Ela se calou. Passados alguns segundos, Marcus Ackerman pigarreou. Se Sonja Mondig podia empinar o nariz, ele não iria ficar para trás.
— Concordo. Também acho o Blomkvist um sujeito sensato. Apresentei nossas desculpas pelo modo como foi tratado na noite passada. Ele parece disposto a deixar por isso mesmo. Além do que, é um cara íntegro. Descobriu o endereço da Lisbeth Salander, mas se nega a nos fornecer. Não tem medo de enfrentar uma discussão aberta com a polícia... e está numa posição em que a voz dele vai ter tanto peso na mídia quanto qualquer denúncia do Paulsson.
— Mas e se ele se negar a dar informações sobre a Salander para a polícia?
— Diz ele que é só a gente perguntar para a Lisbeth.
— Que tipo de arma era essa? — perguntou Jervas.
— Uma Colt 1991 Government. Número de série desconhecido. Mandei para o laboratório, e ainda não sabemos se foi usada em algum contexto criminal na Suécia. Se for o caso, vamos ter que reconsiderar.
Monica Spângberg ergueu a caneta.
— Agneta, você decide se quer abrir um inquérito preliminar sobre o Blomkvist. Imagino que esteja esperando os resultados do Laboratório. Continuando... Esse sujeito, o Zalachenko... vocês, de Estocolmo, o que podem nos dizer sobre ele?
— Acontece que até ontem à tarde nós também nunca tínhamos ouvido falar nem em Zalachenko nem em Niedermann — respondeu Sonja Modig.
— Eu achava que em Estocolmo vocês andavam atrás de um grupo de lésbicas satânicas — disse um dos policiais de Göteborg. Alguns homens esboçaram um sorriso. Jerker Holmberg começou a examinar as próprias unhas. Sonja Modig que respondesse àquela pergunta.
— Cá entre nós, na Brigada a gente também tem um "Thomas Paulsson", e é a ele que a gente deve essa história de bando de lésbicas satânicas.
E então Sonja Modig e Jerker Holmberg passaram toda uma meia hora relatando suas investigações.
Quando concluíram, um longo silêncio se fez em volta da mesa.
— Se essa informação sobre o Gunnar Björck estiver certa, quem vai ficar com as orelhas ardendo é a Sapo — disse, por fim, o adjunto do diretor da Brigada Criminal.
Todos assentiram com a cabeça. Agneta Jervas levantou a mão.
— Se eu entendi bem, boa parte das suspeitas de vocês está fundada em suposições e presunções. Como procuradora, fico um pouco preocupada com a falta de provas concretas.
— Temos consciência disso — disse Jerker Holmberg. — Julgamos saber, de forma geral, o que aconteceu, mas ainda existem muitos pontos de interrogação para resolver.
— Pelo que entendi, vocês estão cuidando das escavações em Nykvarn, perto de Södertälje — disse Spângberg. — Este caso envolve quantos homicídios, afinal?
Jerker Holmberg pestanejou, cansado.
— Começamos com três assassinatos em Estocolmo — que são os assassinatos pelos quais a Lisbeth Salander estava sendo procurada, o do doutor Bjurman, o do jornalista Dag Svensson e o da doutoranda Mia Bergman. No armazém de Nykvarn, até agora encontramos três túmulos. Em um deles foi identificado um receptador, bandido notório, cortado em pedaços. No outro, uma mulher não identificada. Ainda não tiveram tempo de abrir completamente o terceiro túmulo. Parece mais antigo. Além disso, o Mikael Blomkvist descobriu uma ligação com o assassinato de uma prostituta em Södertälje uns meses atrás.
— Portanto, com o agente Gunnar Andersson, em Gosseberga, são pelo menos oito homicídios... esse número chega a causar arrepios. O tal Nieder-mann é suspeito de todos esses assassinatos? Isso significaria que se trata de um doido varrido, um assassino em série.
Sonja Modig e Jerker Holmberg trocaram um olhar. Precisavam definir até onde estavam preparados para avançar em suas declarações. Por fim, Sonja Modig assumiu a palavra.
