Annika Giannini ponderou alguns instantes.
— Você acha que ela vai me aceitar?
— É provável que não aceite nenhum advogado. Pedir ajuda não é o estilo dela.
— Tudo indica que ela vai precisar de um advogado criminal. Preciso dar uma olhada nos documentos que você tem aí.
— Fale com a Erika Berger e peça uma cópia para ela.
Assim que terminou de falar com a irmã, Mikael ligou para Erika Berger. Como ela não atendesse o celular, discou o número da redação da Millennium. Henry Cortez atendeu.
— A Erika saiu — disse Henry.
Mikael deu um resumo da situação e pediu a Henry que repassasse a informação para a diretora da Millennium.
— Certo. E o que a gente faz? — perguntou Henry.
— Hoje, nada — disse Mikael. — Preciso dormir. Volto amanhã para Estocolmo, se não houver nenhum imprevisto. A Millennium vai dar sua versão do caso no próximo número, isto é, daqui a quase um mês.
Desligou, enfiou-se na cama e em menos de trinta segundos estava dormindo.
A adjunta do chefe de polícia do Departamento, Monica Spângberg, bateu com uma caneta na borda do seu copo de água mineral para pedir silêncio. Dez pessoas — três mulheres e sete homens — estavam em volta da mesa de reuniões de sua sala, na chefatura de polícia. Eram eles o diretor da Brigada Criminal, seu adjunto, três inspetores criminais, entre eles Marcus Ackerman, e o assessor de comunicação da polícia de Göteborg. Também tinham sido convocados para a reunião a responsável pelo inquérito preliminar, Agneta Jervas, do Ministério Público, e os inspetores criminais Sonja Modig e Jerker Holmberg, de Estocolmo. Estes últimos estavam presentes para demonstrar a boa vontade dos colegas de Estocolmo em colaborar e também, quem sabe, para mostrar como se conduz uma investigação de verdade.
Spângberg, em geral a única mulher naquele ambiente masculino, não tinha fama de desperdiçar tempo com formalidades nem amenidades. Explicou que o chefe de polícia do departamento estava em uma viagem de trabalho, uma conferência da Europol em Madri, que interrompera a viagem ao ser avisado do assassinato de um policial, mas que só deveria chegar tarde da noite. Depois, dirigindo-se diretamente ao diretor da Brigada Criminal, Arne Pehrzon, pediu-lhe um resumo da situação.
— Há pouco mais de dez horas nosso colega Gunnar Andersson foi morto na estrada de Nossebro. Sabemos o nome do assassino, Ronald Niedermann, mas não temos nenhuma foto do indivíduo.
— Em Estocolmo temos uma foto dele de vinte anos atrás. Foi o Paolo Roberto quem conseguiu, mas quase não dá para aproveitar — disse Jerker Holmberg.
— Certo. Encontraram a viatura roubada em Alingsâs hoje cedo. Estava estacionada numa rua lateral, a cerca de trezentos metros da estação. Não houve nesta manhã nenhuma queixa de carro roubado na área.
— E quanto às investigações?
— Estamos verificando os trens que chegam a Estocolmo e Malmö. Emitimos um pedido nacional de busca e informamos a polícia norueguesa e a dinamarquesa. No momento estamos com cerca de trinta policiais trabalhando diretamente no caso e, é claro, com todos os agentes de olhos bem abertos.
— Nenhuma pista?
— Nada ainda. Mas não deve ser impossível localizar um homem com o físico do Niedermann.
— Alguém tem notícias do Fredrik Torstensson? — perguntou um dos inspetores da Criminal.
— Está no hospital de Sahlgrenska. Ficou bem machucado, mais ou menos como se tivesse sofrido um acidente de carro. É difícil acreditar que um ser humano possa ter causado tantas lesões apenas com as mãos. Além das fraturas e das costelas quebradas, ele está com uma vértebra machucada e corre o risco de ficar parcialmente paralisado.
Todos refletiram sobre a situação do colega durante alguns segundos, até que Spângberg retomou a palavra. Voltou-se para Ackerman.
— O que de fato aconteceu em Gosseberga?
— Em Gosseberga? Aconteceu o Thomas Paulsson.
Um gemido unânime foi ouvido por parte de vários participantes da reunião.
