— E ele o ajuda no quê? — interrompeu Sonja Modig. — A fazer o que o senhor não consegue fazer sozinho?
Zalachenko fitou demoradamente Sonja Modig com seu único olho visível.
— Pelo que entendi, ela jogou uma bomba incendiaria dentro do seu carro há mais de dez anos — disse Sonja Modig. — Poderia me explicar o que a levou a cometer esse ato?
— Melhor perguntar para a minha filha. Ela é uma doente mental. Sua voz estava mais uma vez hostil.
— Quer dizer que o senhor não vê nenhum motivo para Lisbeth Salander tê-lo atacado em 1991?
— Minha filha é uma doente mental. Existem documentos comprovando isso.
Sonja Modig inclinou a cabeça. Observou que Zalachenko respondia de modo muito mais agressivo e negativo quando era ela quem fazia as perguntas. Percebeu que Ackerman também tinha notado. Certo... o bom tira, o mau tira. Sonja Modig levantou a voz.
— O senhor não acha que esse gesto dela podia estar relacionado com o fato de o senhor maltratar a mãe dela a ponto de ela ter ficado com lesões cerebrais irreversíveis?
Zalachenko fitou calmamente Sonja Modig.
— Isso é besteira. A mãe dela era uma puta. Vai ver, algum cliente deu uma surra nela. Eu só estava passando por ali.
Sonja Modig ergueu as sobrancelhas.
— Quer dizer que o senhor é totalmente inocente?
— Mas é claro.
— Zalachenko... vamos ver se eu entendi direito. O senhor nega, então, ter maltratado sua namorada daquela época, Agneta Sofia Salander, mãe de Lisbeth Salander, embora o assunto merecesse um extenso relatório secreto do seu mentor na Sapo, Gunnar Bjòrck.
— Eu nunca fui condenado pelo que quer que seja. Não fui sequer indiciado. Não tenho culpa dos delírios de um palhaço da polícia secreta. Se tivessem suspeitado de mim, teriam no mínimo me interrogado.
Sonja Modig estava atônita. Zalachenko parecia sorrir por trás das ataduras.
— Portanto eu queria dar um depoimento sobre a minha filha. Ela tentou me matar.
Sonja Modig suspirou.
— Estou começando a entender por que a Lisbeth Salander achou necessário enfiar um machado na sua cara.
Ackerman pigarreou.
— Desculpe, senhor Bodin... A gente talvez pudesse voltar ao que o senhor sabe sobre as atividades do Ronald Niedermann.
Sonja Modig ligou para o inspetor Jan Bublanski do corredor do hospital, em frente ao quarto de Zalachenko.
— Nada — disse ela.
— Nada? — repetiu Bublanski.
— Ele registrou uma queixa contra a Lisbeth Salander, por golpes e ferimentos agravados e tentativa de assassinato. Declara que não tem nada a ver com os homicídios de Estocolmo.
— E como é que ele explica a Lisbeth Salander ter sido enterrada no terreno dele em Gosseberga?
— Diz ele que estava resfriado e dormiu praticamente o dia inteiro. Que se alguém atirou na Salander em Gosseberga, deve ter sido o Ronald Niedermann.
— Certo. O que é que nós temos?
— Ela foi baleada por uma Browning calibre 22. Por isso ainda está viva. Encontramos a arma. O Zalachenko admite que é dele.
— Ahã. Então ele sabe que vamos descobrir as digitais dele na arma.
— Sabe. Mas ele diz que a última vez que a viu ela estava guardada na gaveta da escrivaninha.
— Portanto, o maravilhoso Ronald Niedermann é quem deve ter apanhado a arma enquanto o Zalachenko dormia e atirado na Salander. Temos como provar o contrário?
Sonja Modig refletiu alguns segundos antes de responder.
— Ele deve conhecer a legislação sueca e os métodos da polícia. Não admite nadica de nada e tem o Niedermann como bode expiatório. Não sei o que a gente vai poder provar. Pedi que o Ackerman mandasse a roupa dele para o laboratório, para descobrir se existem vestígios de pólvora, mas ele com toda a certeza vai alegar que andou treinando tiro justamente com essa arma dois dias antes.
