— Oi, Micke — disse Arnold.
— Oi — respondeu Mikael.
— Ele está na cozinha — disse Arnold, dando-lhe passagem. Christer Malm serviu filhos quentes com geléia de amora amarela e café.
Mikael já estava com água na boca antes mesmo de se sentar, por isso atacou o prato. Christer Malm quis saber o que tinha acontecido em Gosseberga, e Mikael recapitulou tudo com detalhes. Estava no terceiro filho quando perguntou o que estava rolando.
— Tivemos um probleminha na Millennium quando você estava em Gõteborg — disse ele.
Mikael ergueu as sobrancelhas.
— O que foi?
— Nada sério. Só que a Erika Berger virou redatora-chefe do Svenska Moron-Posten. Ontem foi o último dia dela na Millennium.
Mikael ficou paralisado, com um filho na mão a vinte centímetros da boca. Levou vários segundos para assimilar o real significado da informação.
— Por que ela não disse nada antes? — perguntou, afinal.
— Porque ela queria primeiro falar com você, e você tem corrido de lá para cá há várias semanas e ninguém conseguia te contatar. Ela deve ter achado que você já tinha problemas suficientes com essa história da Salander. E como queria que você fosse o primeiro à saber, também não contou nada pra gente, e os dias foram se passando... E isso. De repente, ela se viu com um puta sentimento de culpa e estava super deprimida. E a gente simplesmente nem percebeu.
Mikael fechou os olhos.
— Merda — disse ele.
— Eu sei. No fim, você foi o último da redação a ficar sabendo. Fiz questão de te contar para poder explicar como as coisas aconteceram e para você não pensar que agimos pelas suas costas.
— Nem me ocorreu uma coisa dessas. Mas puxa vida! E muito legal para ela ter conseguido esse emprego, isso se ela estiver mesmo a fim de trabalhar no SMP... E nós? Como é que a gente vai descascar esse abacaxi na redação?
— A Malu foi nomeada redatora-chefe temporária, e ela começa na próxima edição.
— A Malu?
— Se você não quiser ser o redator-chefe...
— Nem pensar!
— Foi o que eu imaginei. Logo, a Malu assume o cargo.
— E quem vai ser o assistente de redação?
— O Henry Cortez. Faz quatro anos que ele trabalha conosco e já não é exatamente um estagiário balbuciante.
Mikael avaliou todas as sugestões.
— Posso dar uma opinião? — perguntou.
— Não — disse Christer Malm.
— Certo. Vai ser como vocês decidiram. A Malu não é de se assustar, mas é meio insegura. O Henry atira a esmo em tudo que se movimenta um pouco além da conta. Vamos ter que ficar de olho neles.
— Isso.
Mikael se calou. Pensou no vazio que Erika iria deixar; ele não fazia idéia de como seria a revista dali para a frente.
— Preciso ligar para a Erika e...
— Não é uma boa idéia.
— Por quê?
— Ela está dormindo na redação. O melhor seria ir até lá acordá-la.
Mikael encontrou Erika Berger na redação, profundamente adormecida no sofá-cama de sua sala. Tinha passado a noite tirando objetos pessoais das prateleiras e gavetas e separando os papéis que queria levar. Enchera cinco caixas de mudança. Mikael ficou um bom tempo contemplando-a da porta antes de entrar e sentar-se na beira do sofá para acordá-la.
— Você pode me explicar por que, quando quer passar a noite trabalhando, não vai dormir na minha casa, que é aqui pertinho? — perguntou ele.
— Oi, Mikael — disse ela.
— O Christer já me contou.
Ela começou a falar alguma coisa, mas ele se inclinou e deu-lhe um beijo no rosto.
— Você está chateado?
— Super chateado — ele disse, seco.
— Sinto muito. Eu simplesmente não podia recusar essa proposta. Mas não me parece certo, tenho a sensação de estar deixando vocês numa encrenca daquelas aqui na Millennium.
— Não acho que eu seja a pessoa certa para criticar você por abandonar o navio. Há dois anos, fui embora e te deixei numa encrenca bem pior do que esta de agora.
