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— E o que vocês fizeram com ele?

— O Danny K. está cuidando disso. Levou ele até o Viktor.

Viktor Gõransson era o tesoureiro e contador do clube, morava para os lados de Jãrna. Gõransson tinha um diploma profissionalizante em economia e começara a carreira como consultor financeiro de um iugoslavo que reinava em alguns cabarés, até o bando todo ser preso por sonegação fiscal. Conheceu Magge Lundin na prisão de Kumla, no início dos anos 1990. Era o único do MC Svavelsjõ que sempre andava de terno e gravata.

— Waltari, você pega o caixa e vem se encontrar comigo em Sõdertãlje. Me procure em frente à estação ferroviária do subúrbio daqui a quarenta e cinco minutos.

— Tá bom, tá bom. Por que tanta pressa?

— Porque eu tenho que assumir o controle da situação o quanto antes.

Hans-Ake Waltari observava disfarçadamente Benny Nieminen, que mantinha um silêncio emburrado enquanto rodavam para Svavelsjõ. Ao contrário de Magge Lundin, Nieminen não era uma pessoa simpática. Era bonito e parecia doce, mas na verdade tinha pavio curto e sabia ser um bocado perigoso, principalmente depois de tomar umas e outras. No momento estava sóbrio, mas Waltari estava um pouco preocupado com a idéia de que Nieminen ia assumir o comando. Magge sempre soubera, de um jeito ou de outro, acalmar o jogo de Nieminen. Perguntava-se o que viria pela frente com Nieminen como presidente temporário do clube.

Danny K. não se encontrava no local. Nieminen tentou ligar duas vezes para o celular dele, mas não obteve resposta.

Foram para a casa de Nieminen, a um bom quilômetro do clube. Também lá a polícia realizara uma busca, mas não achara nada que servisse para a investigação sobre Nykvam. Sem nada do que ser acusado, Nieminen estava livre.

Tomou um banho e trocou de roupa enquanto Waltari esperava pacientemente na cozinha. Depois, caminharam cento e cinqüenta metros pelo mato atrás da casa de Nieminen e destaparam um baú superficialmente enterrado ali que continha seis armas, incluindo um AK-5, uma boa quantidade de munição e dois quilos de explosivos. Era o estoquezinho particular de Nieminen. Duas armas do baú eram Wanad P-83 polonesas. Pertenciam ao mesmo lote da pistola que Lisbeth Salander surrupiara de Nieminen em Stallarholmen.

Nieminen afastou Lisbeth Salander da mente. Aquele era um assunto delicado. Na cela da carceragem, em Estocolmo, repassara com freqüência a cena em que ele e Magge Lundin chegavam à casa de campo de Nils Bjurman e deparavam com Salander no pátio.

A seqüência dos acontecimentos fora absolutamente inesperada. Ele e Magge Lundin tinham ido lá pôr fogo na casa por ordem daquele maldito gigante loiro. E toparam com a piranha da Lisbeth Salander — sozinha, um metro e meio e um palito de magra. Nieminen se perguntava quanto ela pesava. De repente, as coisas tinham desandado numa orgia de violência para a qual nenhum dos dois estava preparado.

De um ponto de vista meramente técnico, ele conseguia entender a seqüência. Salander tinha esvaziado um cartucho de gás lacrimogêneo na cara de Magge Lundin. Magge deveria ter esperado por isso, mas não foi o caso. Ela então lhe desfechara dois pontapés, e para quebrar um maxilar não é preciso ter muita força muscular. Ela o pegara de surpresa. Dava para entender.

Mas aí ela atacara a ele, Benny Nieminen, o homem que os caras sarados pensavam duas vezes antes de provocar. Ela se movia com uma rapidez incrível. Ele tivera dificuldades para pegar a arma. Ela o esmagara com a humilhante facilidade de quem está simplesmente enxotando um mosquito com a mão. Tinha um cassetete elétrico. Tinha...

Quando acordou, não se lembrava de quase nada, Magge Lundin levara uma bala no pé e a polícia estava a caminho. Depois de alguma discussão entre a polícia de Stãngnás e a de Sõdertãlje, fora parar na cadeia de Sõdertãlje. E a pilantra ainda havia roubado a Harley Davidson do Magge Lundin. Tinha recortado, na jaqueta dele, o logo do MC Svavelsjõ — o mesmo símbolo que, nos botecos, fazia as pessoas se afastarem e conferia um prestígio que o sueco comum não podia entender. Ela o humilhara.