Lisbeth Salander sentiu um cheiro de amêndoas e etanol. Era como se estivesse com álcool na boca. Tentou engolir, mas era como se a língua estivesse entorpecida e paralisada. Tentou abrir os olhos, em vão. Ouviu uma voz ao longe que parecia estar falando com ela, porém não foi capaz de captar as palavras. De repente, a voz se tornou clara e precisa.
— Acho que ela está acordando.
Sentiu alguém tocando em sua testa e tentou afastar a mão importuna. Nisso, uma dor fulgurante transpassou-lhe o ombro esquerdo. Ela relaxou.
— Está me ouvindo? Cai fora.
— Consegue abrir os olhos? Quem é esse babaca me perturbando?
Por fim, abriu os olhos. De início só enxergava estranhos pontos luminosos, mas logo uma silhueta desenhou-se em seu campo de visão. Tentou focalizar o olhar, porém a silhueta sumia o tempo todo. Sua impressão era de estar com uma ressaca monumental e de que a cama não parava de jogar para trás.
— Grmlml — fez ela.
— O que você disse?
— Abaca — disse ela.
— Está bem. Dá para abrir os olhos mais uma vez?
Ela exibiu duas frestas estreitas. Avistou um rosto desconhecido e memorizou cada detalhe. Um homem loiro de olhos azuis intensos e um rosto anguloso e oblíquo, a poucas dezenas de centímetros do seu.
— Olá. Meu nome é Anders Jonasson. Eu sou médico. Você está num hospital. Foi gravemente ferida e está acordando depois de uma cirurgia. Você sabe como se chama?
— Pschalandr — disse Lisbeth Salander.
— Certo. Eu queria que você fizesse um favor para mim. Conte até dez.
— Um, dois, quatro... não... três, quatro, cinco, seis... E então caiu no sono.
O Dr. Anders Jonasson, no entanto, estava satisfeito com a reação que observara. Ela dissera o próprio nome e tinha começado a contar. Isso mostrava que seu intelecto estava mais ou menos intacto e que seu estado ao acordar não fora o de um vegetal. Anotou a hora em que ela acordou, 21h06, pouco mais de dezesseis horas depois de ele terminar a cirurgia. Quanto a ele, dormira boa parte do dia e voltara ao Sahlgrenska lá pelas sete da noite. Na verdade, era seu dia de folga, mas estava com uma montanha de papéis para pôr em dia.
E não tinha resistido a dar uma passada na UTI para ver a paciente em cujo cérebro ele remexera de madrugada.
— Ela pode continuar dormindo, mas fiquem de olho no eletroencefalograma. Pode ocorrer algum edema ou hemorragia cerebral. Tive a impressão de que ela estava com muita dor no ombro quando tentou mexer o braço. Se ela acordar, pode dar dois miligramas de morfina de hora em hora.
Sentiu-se estranhamente otimista enquanto saía pela entrada principal do Sahlgrenska.
Pouco antes das duas da manhã, Lisbeth Salander acordou de novo. Abriu os olhos lentamente e avistou um cone luminoso no teto. Passados vários minutos, virou a cabeça e se deu conta de que estava com um colete ortopédico. A cabeça doía e sentiu uma ferroada aguda no ombro quando tentou deslocar o peso do corpo. Fechou os olhos.
Hospital. Como é que eu vim parar aqui?
Sentia-se absolutamente esgotada.
De início, sentiu dificuldade para focalizar os pensamentos. Então, algumas lembranças esparsas foram voltando aos poucos.
Por alguns segundos entrou em pânico quando brotaram uns fragmentos de memória — viu a si mesma cavando para sair de dentro de um túmulo. Então cerrou os dentes com força e se concentrou na respiração.
Constatou que estava viva. Não sabia se isso, na verdade, era uma boa ou uma má notícia.
Lisbeth Salander não se lembrava direito do que havia acontecido, mas tinha na cabeça um mosaico desfocado de imagens do galpão de lenha. Via a si mesma erguendo um machado e acertando no rosto de seu pai. Zalachenko. Não sabia se ele estava vivo ou morto.
Não conseguia se lembrar do que acontecera com Niedermann. Tinha a vaga impressão de haver se espantado ao vê-lo dar no pé a toda velocidade e de não ter entendido por quê.
De repente, se lembrou de ter visto o danado do Super-Blomkvist. Talvez fosse só um sonho, mas se lembrava de uma cozinha — provavelmente a cozinha de Gosseberga — e tinha a impressão de que ele viera em sua direção. Deve ter sido alucinação.