Na estação central de Estocolmo, o homem de pasta marrom desceu devagar do trem das sete e meia da noite proveniente de Gõteborg e permaneceu um momento parado na multidão até se situar. Iniciara sua viagem em Laholm, pouco depois das oito da noite, rumo a Gõteborg, onde fizera uma parada para almoçar com um velho conhecido antes de seguir para Estocolmo. Fazia dois anos que não vinha a Estocolmo, e na verdade não planejara voltar algum dia. Embora tivesse morado ali durante a maior parte da sua vida profissional, sempre se sentira um estranho no ninho na capital, sentimento que só fora aumentando a cada visita feita desde que se aposentara.
Atravessou devagar o saguão central da estação, comprou os jornais vespertinos e duas bananas na banca de jornal, e contemplou pensativamente duas muçulmanas de lenço que passavam por ele a toda pressa. Não tinha nada contra mulheres de lenço. Se as pessoas queriam se fantasiar, problema delas. Mas o incomodava elas fazerem questão de se fantasiar em plena Estocolmo.
Percorreu a pé os trezentos metros até o Hotel Frey, ao lado do antigo Correio Central na Vasagatan. Sempre se hospedava ali em suas raras visitas a Estocolmo. Era um hotel central e limpo. E além do mais barato, o que era uma necessidade, pois ele próprio estava pagando a viagem. Reservara um quarto na véspera e apresentou-se com o nome de Evert Gullberg.
Assim que chegou a seu quarto, foi ao banheiro. Estava numa idade em que precisava se aliviar o tempo todo. Fazia vários anos que não passava uma noite inteira sem acordar para urinar.
Depois tirou o chapéu, um chapéu de feltro inglês verde-escuro com abas finas, e desfez o nó da gravata. Media um metro e oitenta e quatro e pesava sessenta e oito quilos, sendo, portanto, de constituição magra, raquítica até. Usava um paletó de pied-de-poule e uma calça cinza-escura. Abriu a pasta marrom e tirou duas camisas, uma gravata extra e a roupa íntima, que guardou na cômoda. Depois pendurou o casaco e o paletó nos cabides do armário atrás da porta.
Era muito cedo para deitar-se. Era muito tarde para se animar a fazer um passeio noturno, que de qualquer modo ele não iria apreciar. Sentou-se na indefectível cadeira de hotel e olhou em volta. Ligou a tevê, mas baixou o volume para ficar livre de todo barulho. Pensou em ligar para a recepção e pedir um café, porém lembrou que já era muito tarde. Em vez disso, abriu o minibar e serviu-se de uma garrafinha de Johnny Walker com algumas gotas de água. Abriu os jornais vespertinos e leu atentamente tudo o que se escrevera naquele dia sobre a caçada a Ronald Niedermann e o caso Lisbeth Salander. Depois de algum tempo, pegou um bloco encadernado em couro e fez algumas anotações.
O ex-chefe de gabinete da Sapo, Evert Gullberg, tinha setenta e oito anos e estava oficialmente aposentado havia catorze. Acontece que velhos espiões nunca morrem, apenas deslizam em meio às sombras.
Pouco depois do fim da guerra, Gullberg tinha dezenove anos e queria seguir carreira na Marinha. Prestou o serviço militar como aspirante a oficial da Marinha, sendo em seguida aceito para fazer a formação de oficial. Mas em vez de um posto tradicional, no mar, como esperava, foi designado para o serviço de informações da Marinha. Podia entender a necessidade de se vigiarem as transmissões inimigas na esperança de descobrir o que se tramava do lado de lá do Báltico, mas achava o trabalho tedioso e desinteressante. No entanto, na escola de intérpretes do Exército teve oportunidade de aprender russo e polonês. Seus conhecimentos lingüísticos foram um dos motivos que o levaram a ser recrutado em 1950 pela Polícia de Segurança. Era a época em que Georg Thulin, homem de uma honestidade inquestionável, dirigia a 3ª. Brigada Policial do Estado. Quando assumiu o cargo, o orçamento global da polícia secreta somava dois milhões e setecentas mil coroas e o efetivo era de exatamente noventa e seis pessoas.
Quando Evert Gullberg se aposentou oficialmente, o orçamento da Sapo ultrapassava os trezentos e cinqüenta milhões de coroas e ele não saberia dizer ao certo quantos funcionários havia na Casa.
