Os acontecimentos de Gosseberga pareciam muito distantes ou então não passavam de um sonho demente. Concentrou-se no atual momento.
Estava ferida. Isso ninguém precisava lhe dizer. Ergueu a mão direita e apalpou a cabeça, inteiramente coberta de ataduras. Então se lembrou. Niedermann. Zalachenko. O velho cretino também estava com uma pistola. Uma Browning calibre 22, que, se comparada com outras armas, era tida como relativamente inofensiva. Só por isso ela ainda estava viva.
Fui atingida na cabeça. Eu até consegui enfiar o dedo no orifício que a bala fez ao entrar e toquei no meu cérebro.
Surpreendeu-se de ainda estar viva. Percebeu que se sentia estranhamente alheia, que na verdade para ela tanto fazia. Se a morte era aquele vazio escuro do qual acabava de emergir, então a morte não era nada preocupante. Nunca iria perceber a diferença.
Com essa reflexão esotérica, fechou os olhos e voltou a adormecer.
Cochilara apenas uns minutos quando escutou um movimento e entreabriu as pálpebras. Viu uma enfermeira vestida de branco debruçando-se sobre ela. Fechou os olhos e fingiu que estava dormindo.
— Acho que você está acordada — disse a enfermeira.
— Hmm — fez Lisbeth Salander.
— Olá, meu nome é Marianne. Você entende o que eu falo? Lisbeth tentou assentir com a cabeça, mas se deu conta de que sua nuca estava imobilizada pelo colete ortopédico.
— Não, não tente se mexer. Não precisa ter medo. Você foi ferida e passou por uma cirurgia.
— Quero água.
Marianne lhe deu água para beber com um canudinho. Enquanto bebia, notou outra pessoa aparecendo à sua esquerda.
— Olá, Lisbeth. Está me ouvindo?
— Mmm — respondeu Lisbeth.
— Sou a doutora Helena Endrin. Você sabe onde está?
— Hospital.
— Você está no Hospital Sahlgrenska, em Gõteborg. Acaba de ser operada e se encontra na UTI.
— Hum.
— Não se assuste.
— Fui baleada na cabeça.
A Dra. Endrin hesitou por um instante.
— Isso mesmo. Você se lembra do que aconteceu?
— O velho cretino estava com uma pistola.
— Hã... sim, foi isso.
— Calibre 22.
— Ah, é? Eu não sabia.
— Estou muito machucada?
— O prognóstico é bom. Você esteve muito mal, mas achamos que tem boas chances de se recuperar completamente.
Lisbeth ponderou a informação. Então fixou o olhar na Dra. Endrin. Notou que via tudo fora de foco.
— O que aconteceu com o Zalachenko?
— Quem?
— O velho cretino. Está vivo?
— Você quer dizer Karl Axel Bodin.
— Não. Quero dizer Alexander Zalachenko. E o verdadeiro nome dele.
— Não estou sabendo. Mas o idoso que deu entrada junto com você está em estado grave, porém fora de perigo.
O coração de Lisbeth bateu com menos força. Ficou pensando nas palavras da médica.
— Onde ele está?
— No quarto ao lado. Mas não se preocupe com ele agora. O que você precisa fazer é se concentrar na sua recuperação.
Lisbeth fechou os olhos. Por um momento, perguntou-se se teria forças para sair da cama, encontrar alguma coisa que pudesse servir de arma e acabar o que tinha começado. Então afastou esses pensamentos. Mal conseguia manter os olhos abertos. Ou seja, havia fracassado em seu propósito de matar Zalachenko. Ele vai me escapar mais uma vez.
— Eu queria examiná-la um pouco. Depois você pode dormir de novo — disse a Dra. Endrin.
Mikael Blomkvist acordou de repente, sem saber por quê. Levou alguns segundos para se dar conta de onde estava, então se lembrou que tinha se hospedado num quarto do City Hotel. O quarto estava totalmente às escuras. Ele acendeu a luz de cabeceira e olhou as horas. Duas e meia da manhã. Tinha dormido quinze horas direto.
