquele momento estava amarrado num barranco da estrada de Nossebro. Mikael indicou onde Niedermann se encontrava e recomendou à polícia que mobilizasse um batalhão de infantaria com armamento pesado para prendê-lo. Paulsson perguntou como Niedermann fora parar no barranco, e Mikael admitiu que ele próprio, sob a ameaça de uma arma, o deixara naquela situação.

— Ameaça com arma... — enfatizou o delegado Paulsson.

Naquele momento, Mikael deveria ter percebido que Paulsson era um cretino. Deveria ter pegado o celular e ligado ele mesmo para Jan Bublanski, pedindo-lhe que interviesse e dissipasse a névoa em que Paulsson parecia mergulhado. Em vez disso, Mikael cometera seu segundo erro, tentando lhe entregar a arma que tinha no bolso — uma Colt 1911 Government que ele encontrara mais cedo, naquele dia, no apartamento de Lisbeth Salander em Estocolmo e usara para dominar Ronald Niedermann.

Gesto infeliz, que levara Paulsson a dar voz de prisão a Mikael Blomkvist no ato, por porte ilegal de arma. Nisso, Paulsson ordenou que os agentes Torstensson e Andersson fossem até o local indicado por Mikael, na estrada de Nossebro, para verificar se havia um mínimo de veracidade na história daquele indivíduo, que afirmava ter deixado lá um homem amarrado a uma placa de estrada sinalizadora de travessia de alces. Se fosse o caso, os policiais deveriam algemar a pessoa em questão e trazê-la até a granja de Gosseberga.

Mikael protestara com veemência, explicando que Ronald Niedermann não era um homem que se pudesse apenas prender com algemas, e sim um assassino perigoso. Como Paulsson optasse por ignorar os protestos de Mikael, o cansaço levou a melhor. Mikael chamou Paulsson de babaca incompetente e berrou para Torstensson e Andersson que em hipótese alguma soltassem Ronald Niedermann antes de pedirem reforços.

O resultado de sua bronca foi que o algemaram e enfiaram no banco traseiro do carro do delegado Paulsson, de onde ele assistiu, furioso, à partida de Torstensson e Andersson no carro deles. A única luz naquela escuridão completa era que Lisbeth Salander fora levada para o helicóptero que já desaparecia acima das árvores em direção ao Sahlgrenska. Mikael sentiu-se absolutamente impotente e excluído do fluxo de informações. Só lhe restava esperar que Lisbeth fosse entregue em mãos competentes.

O Dr. Anders Jonasson efetuou duas incisões profundas, até o osso do crânio, e dobrou a pele em volta do orifício de entrada. Manteve a abertura com pinças. Uma enfermeira inseriu um aspirador para tirar o sangue. Em seguida veio um momento desagradável, quando o Dr. Jonasson usou uma furadeira para ampliar o buraco do osso. A manobra progredia com uma lentidão desesperadora.

Depois de obter, afinal, um buraco suficientemente amplo para conseguir ter acesso ao cérebro de Lisbeth Salander, introduziu uma sonda bem devagar, alargando em alguns milímetros a abertura do ferimento. Em seguida, introduziu uma sonda mais fina e localizou a bala. Graças à radiografia do crânio, viu que a bala tinha desviado e se alojado a um ângulo de quarenta e cinco graus em relação à lesão. Utilizou a sonda para tocar suavemente na borda da bala e, após uma série de tentativas frustradas, conseguiu erguê-la o suficiente para recolocá-la em seu lugar inicial.

Por fim, introduzindo uma pinça comprida e muito fina, conseguiu apanhar a base da bala e a apertou com firmeza. Puxou a pinça em sua direção. A bala veio junto sem praticamente nenhuma resistência. Ele a segurou diante da luz por um segundo, constatou que parecia intacta e então a jogou numa vasilha.