— E qual seria essa estratégia, a seu ver?
Jonas Sandberg contemplou pensativamente o homem deitado na cama. Por fim, afastou as mãos.
— Senhor Zalachenko... Receio que já esteja em curso um processo envolvendo danos difíceis de avaliar. Discutimos a situação. O túmulo encontrado em Gosseberga e os três tiros que a Salander levou são fatos difíceis de minimizar. Mas nem tudo está perdido. O conflito entre o senhor e sua filha pode explicar por que tem tanto medo dela e por que tomou medidas tão drásticas. Receio, porém, que isso signifique alguns meses de prisão.
Zalachenko se sentiu alegre de repente e teria dado uma boa gargalhada se isso não fosse impossível nas suas condições. O resultado foi apenas um leve tremor nos lábios. Qualquer coisa, além disso, seria dolorida demais.
— Então essa é nossa estratégia conjunta?
— Senhor Zalachenko. O senhor conhece o conceito de controle dos danos. É indispensável que encontremos uma via comum. Vamos fazer o possível para ajudá-lo, fornecendo um advogado e a assistência necessária, mas vamos precisar da sua colaboração e de algumas garantias.
— Vou lhe dar uma garantia. Vocês vão dar um jeito de sumir com tudo isso. — Ele fez um gesto com a mão. — O Niedermann vai servir de bode expiatório, e garanto que ele nunca será encontrado.
— Existem provas formais que...
—- Deixe as provas formais para lá. O importante é como a investigação vai ser conduzida e como os fatos vão ser apresentados. A minha garantia é a seguinte... se vocês não usarem sua varinha mágica para dar um sumiço em tudo isto, eu vou convocar a imprensa para uma entrevista coletiva. Eu conheço nomes, datas, fatos. Não me diga que eu preciso lembrar você de quem eu sou...
— O senhor não está entendendo...
— Estou entendendo muito bem. Você não passa de um boy. Transmita para o seu chefe o que acabei de dizer. Ele vai entender. Diga que eu tenho cópias de... tudo. Vou detonar vocês.
— Temos que tentar entrar num acordo.
— A conversa está encerrada. E agora dê o fora. E fale para eles me mandarem um homem da próxima vez, um adulto com quem eu possa conversar.
Zalachenko virou a cabeça de maneira a interromper o contato visual com o visitante. Jonas Sandberg contemplou-o um breve instante. Então deu de ombros e se levantou. Já estava chegando à porta quando ouviu novamente a voz de Zalachenko.
— Outra coisa. Sandberg se virou.
— Salander.
— O que tem ela?
— Ela precisa sumir.
— O que o senhor quer dizer?
Por um momento, Sandberg pareceu tão preocupado que Zalachenko foi obrigado a sorrir, apesar da dor que lhe transpassou o maxilar.
— Vocês são todos uns bundas-moles e eu sei que têm escrúpulos demais para matá-la. Sei também que vocês não têm condições para isso. Quem iria cuidar disso... você? Mas ela precisa sumir. O testemunho dela tem que ser declarado inaceitável. Ela tem que voltar para uma instituição e ali ficar o resto da vida.
Lisbeth Salander escutou os passos no corredor em frente a seu quarto. Não conseguira distinguir o nome Jonas Sandberg, e era a primeira vez que escutava aqueles passos.
A porta de seu quarto tinha ficado aberta desde o final da tarde, já que as enfermeiras vinham vê-la mais ou menos de dez em dez minutos. Tinha escutado o homem chegar e explicar a uma enfermeira, bem perto de sua porta, que precisava de qualquer forma ver o Sr. Karl Axel Bodin para tratar de um assunto urgente. Imaginou que ele estivesse apresentando suas credenciais, mas não foi dita nenhuma palavra que pudesse fornecer uma pista sobre seu nome ou a natureza dessas credenciais.
A enfermeira pediu que ele esperasse enquanto ia verificar se o Sr. Karl Axel Bodin estava acordado. Lisbeth Salander concluiu então que as credenciais deviam ser bem convincentes.
