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Mikael hesitou um instante, não sabendo direito como colocar a situação.

— Posso confiar em você? — perguntou.

A pergunta pareceu surpreender Armanskij.

— Em que sentido?

— Você está do lado da Salander, ou não? Posso ter certeza de que você quer o bem dela?

— Ela é minha amiga. Como você sabe, isso não significa, necessariamente, que sou amigo dela.

— Eu sei. Mas o que estou perguntando é se você está disposto a ficar do lado dela no ringue e enfrentar os brutamontes que estão contra ela. E essa luta vai ter muitos assaltos.

Armanskij refletiu.

— Eu estou do seu lado — disse ele.

— Posso te dar umas informações e discutir uns pontos com você sem medo de que isso vaze para a polícia ou para qualquer outra pessoa?

— Só está fora de questão eu me envolver em alguma atividade criminosa — disse Armanskij.

— Minha pergunta não foi essa.

— Você pode confiar totalmente em mim desde que não me conte que está envolvido em alguma atividade criminosa ou algo do gênero.

— Para mim está bem assim. Precisamos nos encontrar.

— Estou indo para a cidade hoje. Podemos jantar juntos.

— Não, para mim não vai dar. Mas a gente podia se encontrar amanhã à noite. Precisamos conversar com calma, eu, você e talvez mais umas pessoas.

— Pode ser lá na Milton. Às seis da tarde está bem?

— Perfeito. Outra coisa... daqui a duas horas vou encontrar minha irmã, Annika Giannini. Ela está considerando a possibilidade de representar a Lisbeth, mas evidentemente não pode trabalhar de graça. Posso pagar parte dos honorários do meu bolso. A Milton Security poderia contribuir?

— A Lisbeth vai precisar de um advogado super competente. Com todo o respeito, não acho sua irmã a melhor escolha. Já conversei com o jurista responsável da Milton e ele vai procurar o advogado certo para isso. Pensei, por exemplo, em Peter Althin ou alguém assim.

— Errado. A Lisbeth precisa de um advogado bem diferente. Você vai entender depois que a gente conversar. Mas você poderia injetar algum dinheiro na defesa dela, se necessário?

— Eu já estava prevendo que a Milton contrataria um advogado para ela...

— Isso significa sim ou não? Eu sei o que aconteceu com a Lisbeth. Sei mais ou menos o que existe por trás disso tudo. Eu sei o porquê. E tenho um plano de ataque.

Armanskij riu.

— Está bem. Vou ouvir sua proposta. Se eu não gostar, caio fora.

— Você por acaso pensou na minha proposta de representar a Lisbeth Salander? — perguntou Mikael depois de dar um beijo na irmã e de o café e os sanduíches terem sido servidos.

— Pensei. E me vejo obrigada a recusar. Você sabe que não atuo na área criminal. Mesmo que ela seja inocentada dos assassinatos pelos quais foi procurada, vai haver uma lista imensa de acusações. Ela vai precisar de alguém de mais gabarito, com uma experiência que eu não tenho.

— Está enganada. Você é advogada e sua competência é mais que reconhecida nas questões dos direitos da mulher. Sei que é exatamente a advogada de que ela precisa.

— Mikael... acho que você não está sacando muito bem o que isso significa. Trata-se de um caso criminal complexo, não de um simples caso de maus-tratos ou assédio sexual. Se eu aceitar defendê-la, a gente corre o risco de provocar uma catástrofe.

Mikael sorriu.

— Acho que você não entendeu aonde eu quero chegar. Se a Lisbeth fosse ser julgada pelos assassinatos do Dag e da Mia, eu contrataria um advogado do estilo do Silbersky ou outro peso-pesado qualquer da criminalística.

Mas esse processo vai tratar de coisas muito diferentes. E você é a melhor advogada que posso imaginar para esse caso. Annika Giannini suspirou.

— Bem, então seria melhor você me explicar.

Conversaram durante quase duas horas. Quando Mikael terminou, Annika Giannini estava convencida. Então Mikael pegou o celular e ligou para Marcus Ackerman em Gõteborg.

— Olá. É o Blomkvist de novo.

