Выбрать главу

Nieminen fechou a porta e saiu sem pressa da granja. Raciocinava febrilmente, tentando formar um panorama do desastre. Uma parte dos recursos do MC Svavelsjõ estava investida em títulos a que ele poderia ter acesso e outra parte poderia ser reconstituída com o auxílio de Magge Lundin. Mas uma boa parte dos investimentos só estava registrada na cabeça de Gõransson, a menos que ele tivesse passado instruções claras para Magge Lundin. Nieminen duvidava muitíssimo disso — Magge nunca fora um gênio da economia. Por cima, Nieminen avaliou que com a morte de Gõransson o MC Svavelsjõ podia ter perdido até sessenta por cento de seu capital. Um golpe tremendo. Era sobretudo dinheiro vivo de que precisavam para as despesas diárias.

— O que a gente faz agora? — perguntou Waltari.

— Agora a gente informa a polícia sobre o que aconteceu.

— Informar a polícia?

— Claro, porra. As minhas digitais estão por toda a casa. Só quero que eles encontrem o Gõransson e a mulher o quanto antes e o legista possa determinar que eles foram mortos quando eu ainda estava detido.

— Entendo.

— Melhor assim. Descubra onde está o Danny K. Quero falar com ele. Quer dizer, se ele ainda estiver vivo. Depois disso, vamos atrás do Ronald Niedermann. A ordem, para os nossos contatos em todos os clubes da Escandinávia, é abrir o olho. Quero a cabeça desse calhorda. Ele provavelmente está usando o Saab do Gõransson. Descubra o número da placa.

Quando Lisbeth Salander acordou, às duas da tarde de sábado, estava sendo examinada por um médico.

— Boa tarde — disse ele. — Meu nome é Sven Svantesson, sou médico. Está sentindo alguma dor?

— Sim — disse Lisbeth Salander.

— Daqui a pouco vamos te dar um analgésico. Mas primeiro eu queria olhar você.

Ele apertou e apalpou seu corpo machucado. Antes de ele terminar, Lisbeth já estava claramente irritada, mas sentia-se exausta demais para começar sua temporada no Sahlgrenska com uma discussão, por isso optou por ficar quieta.

— Como é que eu estou? — perguntou.

— Acho que você vai ficar bem — disse o médico, que fez algumas anotações antes de se levantar.

Não era uma resposta das mais brilhantes.

Depois que ele saiu, apareceu uma enfermeira que ajudou Lisbeth com a comadre. Em seguida, ela pôde voltar a dormir.

Alexander Zalachenko, aliás, Karl Axel Bodin, ingeria um almoço constituído de alimentos líquidos. Qualquer movimento, mesmo mínimo, dos músculos faciais lhe causava dores fortíssimas no maxilar e no osso malar, e mastigar não era sequer cogitável.

Porém, mesmo a dor sendo tremenda, ele sabia administrá-la. Zalachenko estava acostumado com a dor. Nada se comparava àquela que experimentara semanas e meses a fio quinze anos antes, depois de arder feito uma tocha dentro do carro junto a uma calçada da Lundagatan. O tratamento não passara de uma interminável maratona de dor.

Os médicos o julgavam fora de perigo, mas dada a gravidade de seus ferimentos e por causa de sua idade, permaneceria na uri por mais alguns dias.

Naquele sábado, ele recebeu quatro visitas.

Por volta das dez da manhã, o inspetor Ackerman tornou a aparecer. Dessa vez, tinha deixado aquela babaquinha da Sonja Modig em casa e vinha acompanhado do inspetor Jerker Holmberg, claramente mais simpático. Fizeram mais ou menos as mesmas perguntas que tinham feito na noite anterior sobre Ronald Niedermann. Ele estava com a sua versão bem ensaiada e não cometeu nenhum erro. Quando começaram a bombardeá-lo com perguntas sobre sua eventual participação no tráfico de mulheres e em outras atividades criminosas, ele mais uma vez negou saber qualquer coisa sobre o assunto. Vivia da sua pensão de invalidez e não sabia do que estavam falando. Jogou tudo nas costas de Ronald Niedermann e se ofereceu para colaborar no que fosse possível para localizar o assassino do policial.