Percebeu que a enfermeira seguiu no corredor pela esquerda e deu dezessete passos até chegar a seu destino, e que o visitante percorreu a mesma distância com apenas catorze passos. O que dava uma média de 15,5 passos. Ela calculou o comprimento dos passos em sessenta centímetros, o que, multiplicado por 15,5, indicava que Zalachenko estava num quarto situado a novecentos e trinta centímetros do lado esquerdo do corredor. Bem, digamos dez metros. Calculou que seu quarto tinha cerca de cinco metros de largura, o que queria dizer que Zalachenko se encontrava a duas portas dali.
De acordo com os números verdes do relógio digital no criado-mundo, a visita durou exatos nove minutos.
Zalachenko permaneceu um bom tempo acordado depois que Jonas Sandberg o deixou. Imaginou que aquele não era seu verdadeiro nome, a experiência lhe ensinara que os espiões amadores suecos tinham fixação em nomes de fachada mesmo que não fossem absolutamente necessários. De todo modo, aquele Jonas (ou qualquer que fosse seu nome) era um primeiro sinal de que a Seção estava ciente de sua situação. Com aquele estardalhaço da imprensa, seria difícil não estar. Mas sua visita também confirmava que sua situação inspirava cuidados. Como não poderia deixar de ser.
Ele pesou as vantagens e as desvantagens, alinhou possibilidades e rejeitou alternativas. Já tinha entendido e aceitado que as coisas haviam desandado pra valer. Num mundo ideal, àquela altura ele estaria em casa, em Gosseberga, Ronald Niedermann estaria a salvo no exterior e Lisbeth Salander enterrada a seis palmos debaixo da terra. Mesmo que, de um ponto de vista racional, compreendesse o que tinha acontecido, tinha a maior dificuldade em entender como ela conseguira sair de dentro da cova, voltar para a granja e destruir a existência dele com duas machadadas. Ela realmente dispunha de recursos incríveis.
Em compensação, percebia muito bem o que acontecera com Ronald Niedermann e por que ele fugira para se salvar em vez de acabar de uma vez por todas com Salander. Sabia que Niedermann tinha algum problema na cabeça, que ele tinha visões, que via fantasmas. Mais de uma vez tivera de intervir ao ver Niedermann se comportando de maneira irracional e se encolhendo de pavor.
Aquilo o preocupava. Considerando que Ronald Niedermann ainda não havia sido detido, Zalachenko tinha certeza de que ele funcionara normalmente nos dias seguintes à fuga de Gosseberga. Talvez tentasse ir até Tallinn, onde obteria ajuda com algum contato do império criminoso de Zalachenko. Sua preocupação é que não dava para prever em que momento Niedermann ficaria paralisado. Se acontecesse durante a fuga, ele cometeria algum erro, e se cometesse algum erro acabaria sendo preso. E como não iria se entregar tão fácil, policiais iriam morrer, e muito provavelmente ele também.
Essa idéia afligia Zalachenko. Não queria que Niedermann morresse. Niedermann era seu filho. Por outro lado, por mais lamentável que fosse, a verdade é que Niedermann não podia ser apanhado vivo. Niedermann nunca fora detido pela polícia e Zalachenko não conseguia imaginar qual seria sua reação num interrogatório. Desconfiava, infelizmente, que Niedermann não saberia ficar calado. Seria melhor, portanto, que fosse morto ao ser capturado. Zalachenko prantearia o filho, mas a outra alternativa seria pior. Significaria ele próprio passar o resto da vida na prisão.
Entretanto, quarenta e oito horas já haviam transcorrido desde a fuga de Niedermann e ele ainda não tinha sido pego. Era um bom sinal. Mostrava que Niedermann ainda estava em movimento, e um Niedermann em movimento era imbatível.
A longo prazo, esboçava-se outra preocupação. Ele se perguntava como Niedermann iria se virar sozinho, sem o pai a seu lado para conduzi-lo na vida. Tinha observado, naqueles anos todos, que quando deixava de dar instruções ou soltava as rédeas para que Niedermann tomasse suas próprias iniciativas, este tendia a cair num estado de passividade e apatia.
Mais uma vez Zalachenko constatou como essas particularidades de seu filho representavam uma verdadeira calamidade. Ronald Niedermann era sem dúvida uma pessoa muito inteligente, dotada de qualidades físicas que o transformavam num homem temível e temido. Além disso, era um executor excelente, que sabia manter o sangue-frio. Seu único problema era não ter instinto de liderança. Precisava sempre de alguém que lhe dissesse o que devia ser feito.