Mas tudo isso estava, no momento, fora de seu controle. Ele, Zalachenko, é que era a questão. Sua situação era delicada, talvez mais delicada do que nunca.
A visita do Dr. Thomasson, mais cedo naquele dia, não lhe soara muito tranqüilizadora. Thomasson era, e continuava sendo, um especialista em direito empresarial, e sua eficiência nessa área não lhe seria de grande ajuda no atual contexto.
Depois, houvera a visita de Jonas Sandberg. Sandberg representava uma tábua de salvação muito mais sólida. Mas uma tábua que também podia se revelar uma armadilha. Ele teria de jogar suas cartas com habilidade e retomar o controle da situação. O controle era fundamental.
E, afinal de contas, ele podia confiar em seus próprios recursos. Por enquanto, precisava de cuidados médicos. Mas dali a alguns dias, uma semana quem sabe, teria recobrado suas forças. Se a situação chegasse a um extremo, só poderia contar consigo mesmo. O que significava sumir, sumir nas barbas de todos aqueles policiais que o cercavam. Iria precisar de um esconderijo, de um passaporte e de dinheiro vivo. Thomasson podia conseguir tudo isso. Mas, primeiro, precisava se recuperar o suficiente para ter condições de fugir.
A uma hora da manhã, a enfermeira veio ver como ele estava. Fingiu que estava dormindo. Quando ela tornou a fechar a porta, endireitou-se com esforço na cama e jogou as pernas para fora. Ficou um bom tempo sentado sem se mexer, testando seu equilíbrio. Então, devagar, pôs o pé esquerdo no chão. Por sorte, o machado atingira a perna direita, que já era defeituosa. Esticou o braço para apanhar a prótese, no armário junto à cama, e prendeu-a no coto. Em seguida, levantou-se. Jogou o peso para a perna esquerda intacta e tentou apoiar a direita no chão. Uma dor fulgurante o transpassou.
Cerrou os dentes e deu um passo. Precisava de suas bengalas, mas tinha certeza de que o hospital não tardaria a lhe fornecer uma. Apoiou-se na parede e foi manquejando até a porta. Levou vários minutos, sendo obrigado a parar depois de cada passo para dominar a dor.
Apoiou-se sobre a perna sã, abriu a porta bem de leve e verificou o corredor. Não viu ninguém, e pôs a cabeça um pouquinho mais para fora. Escutou vozes abafadas à esquerda e virou a cabeça. A sala de plantão das enfermeiras da noite ficava a uns vinte metros dali, do outro lado do corredor.
Ele virou a cabeça para a direita e avistou a saída, no fim do corredor.
Tinha se informado naquele dia sobre o estado de Lisbeth Salander. Era, apesar de tudo, pai dela. As enfermeiras tinham sido visivelmente instruídas a não falar sobre os pacientes. Uma delas só dissera, em tom neutro, que seu estado era estável. Mas, como que por reflexo, lançara uma olhada rápida para o lado esquerdo do corredor.
Em algum dos quartos entre o seu próprio e a sala das enfermeiras estava Lisbeth Salander.
Fechou a porta devagar, voltou manquejando para a cama e retirou a prótese. Estava encharcado de suor quando finalmente conseguiu se enfiar debaixo da coberta.
O inspetor Jerker Holmberg regressou a Estocolmo no domingo por volta do meio-dia. Estava cansado, com fome e sentia-se esgotado. Pegou o metrô, desceu na estação da prefeitura e seguiu a pé até a chefatura de polícia na Bergsgatan, onde subiu até a sala do inspetor Jan Bublanski. Sonja Modig e Curt Bolinder já estavam lá. Bublanski os convocara para aquela reunião em pleno domingo porque sabia que o chefe do inquérito preliminar, Richard Ekstrõm, estava em um compromisso fora.
— Obrigado por terem vindo — disse Bublanski. — Acho que está mais do que na hora de conversarmos calmamente entre nós para tentarmos lançar uma luz nessa confusão toda. Jerker, alguma novidade?
— Nada que eu já não tenha lhe falado por telefone. O Zalachenko não está cedendo um só milímetro. Ele se diz totalmente inocente e não pode nos ajudar em nada. Vejam só...
