— Os últimos acontecimentos dizem respeito principalmente à polícia de Göteborg — retomou Ekström, para ser mais claro.
— É, mas estamos com a Sonja Modig e o Jerker Holmberg no local, em Göteborg, e iniciamos uma colaboração...
— Vamos esperar mais informações antes de convocar uma coletiva — interrompeu Ekström com voz autoritária. — O que eu queria saber é até que ponto você tem certeza de que o Niedermann está envolvido nos assassinatos aqui de Estocolmo.
— Como policial, estou convencido disso. Mas, de fato, não temos muitas provas. Não existe testemunha dos assassinatos nem nenhuma prova técnica irrefutável. O Magge Lundin e o Benny Nieminen, do MC Svavelsjö, negam-se a prestar uma declaração e afirmam que nunca ouviram falar do Niedermann. Em compensação, é certo que ele vai ser condenado pelo homicídio do Gunnar Andersson.
— Está bem — disse Ekström. — O que nos interessa no momento é o assassinato do policial. Mas me conte... Há algo que indique que a Salander estaria, apesar de tudo, envolvida nos assassinatos? Daria para supor que ela e o Niedermann agiram juntos?
— Duvido. Eu é que não divulgaria uma teoria dessas.
— Mas então qual é o papel dela nisso tudo?
— É uma história super complicada. Como o Mikael Blomkvist vem afirmando desde o começo, é esse sujeito, o Zala... Alexander Zalachenko.
Ao ouvir o nome de Mikael Blomkvist, o procurador Ekstrõm estremeceu visivelmente.
— O Zala é um espião russo fora de atividade, obviamente desprovido de qualquer escrúpulo, que atuava na época da guerra fria — prosseguiu Bublanski. — Chegou aqui nos anos 1970, e é o pai de Lisbeth Salander. Foi apoiado por um grupo da Sapo, que o cobria quando ele infringia a lei. Um policial da Sapo também deu um jeito de a Lisbeth Salander ser internada, aos treze anos, numa clínica de psiquiatria infantil, quando ela ameaçou revelar a verdade sobre o Zalachenko.
— Admita que é meio difícil engolir tudo isso. Não dá para tornar pública uma história dessas. Se entendi bem, tudo o que diz respeito ao Zalachenko é considerado segredo de Estado.
— Mas é a pura verdade. Tenho documentos que comprovam isso.
— Posso ver esses documentos?
Bublanski empurrou na direção dele o arquivo contendo o relatório policial datado de 1991. Ekström, pensativo, contemplou o selo que classificava o documento como segredo de Estado, e o número do arquivo, que ele de imediato identificou como proveniente da Sapo. Folheou rapidamente as cerca de cem páginas e leu algumas ao acaso. Por fim, largou o relatório.
— Temos que tentar acalmar as coisas para que a situação não escape das nossas mãos. Com que então a Lisbeth Salander foi internada num hospital de loucos porque tentou matar o pai... o tal Zalachenko. E agora cravou um machado na cabeça dele. Não dá para não entender isso como uma tentativa de homicídio. E ela também tem que ser acusada por ter atirado no Magge Lundin em Stallarholmen.
— Acuse quem você quiser, mas eu, no seu lugar, avançaria pisando em ovos.
— Vai ser um escândalo daqueles se essa história envolvendo a Sapo for divulgada.
Bublanski deu de ombros. Sua missão era elucidar crimes, e não administrar escândalos.
— E esse canalha da Sapo, o Gunnar Björck, o que se sabe sobre o papel dele nisso tudo?
— Ele é um dos protagonistas. Atualmente está de licença médica por causa de uma hérnia de disco e está passando um tempo em Smâdalarö.
— Certo... por enquanto não se fala na Sapo. Trata-se de um policial morto, só isso. O nosso papel não é criar confusão.
— Acho que vai ser difícil de abafar.
— Como assim?
— Mandei o Curt Bolinder deter o Björck para um interrogatório. — Bublanski consultou o relógio. — À essa hora ele deve estar em plena ação.
— O quê?
— Na verdade, minha intenção era eu mesmo ter o prazer de ir até Smâladarö, mas não pude por causa do assassinato do policial.