— Por que ninguém aposenta esse cara? Ele é uma puta de uma catástrofe ambulante.
— Conheço bem o Paulsson — disse Monica Spângberg em tom áspero. — Mas ninguém se queixou dele nesses... digamos, últimos dois anos.
— O prefeito de lá é uni velho conhecido do Paulsson e deve ter achado melhor mantê-lo por perto. A intenção era boa, claro, não se trata de uma crítica. Mas, na noite passada, o Paulsson se comportou de um modo tão estranho que vários colegas relataram o fato.
— O que ele fez?
Marcus Ackerman olhou de soslaio para Sonja Modig e Jerker Holmberg. Parecia sem graça de revelar as imperfeições de sua organização diante dos colegas de Estocolmo.
— O mais estranho, sem dúvida, foi ele destacar um agente do departamento técnico para fazer um inventário do galpão de lenha onde o Zalachenko foi encontrado.
— Inventário do galpão de lenha? — espantou-se Spângberg.
— É... quer dizer... ele queria saber exatamente quantas toras de lenha tinha ali. Para fazer um relatório bem completo.
Fez-se um silêncio expressivo em volta da mesa de reuniões, até que Ackerman prosseguiu:
— Hoje de manhã, descobrimos que o Paulsson consome pelo menos dois psicotrópicos, o Xanor e o Efexor. Na verdade, era para ele estar de licença médica, mas escondeu seu estado dos colegas.
— Que estado? — perguntou Spângberg, ríspida.
— E claro que não sei exatamente do que se trata — sigilo profissional dos médicos, sabe como é —, mas esses psicotrópicos que ele toma são um ansiolítico fortíssimo e um estimulante. Na noite passada, ele estava simplesmente dopado.
— Meu Deus — disse Spângberg, enfática. Lembrava a tempestade que passara sobre Göteborg naquela manhã. — Quero o Paulsson aqui para uma conversa. Agora.
— Vai ser difícil. Ele desmoronou hoje de manhã e foi internado no hospital por estresse. Foi mesmo um azar para a gente ele estar de plantão.
— Uma pergunta — disse o diretor da Brigada Criminal. — Quer dizer que na noite passada o Paulsson pediu o indiciamento de Mikael Blomkvist?
— Ele deixou um relatório em que registra desacato à autoridade, resistência violenta a um funcionário e porte ilegal de arma.
— O Blomkvist admite alguma dessas coisas?
— Admite o desacato, mas afirma que foi em legítima defesa. Segundo ele, a resistência consistiu numa tentativa verbal um pouco extremada de impedir que Torstensson e Andersson fossem prender o Niedermann sozinhos e sem reforços.
— Alguma testemunha?
— Só os agentes Torstensson e Andersson. Permita-me dizer que não acredito em nada no relatório do Paulsson quando ele fala em resistência violenta. Claramente se trata de uma forma de se proteger de eventuais queixas do Blomkvist.
— Mas ele, o Blomkvist, tinha conseguido dominar o Niedermann sozinho? — perguntou a procuradora Agneta Jervas.
— Ele o ameaçou com uma arma.
— Então o Blomkvist tinha uma arma. Ou seja, o indiciamento de Blomkvist tem fundamento. Onde ele conseguiu a arma?
— O Blomkvist não quer falar sobre isso antes de consultar um advogado. Mas o Paulsson indiciou o Blomkvist quando ele tentava lhe entregar a arma.
— Posso fazer uma sugestão informal? — perguntou cautelosamente Sonja Mondig.
Todos olharam para ela.
— Estive com o Mikael Blomkvist várias vezes durante a investigação, e acho que ele é um sujeito legal, apesar de ser jornalista. Suponho que a decisão de indiciá-lo ou não seja sua... — Ela fitou Agneta Jarvas, que assentiu a cabeça. — Neste caso, essa história de desacato e resistência é pura bobagem, e imagino que vai arquivá-la imediatamente.
— E provável. Mas porte ilegal de arma já é coisa mais séria.
— Sugiro que espere um pouco antes de apertar o gatilho. O Blomkvist reconstituiu toda esta história, sozinho e está muito à frente da polícia. Seria melhor mantermos boas relações com ele e cooperarmos. E mais vantajoso do que dar margem para ele detonar a polícia toda na mídia.