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— Temos algumas coisinhas para acertar. Entendo perfeitamente que a minha saída possa desnortear um pouco a redação. Não era essa a minha intenção, mas, enfim, aconteceu. Em primeiro lugar: não estou abandonando de vez a Millennium. Vou continuar sendo sócia e participar das reuniões do conselho administrativo. Por outro lado, é claro que não vou mais ter nenhuma influência no trabalho de redação; isso me causaria um conflito de interesses.

Christer Malm assentiu com a cabeça, pensativo.

— Em segundo lugar: oficialmente, paro de trabalhar no dia 30 de abril. Mas, na verdade, hoje é o meu último dia. Como vocês sabem, vou viajar na semana que vem, já estava combinado havia tempo, e não faz sentido eu voltar ao comando só para cumprir uns poucos dias de transição.

Calou-se por alguns instantes.

— O próximo número está pronto no meu computador. Só falta acertar uns detalhezinhos. Vai ser meu último número. Depois, alguém vai ter que assumir o leme. No final da tarde vou limpar a minha mesa.

Houve um silêncio denso.

— O melhor seria o conselho administrativo decidir contratar um redator-chefe. Mas é um assunto que também deve ser discutido entre vocês da redação.

— O Mikael — disse Christer Malm.

— Não. O Mikael não. Ele seria, indiscutivelmente, o pior redator-chefe que vocês poderiam escolher. Ele é perfeito como editor responsável e é sensacional para revisar e dar um jeito em textos problemáticos que precisam ser publicados. Mas ele também trava o fluxo das coisas. Um redator-chefe deve ser alguém que jogue na ofensiva. Além disso, o Mikael tem tendência a mergulhar nas matérias dele e às vezes fica ausente semanas a fio. Ele é ótimo nos períodos de tensão, mas é um zero à esquerda no trabalho de rotina. Vocês sabem disso.

Christer Malm assentiu com a cabeça.

— Se a Millennium deu tão certo até agora, é porque você e o Mikael se completavam.

— Não é só isso. Lembrem de quando o Mikael ficou quase um ano enfurnado naquele povoado de Hedestad. A Millennium funcionou sem ele, e agora vai ter que funcionar sem mim.

— Certo. E qual é a sua idéia?

— Eu escolheria você para redator-chefe, Christer...

— Nunca, jamais. — Christer Malm fez um gesto com as mãos, como querendo frear aquela idéia.

— ... mas como eu já sabia que você ia recusar, pensei numa outra solução. Malu. Você assume a partir de hoje como redatora-chefe temporária.

— Eu?! — exclamou Malu.

— Isso mesmo, você. Você faz um supertrabalho como assistente de redação.

— Mas eu...

— Faça uma experiência. Vou esvaziar a minha sala à tarde. Você pode se mudar para lá já na segunda de manhã. A edição de maio está praticamente pronta — uma tarefa a menos. Em junho, sai uma edição dupla e depois disso temos um mês de férias. Se não der certo, a empresa vai ter que achar outra pessoa para agosto. Henry, você passa a trabalhar em tempo integral e substitui a Malu como assistente de redação. Mais tarde vocês vão ter que contratar mais um colaborador. Mas a decisão é de vocês e do conselho administrativo.

Ela se calou um instante e contemplou-os pensativamente.

— Mais uma coisa. Eu vou trabalhar numa outra publicação. O SMP e a Millennium não são propriamente concorrentes, mas de qualquer modo significa que não quero saber mais do que já sei sobre o conteúdo do próximo número. A partir de agora, vocês tratam desse assunto com a Malu.

— E o que a gente faz em relação ao caso Salander? — perguntou Henry Cortez.

— Você vê isso com o Mikael. Eu tenho informações sobre a Salander, mas vou pôr um lacre nessa história. Não vou repassar para o SMP.

De repente, Erika sentiu um alívio imenso.

— Bem, era isso — disse, encerrando a reunião. Então se levantou e retornou à sua sala sem mais comentários.

A redação da Millennium permaneceu aturdida. Uma hora mais tarde, Malu Eriksson foi bater na porta da sala de Erika.

— Olá.

— Sim? — disse Erika.