— Não emiti nenhuma autorização para a prisão de Björck.
— Correto. Mas não se trata de prisão. Mandei que o trouxessem para interrogá-lo.
— Não estou gostando nada disso.
Bublanski se inclinou para a frente e assumiu um ar confidencial.
— Richard... a questão é a seguinte. A Lisbeth Salander foi vítima de uma série de abusos judiciários, que tiveram início quando ela não passava de uma criança. Não preterido deixar que isso continue. Você pode escolher me afastar das investigações, mas nesse caso vou ser obrigado a escrever um relatório incisivo a respeito.
Richard Ekström ficou com cara de quem chupou um limão.
Gunnar Björck, em licença médica do seu cargo de chefe-adjunto da Brigada dos Estrangeiros na Sapo, abriu a porta de sua casa de campo em Smâladarö e se viu frente a frente com um homem corpulento, de cabelos loiros e curtos e jaqueta de couro preta.
— Gostaria de falar com Gunnar Björck.
— Sou eu.
— Curt Bolinder, de Assuntos Criminais. O homem mostrou sua identificação.
— Pois não?
— Vou pedir que me acompanhe até a chefatura de polícia de Kungsholmen para auxiliar na investigação sobre Lisbeth Salander.
— Hã... deve haver algum engano.
— Não há nenhum engano — disse Curt Bolinder.
— O senhor não está entendendo. Eu também sou da polícia. Sugiro que verifique com seu chefe.
— É o meu chefe que quer falar com o senhor.
— Preciso dar um telefonema e...
— Vai poder telefonar de Kungsholmen.
De repente, Gunnar Björck entregou os pontos. Droga de Mikael Blomkvist. Droga de Salander.
— Estou sendo detido? — perguntou.
— Por enquanto não. Mas acho que se pode dar um jeito, se o senhor acha indispensável.
— Não... não, vou acompanhá-lo, claro. Faço questão de auxiliar meus colegas da polícia oficial.
— Melhor assim — disse Curt Bolinder, entrando na casa. Manteve um olhar atento em Gunnar Björck enquanto ele ia pegar o casaco e desligar a cafeteira.
Às onze da manhã, Mikael Blomkvist soube que o seu carro alugado continuava estacionado atrás de uma granja na entrada de Gosseberga, mas no estado de exaustão em que se encontrava não tinha energia para ir buscá-lo, e muito menos para dirigir uns tantos quilômetros sem se transformar em vim perigo para o trânsito. Pediu conselho ao inspetor Marcus Ackerman, que generosamente propôs que um técnico da Criminal de Göteborg fosse buscar o carro.
— Encare isso como uma compensação pela maneira como você foi tratado na noite passada.
Mikael assentiu com a cabeça e pegou um táxi para o City Hotel, na Lorensbergsgatan, perto da Avenyn. Pediu um quarto simples por uma diária de oitocentas coroas e subiu imediatamente. Despiu-se, sentou-se nu sobre a cama, tirou do bolso interno do casaco o Palm Tungsten T3 de Lisbeth Salander e avaliou seu peso com a mão. Ainda estava surpreso de o computador de mão não ter sido apreendido quando o delegado Thomas Paulsson o revistara, mas Paulsson partira do princípio de que aquele era o computador de Mikael, e ele não fora formalmente acusado de nada nem destituído de seus objetos pessoais. Refletiu um instante e então colocou o Palm no compartimento da mochila de seu computador, onde já estava guardado o DVD Bjurman, de Lisbeth, que Paulsson também deixara passar. Estava ciente de que, do ponto de vista legal, era uma retenção de provas, mas aqueles eram objetos que Lisbeth aparentemente não ia querer que fossem parar em mãos erradas.
Pegou seu celular, observou que a bateria estava quase no fim e colocou-o para carregar. Telefonou para sua irmã, a Dra. Annika Giannini.
— Oi, mana.
— Você tem alguma coisa a ver com o assassinato do policial da noite passada? — ela foi logo perguntando.
Ele explicou rapidamente o que tinha acontecido.
— Certo. Quer dizer que a Salander está na UTI.
— Isso. Só vão saber da gravidade dos ferimentos depois que ela acordar, mas ela vai precisar de um advogado.