Gullberg tinha passado a vida no serviço secreto nacional, ou pelo menos a serviço do bom povo social-democrata. Uma ironia do destino, já que em todas as eleições ele optara fielmente pelos moderados, com exceção de 1991, quando votara contra eles de forma consciente, por considerar Carl Bildt uma catástrofe da real politik. Naquele ano, conformara-se em dar seu voto a Ingvar Carlsson. Aqueles anos do melhor governo que a Suécia já tivera, quatro anos sob a direção dos moderados, confirmaram igualmente todos os seus temores. O governo moderado constituíra-se na época do desmoronamento da União Soviética, e, na sua opinião, não havia regime mais mal preparado para enfrentar e tirar proveito das novas possibilidades políticas na arte da espionagem que haviam surgido no Leste. O governo de Bildt, pelo contrário, evocara razões econômicas para reduzir o escritório soviético e, no lugar, investir na Bósnia e na Sérvia — como se a Sérvia pudesse algum dia se tornar uma ameaça para a Suécia! O resultado fora a impossibilidade de plantar, em Moscou, informantes a longo prazo, e no dia em que o clima voltasse a ficar tenso — o que, na opinião de Gullberg, era inevitável — surgiriam mais uma vez exigências políticas extravagantes em relação à Sapo e ao serviço militar de informações, como se fosse possível formar agentes num passe de mágica.
Gullberg iniciara sua carreira no escritório russo da 3ª. Brigada da polícia do Estado e depois de dois anos numa repartição pudera dar seus primeiros e hesitantes passos no terreno como adido militar com patente de capitão, na embaixada sueca em Moscou, entre 1952 e 1953. Curiosamente ele seguia os mesmos passos de outro espião famoso. Alguns anos antes, seu cargo havia sido ocupado por um oficial até bem conhecido, o coronel Stig Wennerstróm.
De volta à Suécia, Gullberg trabalhara na contra-espionagem e, dez anos depois, era um dos agentes mais jovens da Sapo que, em 1963, na equipe dirigida pelo diretor de intervenções Otto Danielsson, prendera Wennerstróm e o conduzira à prisão perpétua no presídio de Lângholmen.
Quando a polícia secreta foi reestruturada sob o comando de Per Gunnar Vinge, em 1964, tornando-se um departamento de segurança da Direção Geral da Polícia Nacional — DGPN/Sapo, o número de funcionários começou a aumentar. Nessa época, fazia catorze anos que Gullberg trabalhava na Sapo, onde se tornara um dos veteranos de confiança.
Gullberg evitava usar o termo abreviado Sapo, preferindo dizer Polícia de Segurança. Com alguns colegas, ele falava Empresa ou Casa, ou simplesmente Departamento — mas nunca Sapo. Por um motivo simples. A missão mais importante da Casa fora, durantes anos, o controle de pessoas, ou seja, investigar e fichar cidadãos suecos suspeitos de ter opiniões comunistas e de traição à pátria. Na Casa, as expressões "comunista" e "traidor da pátria" eram usadas como sinônimos. A palavra "Sapo", que acabou afinal sendo adotada por todos, fora inicialmente criada pelo Clarté, um jornal comunista traidor da pátria, como um termo pejorativo para designar os caçadores de comunistas da polícia. E Gullberg tinha muita dificuldade em entender por que seu antigo chefe, P. G. Vinge, escolhera Fui chefe da Sapo de 1962 a 1970 como título de suas memórias.
A reestruturação de 1964 viria a ser decisiva para a carreira futura de Gullberg.
A transformação da polícia secreta em DGPN/Sapo significou que esta se transformou no que as notas do Ministério da Justiça qualificavam de organização policial moderna. Isso implicava novos recrutamentos, seguidos de intermináveis problemas de adaptação, o que, numa organização em expansão, levou o Inimigo a ter possibilidades muitíssimo mais fáceis de infiltração de agentes no Departamento. O que, por sua vez, acarretou a necessidade de reforçar o controle de segurança interna — a polícia secreta não podia mais ser um clube distinto constituído por antigos oficiais, onde todos se conheciam e o mérito mais comum de um novo recruta era ter um pai oficial.