Infelizmente, na prática ele não tinha muito como ajudar. Desconhecia os círculos que Niedermann freqüentava e não fazia idéia de a quem ele poderia pedir refúgio.

Por volta das onze horas, recebeu a breve visita de um representante do Ministério Público, que lhe comunicou formalmente que ele era suspeito de cumplicidade em golpes e ferimentos agravados, e mesmo tentativa de homicídio, contra Lisbeth Salander. Zalachenko respondeu pacientemente, explicando que a vítima era ele e que, na verdade, Lisbeth Salander é quem tentara matá-lo. O sujeito do Ministério Público lhe ofereceu ajuda jurídica na forma de um advogado de ofício. Zalachenko disse que ia pensar.

Isso ele não tinha a menor intenção de fazer. Já possuía um advogado e sua primeira medida, naquela manhã, fora ligar para ele pedindo que viesse o quanto antes. De modo que Martin Thomasson foi seu terceiro visitante. Entrou, com um ar descontraído, passou a mão na cabeleira loira, ajeitou os óculos e apertou a mão de seu cliente. Era um falso magro e um verdadeiro sedutor. E certo que pairava sobre ele a suspeita de ter pertencido à máfia iugoslava, caso que ainda estava sendo investigado, mas também tinha a reputação de ganhar seus processos.

Um contato de negócios encaminhara Zalachenko para Thomasson cinco anos antes, quando precisara redistribuir um capital relacionado com uma pequena empresa de investimentos que ele possuía no Liechtenstein. Não eram quantias fabulosas, mas Thomasson atuara com mãos de mestre e Zalachenko deixara de pagar as taxas obrigatórias. Depois disso, recorrera a ele em outras ocasiões. Thomasson compreendia que o dinheiro provinha de uma atividade criminosa, o que não parecia perturbá-lo. Por fim, Zalachenko decidira fundir todas as suas atividades numa nova empresa, pertencente a ele próprio e a Niedermann. Tinha procurado Thomasson e o convidara a participar como terceiro sócio oculto, encarregado de tudo que se relacionasse ao financeiro. Thomasson aceitara sem pensar duas vezes.

— E então, senhor Bodin, isso tudo não está me parecendo lá muito agradável.

— Fui vítima de golpes e ferimentos agravados e tentativa de assassinato — disse Zalachenko.

— E o que estou vendo. Uma tal Lisbeth Salander, se entendi direito. Zalachenko baixou a voz.

— O nosso parceiro Niedermann se meteu numa encrenca daquelas, como você deve ter percebido.

— Foi o que entendi.

— A polícia suspeita que eu esteja envolvido nessa história...

— O que obviamente não é o caso. Você é uma vítima, e é importante plantar depressa essa idéia nos meios de comunicação. A senhorita Salander já teve um bocado de publicidade negativa... Vou cuidar disso.

— Obrigado.

— Mas vou avisando que não sou advogado criminal. Você vai precisar de um especialista. Vou procurar alguém em quem você possa confiar.

A quarta visita chegou às onze da noite e conseguiu passar pela barragem das enfermeiras exibindo sua identidade e especificando que vinha por causa de um assunto urgente. Indicaram-lhe o quarto de Zalachenko. O paciente ainda não estava dormindo, achava-se em plena reflexão.

— Meu nome é Jonas Sandberg — cumprimentou o visitante, estendendo uma mão que Zalachenko optou por ignorar.

O homem tinha cerca de trinta e cinco anos. Tinha cabelo cor de areia e vestia um jeans descontraído, camisa xadrez e jaqueta de couro. Zalachenko contemplou-o em silêncio por uns quinze segundos.

— Eu estava justamente me perguntando quando é que um de vocês ia aparecer.

— Eu trabalho na Sapo — disse Jonas Sandberg, mostrando as credenciais.

— É claro que não — disse Zalachenko.

— Como?

— Você talvez seja funcionário da Sapo, mas não trabalha para eles. Jonas Sandberg ficou um momento calado, olhando ao redor. Pegou a cadeira destinada aos visitantes.

— Se eu vim assim tão tarde, foi para não chamar atenção. Andamos discutindo sobre uma maneira de ajudá-lo e precisamos combinar mais ou menos o que vai acontecer. Estou aqui simplesmente para escutar a sua versão e ver quais são as suas intenções, para que a gente possa montar uma estratégia conjunta.