Levantou-se e foi ao banheiro urinar. Depois, refletiu um momento. Sabia que não conseguiria dormir de novo e foi para o chuveiro. Em seguida, enfiou uma calça jeans e um moletom cor de vinho que precisava urgentemente passar por uma máquina de lavar. Estava com uma fome de leão e ligou para a recepção perguntando se era possível conseguir café e sanduíches àquela hora. Era.
Pôs os mocassins e o casaco, desceu até a recepção para comprar café e um sanduíche pronto, e voltou em seguida para o quarto. Enquanto comia o pão com patê de fígado e salada, ligou o iBook e se conectou à rede. Abriu a edição on-line do Aftonbladet. Como era de se prever, a principal manchete falava da prisão de Lisbeth Salander. Embora extremamente confusa, a matéria da primeira página agora estava na direção certa. Ronald Niedermann, trinta e sete anos, era procurado pelo assassinato do policial, e a polícia também queria ouvi-lo sobre os homicídios de Estocolmo. A polícia ainda não se pronunciara sobre o estado de Lisbeth Salander nem citava o nome Zalachenko. Este último era descrito como um proprietário rural de sessenta e seis anos, residente em Gosseberga; aparentemente, a mídia ainda o tratava como uma possível vítima.
Quando, ao terminar a leitura, Mikael pegou seu celular, viu que tinha vinte mensagens. Três pedindo que ele ligasse para Erika Berger. Duas eram de Annika Giannini. Catorze tinham sido deixadas por jornalistas de diversos veículos. Uma das mensagens de texto, bastante incisiva, era de Christer Malm: Seria bom você voltar no primeiro trem.
Mikael franziu o cenho. Vinda de Christer Malm, era uma mensagem estranha. Fora enviada às sete da noite do dia anterior. Resistiu ao impulso de ligar e acordar alguém às três da manhã. Em vez disso, verificou o horário de trens na internet e viu que o primeiro para Estocolmo saía às 5h20.
Abriu um novo arquivo Word. Então acendeu um cigarro e ficou uns três minutos parado, fitando a tela branca. Por fim, levantou os dedos e se pôs a escrever.
[Seu nome é Lisbeth Salander e a Suécia aprendeu a conhecê-la através das entrevistas coletivas da polícia e das manchetes dos jornais vespertinos. Tem vinte e sete anos e um metro e cinqüenta de altura. Foi descrita como uma psicopata, uma assassina e uma lésbica satânica. Não houve limites para as elucubrações tecidas às suas custas. Neste número, a Millennium relata a história de Lisbeth Salander, vítima das maquinações de funcionários do Estado com o intuito de acobertar um assassino patológico.]
Escreveu devagar e pouco corrigiu daquele primeiro jorro. Trabalhou concentrado por cinqüenta minutos e nesse espaço de tempo preencheu duas páginas A4 basicamente dedicadas à recapitulação da noite em que encontrara os corpos de Dag Svensson e Mia Bergman e à explicação para o fato de a polícia ter apontado Lisbeth Salander como a possível assassina. Citava as manchetes dos jornais vespertinos que evocaram lésbicas satânicas e esperavam assassinatos tingidos de um saboroso sadomasoquismo.
Por fim, consultou o relógio e fechou rapidamente o iBook. Arrumou sua sacola e desceu até a recepção. Pagou com o cartão de crédito e tomou um táxi para a estação central de Gõteborg.
Mikael Blomkvist dirigiu-se imediatamente ao vagão-restaurante e pediu um café da manhã. Em seguida, tornou a ligar o iBook e releu o texto que tivera tempo de escrever naquelas primeiras horas do dia. Estava a tal ponto imerso na concepção da história de Zalachenko que só percebeu a presença da inspetora Sonja Modig quando ela pigarreou e perguntou se podia juntar-se a ele. Mikael ergueu os olhos e fechou o computador.
— Está voltando para casa? — perguntou Modig. Ele fez que sim com a cabeça.
— Você também, imagino. Ela fez que sim com a cabeça.
— O meu colega vai ficar mais um dia.
— Alguma notícia sobre o estado da Lisbeth Salander? Eu só fiz dormir desde que nos separamos.
— Ela só acordou ontem à noite. Mas os médicos calculam que ela vai sair dessa e se recuperar. Teve uma sorte incrível.