Mikael assentiu com a cabeça. De repente se deu conta de que não tinha se preocupado com ela. Partira do princípio de que ela iria sobreviver. Qualquer outra hipótese era inimaginável.
— Alguma novidade? — perguntou.
Sonja Modig hesitou enquanto olhava para ele. Perguntava-se até que ponto podia confiar no jornalista, que na verdade sabia mais do que ela sobre aquela história. Por outro lado, ela é que se convidara para sentar à mesa dele, e uma centena de jornalistas decerto já tinha entendido o que estava acontecendo na chefatura de polícia.
— Prefiro que não mencione o meu nome — disse ela.
— Perguntei por interesse puramente pessoal.
Ela assentiu com a cabeça e explicou que a polícia estava procurando Ronald Niedermann em todo o território nacional, mas principalmente na região de Malmò.
— E o Zalachenko? Vocês o interrogaram?
— Interrogamos.
— E?
— Isso eu não posso dizer.
— Deixa disso, Sonja. Eu vou descobrir tudo o que vocês conversaram uma hora depois de chegar à redação em Estocolmo. E não vou escrever nenhuma palavra do que você me disser.
Ela hesitou um bocado antes de cruzar o olhar com o dele.
— Ele registrou uma queixa contra a Lisbeth Salander de que ela teria tentado matá-lo. Ela talvez seja indiciada por golpes e ferimentos agravados mais tentativa de homicídio.
— E ela, muito provavelmente, vai alegar legítima defesa.
— É o que eu espero — disse Sonja Modig. Mikael lançou-lhe um olhar brusco.
— Essa não é uma observação que se espere de um policial — ele disse, em tom neutro.
— O Bodin... o Zalachenko, ele é escorregadio e tem resposta para todas as perguntas. Estou absolutamente convencida de que tudo que você nos contou ontem, de modo geral, é verdade. Isso significa que a Salander foi vítima de abusos judiciais seguidos desde os doze anos.
Mikael assentiu com a cabeça.
— Essa é a história que eu vou publicar — disse.
— E que não vai ser bem recebida em alguns círculos. Ela hesitou mais um instante. Mikael esperou.
— Falei com o Bublanski há meia hora. Ele não disse muito, mas o inquérito preliminar sobre a Salander em relação aos seus amigos parece ter sido abandonado. Eles agora estão se concentrando no Niedermann.
— Isso quer dizer...
Ele deixou a pergunta suspensa entre eles. Sonja Modig deu de ombros.
— Quem vai ficar encarregado da investigação sobre a Salander?
— Não sei. O pessoal de Gõteborg provavelmente tenha prioridade no caso Gosseberga. Mas eu diria que é para alguém de Estocolmo que vai ficar a tarefa de reunir todo o material para um indiciamento.
— Entendo. Você quer apostar como a investigação vai ser transferida para a Sapo?
Ela balançou a cabeça.
Pouco antes de chegar a Alingsâs, Mikael inclinou-se para ela.
— Sonja... imagino que você esteja percebendo o que nos espera. Caso a história do Zalachenko se torne pública, vai ser um enorme escândalo. Membros da Sapo armaram com um psiquiatra para internar a Salander num asilo de doidos. A única saída para eles é fincar pé na versão de que Lisbeth Salander é de fato uma doente mental e que a internação compulsória de 1991 se justificava.
Sonja Modig aquiesceu.
— Vou fazer de tudo para pôr areia num plano desse tipo. Quer dizer, a Lisbeth Salander é tão equilibrada como eu ou você. Tudo bem, ela é esquisita, mas não se pode pôr em dúvida a capacidade intelectual dela.
Sonja Modig assentiu com a cabeça. Mikael fez uma pausa, dando tempo para que suas palavras fossem assimiladas.
— Eu precisaria de alguém de confiança lá dentro — disse ele. Ela o encarou.
— Não tenho competência para determinar se a Lisbeth Salander é psiquicamente perturbada — ela respondeu.
— Não, mas tem competência para avaliar se ela está sendo, ou não, vítima de abuso judicial.
— O que você sugere?
— Não vou pedir que você denuncie seus colegas, mas que me avise se perceber que estão tramando para expor a Salander a mais um abuso judicial.