— São situações muito diferentes. Você estava dando um tempo. Já eu estou me demitindo pra valer e não contei a vocês. Sinto muito, de verdade.
Mikael ficou um instante em silêncio. Então exibiu um sorriso pálido.
— Quando chega a hora, é porque é a hora. Quando uma mulher recebe uma missão, ela tem que cumpri-la. Às suas ordens, meu coronel!
Erika sorriu. Era mais ou menos o que ela tinha dito a ele quando Mikael fora morar em Hedeby. Ele estendeu a mão e despenteou-lhe carinhosamente o cabelo.
— Entendo que você não queira mais trabalhar nesta empresa de malucos, mas você querer virar chefe no jornal dos velhos babacas mais medíocres da Suécia, isso eu ainda vou levar um tempo para digerir.
— Tem um bocado de mulheres trabalhando lá.
— Que nada! Dê uma olhada no editorial. Velharia, só velharia. Você por acaso é masoquista? Vamos tomar um café?
Erika se sentou.
— Você precisa me contar o que aconteceu em Gõteborg na outra noite.
— Estou escrevendo a matéria — disse Mikael. — E vai ser uma guerra depois que a gente publicar.
— A gente, não. Quando vocês publicarem.
— Eu sei. Vamos publicar na mesma época do julgamento. Mas imagino que você não vá levar o assunto para o SMP. A verdade é que eu queria que você escrevesse alguma coisa sobre o caso Zalachenko antes de sair da Millennium.
— Micke, eu...
— O seu último editorial. Você pode escrever quando quiser. Não deve ser publicado antes do julgamento, e só Deus sabe quando isso vai ser.
— Talvez não seja uma boa idéia. Sobre o que seria esse editorial?
— Sobre a moral — disse Mikael Blomkvist. — E sobre o fato de um dos nossos colaboradores ter sido assassinado porque o Estado não cumpriu seu papel há quinze anos. •
Nem era preciso explicar mais nada. Erika Berger sabia muito bem que tipo de editorial ele queria. Refletiu rápido. Afinal, ela estava no comando no dia em que Dag Svensson tinha sido assassinado. De repente, sentiu-se muito melhor.
— Está bem — disse. — Meu último editorial.
4. SÁBADO 9 DE ABRIL - DOMINGO 10 DE ABRIL
À uma da tarde de sábado, a procuradora Martina Fransson, de Sõdertalje, concluíra suas reflexões. O cemitério natural na floresta de Nykvarn era uma encrenca bem feia e a área criminal já somara uma quantidade incrível de horas extras desde a quarta-feira, quando Paolo Roberto travara sua luta de boxe contra Ronald Niedermann no armazém. Estavam diante do homicídio de pelo menos três pessoas, cujos corpos haviam sido enterrados no terreno, um seqüestro com uso de violência seguido de golpes e ferimentos agravados contra Miriam Wu, amiga de Lisbeth Salander, e por fim um incêndio criminoso. Também tinham que associar Nykvarn ao incidente de Stallarholmen, que não se situava no mesmo distrito policial, mas do qual Carl-Magnus Lundin, do MC Svavelsjõ, era figura-chave. No momento, Lundin estava no hospital de Sõdertãlje com um pé engessado e uma placa de metal no maxilar. De qualquer forma, todos esses crimes estavam sob a autoridade da polícia local, o que significava que Estocolmo é que daria a palavra final.
Na sexta-feira, haviam deliberado acerca da expedição das ordens de prisão. Lundin estava ligado a Nykvarn, isso era certo. Com algum atraso, conseguiram estabelecer que o armazém era propriedade de uma certa Anneli Karlsson, de cinqüenta e dois anos, residente em Puerto Banus, na Espanha.
Era prima de Magge Lundin, não tinha ficha na polícia e, nesse contexto, parecia cumprir, sobretudo, o papel de testa de ferro.
Martina Fransson fechou a pasta do inquérito preliminar. A instrução estava em seu estágio inicial e ainda seria alimentada com várias centenas de páginas antes de resultar num processo. Mas Martina Fransson precisava desde já tomar uma decisão sobre alguns pontos. Olhou para seus colegas policiais.