— Sim?
— Sonja, você estava certa. É um dos indivíduos mais sinistros que já conheci. Parece meio idiota dizer isso. Sei que a gente não devia raciocinar desse jeito na polícia, mas ele tem uma coisa assustadora por baixo daquele verniz calculista.
— Certo — disse Bublanski, pigarreando. — O que a gente tem? Sonja? Ela exibiu um sorrisinho.
— Os investigadores particulares venceram este round. Não encontro o Zalachenko em nenhum cadastro oficial, ao passo que um tal de Karl Axel Bodin nasceu em 1939 em Uddevalla. Os pais dele eram Marianne e Georg Bodin. Eles existiram, mas morreram num acidente em 1946. Karl Axel Bodin foi criado por um tio na Noruega. Portanto não temos nada sobre ele até os anos 1970, quando voltou para a Suécia. A versão de Mikael Blomkvist, segundo a qual ele seria um ex-agente russo do GRO, parece impossível de checar, mas tendo a acreditar que ele está certo.
— E isso implicaria o quê?
— Obviamente, ele ganhou uma identidade falsa. E deve ter sido com o consentimento das autoridades.
— A Sapo, portanto?
— É o que o Blomkvist afirma. Mas não sei ao certo como foi. Supõe--se que sua certidão de nascimento e mais um monte de documentos foram falsificados e lançados nos cadastros suecos oficiais. Não me atrevo a opinar sobre o aspecto legal dessa história. Provavelmente vai depender de quem tomou a decisão. Mas só seria legal se a decisão tivesse sido quase em nível de primeiro escalão.
Instalou-se um silêncio na sala de Bublanski, enquanto os quatro inspetores criminais refletiam sobre todas as implicações daquilo.
— Humm — fez Curt Bolinder. — Isso poderia provocar nada menos que uma crise constitucional. Nos Estados Unidos, membros do governo podem ser convocados para um interrogatório diante de um tribunal comum. Na Suécia, têm que passar pela Comissão Constitucional.
— Agora, o que a gente pode fazer é perguntar para o chefe — disse Jerker Holmberg.
— Perguntar para o chefe? — estranhou Bublanski.
— Thorbjõm Fãlldin. Era o primeiro-ministro na época.
— É isso aí. A gente aparece na casa dele, não se sabe onde, e pergunta ao ex-primeiro-ministro se ele falsificou documentos de identidade para um espião russo dissidente. Não me parece uma boa idéia.
— O Fãlldin mora em As, na comuna de Hárnõsand. Eu nasci naqueles lados, a poucos quilômetros da casa dele. Meu pai é centrista e conhece o Fãlldin muito bem. Cruzei com ele várias vezes quando criança, e quando adulto também. E um sujeito bem descontraído.
Três inspetores criminais lançaram a Jerker Holmberg um olhar atônito.
— Você conhece o. Fãlldin — disse Bublanski, hesitante. Holmberg assentiu com a cabeça. Bublanski fez um muxoxo.
— Realmente... — disse Holmberg. — Daria para resolver um monte de problemas se a gente conseguisse do ex-primeiro-ministro um relatório que ajudasse a nos situar nesta encrenca toda. Eu poderia ir até lá conversar com ele. O pior que pode acontecer é ele não falar. Mas, se falar, talvez nos poupe um bocado de tempo.
Bublanski refletiu sobre a sugestão. Então balançou a cabeça. Com o rabo dos olhos, viu tanto Sonja Modig como Curt Bolinder meneando a deles, pensativos.
— Holmberg... o que você sugere é legal, mas acho que vamos deixar para mais tarde. Vamos voltar ao caso. Sonja?
— Segundo o Blomkvist, o Zalachenko chegou aqui em 1976. Até onde eu sei, só existe uma pessoa que pode ter passado essa informação para ele.
— Gunnar Bjõrck — disse Curt Bolinder.
— O que foi que o Bjõrck disse para a gente? — perguntou Jerker Holmberg.
— Nada de mais. Ele alegou sigilo profissional e disse que não pode comentar o assunto sem autorização dos seus superiores.