— O pessoal tem uma coisa para te dizer.

— O quê?

— Você tem que ir até lá.

Erika se levantou e acompanhou Malu. Na mesa, havia café e uma torta enorme.

— Pensei em dar um tempinho para a verdadeira festa de despedida — disse Christer Malm. — Por enquanto, vamos nos contentar com torta e café.

Pela primeira vez naquele dia, Erika Berger sorriu.

3.  SEXTA-FEIRA 8 DE ABRIL – SÁBADO 9 DE ABRIL

Alexander Zalachenko estava acordado desde as oito da manhã quando Sonja Modig e Marcus Ackerman apareceram, por volta das sete da noite. Passara por uma cirurgia relativamente séria, envolvendo o ajuste e fixação do osso malar com parafusos de titânio. Tinha a cabeça tão enfaixada que apenas o olho esquerdo permanecia visível. Um médico explicou-lhes que a machadada tinha quebrado o osso malar e machucado o frontal, rebentado boa parte da carne do lado direito do rosto e deslocado a órbita ocular. Seus ferimentos eram extremamente dolorosos. Zalachenko estava tomando doses fortes de analgésico, mas ainda assim se mantinha mais ou menos coerente e capaz de falar. A polícia, porém, teria de ficar atenta para não cansá-lo.

— Boa noite, senhor Zalachenko — cumprimentou Sonja Modig. Ela se apresentou, e apresentou seu colega Ackerman.

— Meu nome é Karl Axel Bodin — disse Zalachenko com esforço, entre dentes cerrados. Sua voz estava calma.

— Sei muito bem quem é o senhor. Li o seu currículo na Sapo.

O que não era totalmente verdade, já que a Sapo ainda não havia fornecido nenhum documento sobre Zalachenko.

— Isso foi há muito tempo — disse Zalachenko. — Atualmente, eu sou Karl Axel Bodin.

— Como se sente? — prosseguiu Modig. — Está em condições de conversar?

— Eu gostaria de dar queixa contra a minha filha. Ela tentou me matar.

— Estamos sabendo. Vai haver uma investigação sobre isso, no devido tempo — disse Ackerman. — No momento, temos assuntos mais urgentes para discutir.

— O que é mais urgente que uma tentativa de homicídio?

— Queríamos interrogá-lo a respeito de três homicídios em Estocolmo, no mínimo três homicídios em Nykvarn, além de um seqüestro.

— Eu não sei de nada. Quem é que morreu?

— Senhor Bodin, temos bons motivos para acreditar que o seu sócio, Ronald Niedermann, trinta e sete anos, é o culpado desses crimes — disse Ackerman. — Além disso, na noite passada, o Niedermann matou um policial de Trollháttan,

Sonja Modig ficou um tanto surpresa que Ackerman se rendesse à vontade de Zalachenko e o chamasse de Bodin. Zalachenko virou um pouco a cabeça, de modo a enxergar Ackerman. Sua voz se suavizou.

— Eu... lamento. Não sei das atividades do Niedermann. Quanto a mim, não matei nenhum policial. Em compensação, tentaram me matar na noite passada.

— O Ronald Niedermann está sendo procurado. Tem uma idéia de onde ele pode estar escondido?

— Não sei que círculos ele freqüenta. Eu... — Zalachenko hesitou alguns segundos. Sua voz assumiu um tom confidencial. —Tenho que admitir... cá entre nós... que o Niedermann chegou a me preocupar algumas vezes.

Ackerman inclinou-se um pouco na sua direção.

— Como assim?

— Descobri que ele podia ser violento. E, tenho medo dele.

— Quer dizer que o senhor se sentia ameaçado pelo Niedermann? — perguntou Ackerman.

— Exato. Já sou um homem de idade. Não posso me defender.

— O senhor poderia nos explicar qual a sua relação com o Niedermann?

— Eu sou deficiente físico. — Zalachenko mostrou o pé. — Esta é a segunda vez que a minha filha tenta me matar. Anos atrás, contratei o Niedermann como ajudante. Achei que ele poderia me proteger..., mas, na verdade, ele se apossou da minha vida. Ele faz o que quer e a minha opinião não importa.