— Mesmo que nos faltem provas concretas, o meu chefe, o inspetor Bublanski, e eu mesma tendemos a acreditar em Mikael Blomkvist quando ele diz que os três primeiros assassinatos são obra do Niedermann. Isso equivaleria à inocência da Salander. Quanto aos túmulos de Nykvarn, o Niedermann está ligado ao local pelo seqüestro da amiga da Salander, a Miriam Wu. Ela seria, evidentemente, a quarta vítima da lista, e um túmulo esperava por ela também. Mas o armazém em questão é propriedade do presidente do MC Svavelsjö, e vamos ter que esperar até a identificação dos despojos para tirar conclusões.
— E esse bandido que vocês identificaram...
— Kenneth Gustafsson, quarenta e quatro anos, conhecido receptador e delinqüente desde a adolescência. Assim, sem pensar muito, eu diria que se trata de um acerto de contas. O MC Svavelsjö está ligado a vários tipos de criminalidade, inclusive distribuição de metanfetaminas. Portanto, o local pode ser considerado um cemitério informal para pessoas que se indispunham com o MC Svavelsjö. Mas...
— Sim?
— A prostituta, essa foi morta em Södertálje... Seu nome era Irina Petrova e ela tinha vinte e dois anos.
— Certo.
— A autópsia diz que ela foi vítima de uma agressão particularmente brutal. O mesmo tipo de ferimento que pode ser encontrado numa pessoa morta a golpes de taco de beisebol ou algum instrumento parecido. Os traumatismos foram difíceis de interpretar e o médico-legista não teve condições de afirmar qual foi, exatamente, o instrumento utilizado. O Blomkvist observou bem: os ferimentos de Irina Petrova poderiam perfeitamente ter sido causados por mãos...
— Niedermann?
— É uma suposição plausível. Ainda faltam as provas.
— O que a gente faz agora? — perguntou Spângberg.
— Tenho que ver com o Bublanski, mas pela lógica o próximo passo seria interrogar o Zalachenko. De nossa parte, estamos interessados no que ele tem a dizer sobre os homicídios de Estocolmo, e vocês querem pegar o Niedermann.
Um inspetor de Gõteborg levantou o dedo.
— Tenho uma pergunta... o que encontraram na granja de Gosseberga?
— Pouca coisa. Quatro armas pequenas. Uma Sig Sauer desmontada, que estava sendo lubrificada, na mesa da cozinha. Uma Wanad P-83 polonesa no chão, do lado da banqueta. Uma Colt 1911 Government — essa é a pistola que o Blomkvist tentou entregar para o Paulsson. Por fim, uma Browning calibre 22, que no meio das outras mais parece um brinquedinho. A suspeita é que essa foi a arma usada contra a Salander, já que ela continua viva mesmo depois de uma bala no cérebro.
— E fora isso?
— Foi apreendida uma sacola contendo pouco mais de duzentas mil coroas. A sacola estava num quarto do andar de cima, ocupado pelo Niedermann.
— Como é que vocês sabem que era o quarto dele?
— Bem, ele usa roupa GG. O Zalachenko, a rigor, usa M.
— Existe alguma coisa vinculando o Zalachenko a uma atividade criminosa? — perguntou Jerker Holmberg.
Ackerman balançou a cabeça.
— Tudo depende de como vamos interpretar a apreensão das armas. Mas fora as armas e o fato de o Zalachenko dispor de uma vigilância eletrônica bastante sofisticada para a sua residência, não encontramos nada que diferencie a granja de Gosseberga de qualquer outra casa no campo. Tem pouquíssimos móveis.
Pouco antes do meio-dia, um policial fardado bateu à porta e entregou um papel para a adjunta do chefe de polícia, Monica Spângberg. Ela levantou a mão.
— Acabamos de receber um alerta sobre uma pessoa desaparecida em Alingsâs. Uma assistente de odontologia de vinte e sete anos, Anita Kaspersson, saiu de sua casa às sete e meia da manhã. Deixou o filho na creche e deveria ter chegado ao trabalho antes das oito. Não chegou. Ela trabalha para um dentista cujo consultório fica a uns cem metros de onde foi encontrada a viatura roubada.
Ackerman e Sonja Modig consultaram simultaneamente o relógio.
— Quer dizer que ele tem quatro horas de vantagem. Qual é o carro dela?