— Um Renault velho azul-escuro. O número da placa está aqui.
— Emitam imediatamente um aviso de busca para o veículo. A essa altura, ele pode estar em qualquer lugar entre Oslo, Malmõ e Estocolmo.
Trocaram mais algumas palavras e encerraram a reunião, depois de decidirem que Sonja Modig e Marcus Ackerman iriam, juntos, interrogar Zalachenko.
Henry Cortez franziu o cenho e seguiu Erika Berger com o olhar quando ela saiu de sua sala e foi para a copa. Ela voltou, segundos depois com uma caneca de café. Fechou a porta atrás de si.
Henry Cortez não conseguia de fato atinar o que havia de errado. A Millennium era um local de trabalho pequeno, onde os funcionários acabavam ficando muito próximos. Fazia quatro anos que ele trabalhava meio período na revista e já tinha vivenciado tempestades tremendas, principalmente na época em que Mikael Blomkvist cumprira três meses de prisão por difamação e a revista por pouco não afundara. Ele também passara pelo assassinato do colaborador Dag Svensson e da companheira de Dag, Mia Bergman.
Durante todas aquelas tempestades, Erika Berger se mostrara uma fortaleza que nada, aparentemente, seria capaz de abalar. Não o surpreendia que ela o tivesse chamado tão cedo de manhã, e também Lottie Karim, pedindo que começassem logo o trabalho. O caso Salander estava implodindo, e Mikael Blomkvist estava envolvido no assassinato de um policial em Góteborg. Até aí, tudo bem. Lottie Karim tinha ficado de plantão na chefatura de polícia tentando obter alguma informação plausível. Henry passara a manhã ao telefone procurando reconstituir os acontecimentos da noite anterior. O celular de Blomkvist não atendia, mas, através de várias outras fontes, Henry já tinha um panorama bastante claro do que havia acontecido.
Em compensação, Erika Berger estivera com a cabeça longe a manhã toda. Era raro ela fechar a porta de sua sala. Isso praticamente só acontecia quando recebia alguma visita ou estava trabalhando de forma intensa em algum problema. Naquela manhã, não houvera nenhuma visita e ela não estava trabalhando. Henry tinha batido na porta da sala duas ou três vezes para lhe passar informações e dera com ela na poltrona em frente à janela, imersa em pensamentos, fitando a multidão lá embaixo na Gõtgatan com um olhar ausente.
Algo não estava bem.
A campainha da porta interrompeu suas reflexões. Ao abri-la, deparou com Annika Giannini. Henri Cortez já cruzara com a irmã de Mikael Blomkvist várias vezes, mas não a conhecia muito bem.
— Bom dia, Annika — disse ele. — O Mikael hoje não está.
— Eu sei. Eu vim falar com a Erika.
Em sua poltrona diante da janela, Erika Berger ergueu os olhos e se recompôs rapidamente quando Henry introduziu Annika. As duas mulheres ficaram a sós.
— Bom dia — disse Erika. — O Mikael hoje não está. Annika sorriu. Mas já tinha percebido o mal-estar.
— Sim, eu sei. Estou aqui por causa do relatório do Bjõrck para a Sapo. O Micke pediu que eu desse uma olhada nele, já pensando na possibilidade de eu eventualmente vir a representar a Salander.
Erika assentiu com a cabeça. Levantou-se e apanhou uma pasta em cima da mesa.
Annika pegou a pasta e hesitou um instante, prestes a sair. Então mudou de idéia e sentou-se diante de Erika.
— Bem, fora isso, qual é o problema?
— Estou saindo da Millennium. E ainda não consegui contar para o Mikael. Ele andou tão envolvido neste caso da Salander que não achei o momento certo de tocar no assunto, e também não quero contar para os outros antes de contar para ele. Por isso é que estou me sentindo uma merda.
Annika Giannini mordeu o lábio inferior.
— E então, em vez disso, está contando para mim. Qual é o seu projeto?
— Vou assumir a chefia de redação do Svenska Morgon-Posten.
— Puxa! Nesse caso, congratulações são mais apropriadas do que choro e lamentações.