— Ainda não tenho nenhuma notícia da Salander — disse Ackerman, irritado.

— Bem, na atual situação notícia nenhuma já é uma boa notícia. Em compensação, eu tenho uma novidade.

— Ah, é?

— E. Ela tem uma advogada, o nome dela é Annika Giannini. Está aqui na minha frente, vou passar para ela.

Mikael passou o celular para a irmã.

— Bom dia. Aqui fala Annika Giannini, e me pediram que representasse a Lisbeth Salander. Portanto preciso entrar em contato com a minha cliente para que ela me aceite como defensora. E preciso do número de telefone do procurador.

— Entendo — disse Ackerman. — Achei que já tinha sido indicado um advogado para ela.

— Hã, hã. E alguém perguntou para a Lisbeth Salander o que ela acha? Ackerman hesitou.

— Na verdade, ainda não tivemos condições de nos comunicar com ela. Esperamos falar com ela amanhã, se seu estado permitir.

— Melhor assim. Então, estou declarando aqui e agora que, a menos que a senhorita Salander seja contra, podem me considerar a advogada dela. Não podem interrogá-la sem que eu esteja presente. Só podem ir falar com ela e perguntar se ela me aceita como advogada ou não. Entendido?

— Sim — disse Ackerman, soltando um suspiro. Ele não sabia direito como estava a situação em termos jurídicos. Pensou um pouco e continuou: — Antes de mais nada, a gente queria perguntar para a Salander se ela tem idéia de onde possa estar o Ronald Niedermann, o assassino do policial. Tudo bem se eu perguntar isso mesmo sem a sua presença?

Annika Giannini hesitou.

— Está bem... Podem perguntar, se for para ajudar a polícia a localizar o Niedermann. Mas não mencionem nada relacionado com eventuais processos ou acusações contra ela. Estamos combinados?

— Acho que sim.

Marcus Ackerman deixou imediatamente a sua sala, subiu a escada e foi bater à porta de Agneta Jervas, que dirigia o inquérito preliminar. Relatou a conversa que acabava de ter com Annika Giannini.

— Eu não sabia que a Salander tinha um advogado.

— Nem eu. Mas a Giannini foi contratada pelo Mikael Blomkvist. Não é certo que a Salander esteja sabendo.

— Mas a Giannini não trabalha na área criminal. Ela lida com direitos da mulher. Assisti a uma palestra dela uma vez, ela é muito competente, mas nem um pouco adequada para este caso.

— Isso quem tem que decidir é a Salander.

— Sendo assim, posso ter de contestar essa escolha diante do tribunal. É importante para a Salander contar com um defensor de fato, e não com uma estrela das primeiras páginas dos jornais. Humm. Além disso, a Salander é tida como uma maior incapacitada. Não sei direito o que se aplica nesse caso.

— O que a gente faz?

Agneta Jervas refletiu um instante.

— Que confusão! Não sei bem, afinal de contas, quem vai cuidar desse caso. Talvez seja repassado para o Ekstrõm em Estocolmo. Mas ela precisa de um advogado. Está bem... pergunte a ela se aceita a Giannini.

Quando chegou em casa, por volta das cinco da tarde, Mikael abriu o iBook e retomou o texto que tinha começado a redigir no hotel. Trabalhou sete horas seguidas, até conseguir identificar os principais furos da história. Ainda tinha um bocado de pesquisa pela frente. Um dos aspectos que os documentos existentes não ajudavam a esclarecer era que elementos da Sapo, afora Gunnar Bjõrck, tinham se juntado para internar Lisbeth Salander no hospício. Ele tampouco conseguia definir a natureza da relação entre Bjõrck e o psiquiatra Peter Teleborian.

Um pouco depois da meia-noite, desligou o computador e foi se deitar. Pela primeira vez em várias semanas, sentiu que poderia relaxar e dormir tranqüilamente. Já tinha uma matéria. Por mais pontos de interrogação que ainda existissem, já contava com material suficiente para desencadear uma avalanche de manchetes.

Sentiu um desejo súbito de ligar para Erika Berger e colocá-la a par da situação. Então lembrou que ela não trabalhava mais na Millennium. Com isso, dormir já se tornou mais difícil.