De repente, Benny Nieminen começou a ferver por dentro. Permanecera calado durante os interrogatórios. Jamais poderia contar o que tinha acontecido em Stallarholmen. Até então, Lisbeth Salander não significava absolutamente nada para ele. Era só um projetinho secundário de que Magge Lundin estava tratando — a pedido, mais uma vez, do maldito Niedermann.

Mas agora nutria por ela um ódio apaixonado que o surpreendia. Ele em geral era frio e lúcido, ao passo que agora só pensava em ter, qualquer dia, a oportunidade de se vingar e apagar a vergonha. Mas primeiro precisava pôr ordem no caos em que a Salander e o Niedermann, juntos, tinham lançado o MC Svavelsjõ.

Nieminen pegou duas pistolas polonesas que ainda estavam no baú, carregou-as e entregou uma para Waltari.

— Você tem algum plano?

— Vamos ter uma conversinha com o tal Niedermann. Ele não é dos nossos e nunca foi preso. Não sei como vai reagir se for pego, mas se ele abrir a boca pode acabar com a gente. Íamos todos em cana rapidinho.

— Quer dizer que a gente vai...

Nieminen já tinha decidido eliminar Niedermann, mas percebeu que não era hora de assustar Waltari.

— Não sei. Vamos ver qual é a dele. Se ele tiver um plano e puder se mandar logo para fora do país, a gente pode dar uma mãozinha. Mas enquanto ele estiver correndo o risco de ser preso, vai representar uma ameaça para a gente.

O sítio de Viktor Gõransson, próximo de Jãrna, estava às escuras quando, ao entardecer, Nieminen e Waltari entraram no pátio. Isso em si já parecia um mau sinal. Ficaram esperando algum tempo no carro.

— Talvez eles tenham saído — sugeriu Waltari.

— Tudo a ver. Eles podem ter ido até o boteco tomar um trago com o Niedermann — disse Nieminen, abrindo a porta do carro.

A porta da casa não estava trancada. Nieminen acendeu a luz. Passaram por todos os cômodos. Estava tudo limpo e arrumado, provavelmente graças à mulher com quem o Gõransson vivia.

Deram com Gõransson e sua companheira no porão, jogados na lavanderia.

Nieminen se inclinou e observou os cadáveres. Estendeu o dedo e encostou na mulher, cujo nome não lembrava. Estava gelada e rígida. Isso significava que podiam estar mortos havia umas vinte e quatro horas.

Nieminen não precisava do parecer de um médico-legista para saber como eles tinham morrido. O pescoço da mulher havia se partido quando a cabeça dela foi girada cento e oitenta graus. Vestia jeans e camiseta e não aparentava nenhum outro ferimento.

Já Viktor Gõransson estava apenas de cueca. Fora seriamente espancado e seu corpo estava coberto de ferimentos e hematomas. Os dois braços tinham sido quebrados e apontavam em várias direções, feito galhos tortos de pinheiro. Sofrerá maus-tratos prolongados que só podiam ser qualificados como tortura. Até onde Nieminen podia avaliar, fora enfim morto com um forte golpe na garganta. A laringe estava afundada no pescoço.

Benny Nieminen se levantou, subiu a escada do porão e saiu da casa. Waltari foi atrás dele. Nieminen atravessou o pátio e seguiu até a granja a cinqüenta metros dali. Soltou a tranca e abriu a porta.

Deparou com um Renault azul-escuro.

— Qual é o carro do Gõransson? — perguntou.

— Ele anda com um Saab.

Nieminen assentiu com a cabeça. Tirou as chaves do bolso e abriu uma porta no fundo da granja. Uma olhada rápida lhe informou que chegara tarde demais. Um armário pesado onde se guardavam as armas estava aberto de par em par.

Nieminen fez uma careta.

— Pouco mais de oitocentas mil coroas — disse.

— O quê?

— Pouco mais de oitocentas mil coroas é o que o MC Svavelsjõ tinha neste armário. A nossa grana.

Três pessoas sabiam onde o MC Svavelsjõ guardava o dinheiro a ser investido ou lavado. Viktor Gõransson, Magge Lundin e Benny Nieminen. Niedermann estava fugindo. Precisava de dinheiro vivo. Sabia que Gõransson era quem cuidava do financeiro.