— Só que não era assim que eu tinha imaginado a minha saída da Millennium. No meio deste turbilhão incrível. A coisa desabou como um raio em cima de mim, não tive como recusar. Quer dizer, é uma oportunidade única. Mas a proposta aconteceu um pouco antes de o Dag e a Mia serem assassinados, depois foi uma confusão tão grande aqui dentro que acabei não falando nada. Agora estou me sentindo tremendamente culpada, você não imagina o quanto.
— Imagino, sim. E você está com medo de falar para o Micke.
— Eu não falei para ninguém. Eu só ia começar no SMP depois do verão, e achei que tinha bastante tempo para contar. Mas agora eles estão querendo que eu assuma o quanto antes.
Calou-se e olhou para Annika. Estava a ponto de chorar.
— Concretamente, significa que esta é minha última semana na Millennium. Semana que vem vou viajar e depois... Preciso de uma semana de férias para recarregar as baterias. Vou assumir no SMP em primeiro de maio.
— E como ia ser se você tivesse sido atropelada? Em menos de um minuto eles iam ficar sem redator-chefe.
Erika ergueu os olhos.
— Só que eu não fui atropelada. Ocultei conscientemente essa história semanas a fio.
— Entendo que seja uma situação difícil, mas tenho a impressão que o Mikael, o Christer e os outros vão saber enfrentá-la. Mesmo assim, acho que você deveria contar logo para eles.
— É, mas hoje o danado do seu irmão está em Gõteborg. Está dormindo e não atende o telefone.
— Eu sei. Pouca gente tem o talento do Mikael para não atender telefone. Porém o assunto não é só entre você e o Mikael. Eu sei que faz vinte anos que vocês trabalham juntos, que já andaram transando e tudo mais, mas você tem que pensar no Christer e no pessoal da redação.
— Mas o Mikael vai...
— O Mikael vai ter um treco. Claro. Mas se ele não puder aceitar que, depois de vinte anos, você sinta vontade de conduzir seu próprio barco, então isso significa que ele não merece esse tempo todo que você gastou com ele.
Erika suspirou.
— Vamos lá, coragem. Peça que o Christer e os demais venham até aqui. Agora.
Christer Malm permaneceu abalado por alguns segundos depois que Erika reuniu os colaboradores na salinha de reuniões da Millennium. Ela ligara para o ramal de cada um deles bem no momento em que, por ser sexta-feira, ele se preparava para sair mais cedo. Ele trocou olhares com Henry Cortez e Lottie Karim, tão surpresos quanto ele. Nem a assistente de redação, Malu Eriksson, parecia estar entendendo, tampouco a jornalista Monika Nilsson e o responsável pela publicidade, Sonny Magnusson. Só faltava Mikael Blomkvist, que estava em Gõteborg.
Meu Deus. O Mikael não está sabendo, pensou Christer Malm. Como será que ele vai reagir?
Então ele percebeu que Erika Berger tinha terminado de falar e que um silêncio pesado tomava conta da sala. Balançou a cabeça, levantou-se, deu um abraço em Erika e tascou-lhe um beijo no rosto.
— Parabéns, Ricky — disse ele. — Redatora-chefe do SMP. Uma bela ascensão, para quem vem do nosso barquinho.
Henry Cortez acordou e deu início a uma espontânea salva de palmas. Erika ergueu as mãos.
— Alto lá — disse ela. — Hoje eu não estou merecendo nenhum aplauso.
Calou-se por um instante e observou seus colaboradores daquela pequena redação.
— Olha... estou super chateada com o rumo que as coisas foram tomando. Minha intenção era contar para vocês várias semanas atrás, mas a coisa se perdeu no meio da catástrofe que se seguiu aos assassinatos. O Mikael e a Malu trabalharam feito doidos e simplesmente não surgiu uma oportunidade. Por isso é que estamos nesta situação.
Com uma lucidez fantástica, Malu Eriksson percebeu a que ponto a redação carecia de pessoal efetivo e a que ponto a saída de Erika iria deixar um vazio. Em qualquer circunstância, e qualquer que fosse o caos da vez, ela sempre fora o rochedo em que Malu podia se segurar, sempre inabalável em meio à tempestade. Pois é... não era de admirar que o ilustre jornal matutino a tivesse contratado. Mas e agora? Como é que eles iam se virar? Erika sempre fora a pessoa-chave da Millennium.