Sonja Modig permaneceu calada.
— Não quero que você me revele nenhum detalhe técnico da investigação. Isso você é quem decide. Mas preciso saber em que pé está a ação judicial contra a Salander.
— Parece um ótimo jeito de ser mandada embora.
— Você é uma fonte. Não vou te citar nem te botar numa encrenca. Pegou um caderninho e anotou um endereço de e-mail.
— Este é um endereço anônimo no hotmail. Você pode usar, caso queira me dizer alguma coisa. De preferência, não use seu endereço habitual, o que todo mundo conhece. Crie um endereço temporário no hotmail.
Ela apanhou o pedaço de papel e o enfiou no bolso interno do casaco. Não prometeu nada.
Às sete da manhã de sábado, o inspetor Marcus Ackerman foi acordado pelo toque do telefone. Ouviu vozes na televisão e sentiu cheiro de café na cozinha, onde sua mulher já estava em atividade. Chegara à sua casa em Mõlndal à uma da manhã e dormira cinco horas. Antes disso, atuara a todo vapor por exatamente vinte e duas horas. Estava longe, portanto, de ter preenchido sua cota de sono quando se esticou para atender o telefone.
— Oi, é o Lundqvist, do serviço de investigações, plantão noturno. Está acordado?
— Não — respondeu Ackerman. — Mal tive tempo de pegar no sono. O que foi?
— Novidades. Encontraram Anita Kaspersson.
— Onde?
— Perto de Seglora, ao sul de Borâs. Ackerman visualizou o mapa mentalmente.
— Direção sul — disse. — Ele está passando por estradas secundárias. Deve ter pegado a nacional 180 via Borâs, e depois virou para o sul. Malmõ já foi avisada?
— Sim, e também Helsingborg, Landskrona e Trelleborg. E Karlskrona. Estou pensando nas balsas do mar Báltico.
Ackerman se levantou e esfregou a nuca.
— Ele está com quase vinte e quatro horas de dianteira. De repente, até já deixou o país. Como é que encontraram a Kaspersson?
— Ela bateu à porta de uma casa na entrada de Seglora.
— O quê?
— Ela bateu...
— Eu escutei. Quer dizer que ela está viva?
— Desculpe. Estou cansado e devo estar me expressando meio mal. Anita Kaspersson conseguiu chegar a Seglora às 3hl0. Ela acordou e assustou uma família com crianças pequenas ao bater na porta da casa. Estava descalça, com uma hipotermia avançada e as mãos atadas nas costas. Nesse momento está no hospital de Borâs, e o marido já está lá com ela.
— Veja só. Acho que ninguém aqui acreditava que ela ainda estivesse viva.
— Às vezes acontece uma surpresa.
— E das boas, ainda por cima.
— Então já posso te dar as más notícias. A adjunta do chefe de polícia, a senhora Spângberg, está aqui desde as cinco da manhã. Ela pediu que você acordasse imediatamente e fosse até Borâs pegar o depoimento da Kaspersson.
Como era sábado de manhã, Mikael imaginou que a redação da Millennium estivesse deserta. Ligou para Christer Malm enquanto o X2000 atravessava a ponte de Arsta e perguntou o que havia por trás da sua mensagem de texto.
— Você já tomou café da manhã? — perguntou Christer Malm.
— Tomei, no trem.
— Certo. Venha até a minha casa, vou te oferecer algo mais consistente.
— O que está havendo?
— Eu conto quando você chegar.
Mikael pegou o metrô até a Medborgarplatsen, e de lá foi a pé até a Allhelgonagatan. O companheiro de Christer, Arnold Magnusson, foi quem abriu a porta. Por mais que tentasse evitar, sempre que o via Mikael tinha a sensação de estar diante de uma publicidade. Arnold Magnusson passara pelo Teatro Dramaten e era um dos atores mais requisitados da Suécia. Estar diante dele era sempre perturbador. Em geral, Mikael não se impressionava com celebridades, mas Arnold Magnusson tinha uma aparência de fato singular e estava tão associado a alguns papéis do cinema e da tevê, principalmente o de Gunnar Frisk, delegado mal-humorado de uma série de televisão muito popular, que Mikael sempre esperava que ele se comportasse exatamente como Gunnar Frisk.