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Em 1963, Gullberg fora transferido da contraespionagem para o controle de pessoas, fortalecido pelo desmascaramento de Stig Wennerstrõm. Por essa época é que foram assentadas as bases do cadastro de opiniões, que, no final dos anos 1960, reunia fichas de mais de trezentos mil cidadãos suecos com opiniões políticas pouco convenientes. Mas o controle dos cidadãos suecos era uma coisa; aqui, tratava-se de descobrir um meio de exercer o controle de segurança no seio da própria DGPN/Sapo.

Wennerstrõm desencadeara uma avalanche de complicações para a polícia secreta do Estado. Se um coronel do Estado-Maior da Defesa havia conseguido trabalhar para os russos — sendo, ainda por cima, conselheiro do governo para assuntos relacionados a armas nucleares e política de segurança —, haveria como garantir que os russos não tinham também um agente infiltrado no seio da polícia secreta? A quem caberia assegurar que os diretores e outros responsáveis da Casa na verdade não trabalhavam para os russos? Em suma, quem deveria espionar os espiões?

Em agosto de 1964, Gullberg foi convocado, certa tarde, para uma reunião com o diretor-adjunto da Sapo, o chefe de gabinete Hans Wilhelm Francke. Além dele, participavam da reunião mais duas pessoas da alta esfera da Casa, o secretário-geral e o responsável pelo orçamento. No final daquele dia, a vida de Gullberg tinha adquirido um novo sentido. Ele fora escolhido. Atribuíram-lhe a responsabilidade de uma brigada recentemente criada com o nome provisório de Seção Especial, cuja sigla era SE. A primeira providência de Gullberg foi renomeá-la Seção de Análise. Funcionou durante alguns minutos, até o responsável pelo orçamento observar que SA não era muito melhor que SE. O nome definitivo da organização acabou sendo Seção de Análise Especial, SAE, chamada no dia a dia de Seção, diferentemente de Departamento ou Casa, que se aplicavam ao conjunto da Sapo.

Essa seção fora idéia de Francke. Ele a denominava a última linha de defesa — um grupo ultrassecreto que ocupava posições estratégicas dentro da Casa, embora fosse invisível, não aparecesse nos avisos internos nem nas previsões orçamentárias e não pudesse, desse modo, sofrer infiltrações. Sua missão: cuidar da segurança da nação. Francke tinha poder para tornar isso possível. Precisava contar com o responsável pelo orçamento e com o secretário-geral para criar essa estrutura oculta, mas todos eles eram soldados da velha escola e amigos, após dezenas de escaramuças com o Inimigo.

No primeiro ano, a organização era constituída apenas por Gullberg e três colaboradores escolhidos a dedo. No§.dez anos seguintes, a Seção foi crescendo até contar com onze pessoas; duas eram secretários administrativos da velha escola e as outras, caçadores de espiões profissionais. Numa hierarquia simplificada ao máximo, Gullberg era o chefe e os demais, colaboradores que se reuniam quase diariamente com o chefe. A eficiência era mais valorizada que o prestígio e a burocracia.

Formalmente, Gullberg era subordinado a uma extensa lista de pessoas na hierarquia abaixo do secretário-geral da Sapo, ao qual ele tinha de apresentar relatórios mensais, mas na prática ocupava uma posição única e detinha um poder extraordinário. Ele, e apenas ele, podia resolver investigar de perto as mais altas esferas da Sapo. Podia, se assim lhe aprouvesse, virar do avesso a vida do próprio Per Gunnar Vinge (o que ele de fato fez). Podia iniciar suas próprias investigações ou instalar escutas telefônicas sem ser obrigado a dar explicações ou recorrer às altas instâncias. Seu modelo era o lendário espião americano James Jesus Angleton, que ocupava uma posição similar na CIA e a que ele, por sinal, conhecera pessoalmente.

Na prática, a Seção foi se tornando uma micro-organização dentro do Departamento, acima e à margem do restante da Polícia de Segurança. Isso também trouxe conseqüências geográficas. A Seção contava com algumas salas em Kungsholmen, mas, por razões de segurança, foi inteiramente transferida para um apartamento particular de onze cômodos em Ostermalm. O apartamento foi discretamente transformado em salas fortes, que nunca ficavam sem tripulação, já que a fiel secretária, Eleanor Badenbrink, passou a habitar de modo permanente dois cômodos situados junto à porta de entrada. Badenbrink era um recurso inestimável em quem Gullberg tinha toda confiança.

Ao montar essa unidade, Gullberg e seus colaboradores evitaram qualquer tipo de visibilidade — eram financiados por um "fundo especial", porém não constavam em lugar nenhum da burocracia formal da Polícia de Segurança, ligada à direção-geral da Polícia Nacional ou ao Ministério da Justiça. O próprio diretor da DGPN/Sapo desconhecia a existência desses homens, os mais secretos entre os secretos, que tinham por missão gerir os casos mais secretos entre os mais secretos.

Por volta dos quarenta anos, portanto, Gullberg estava numa posição de não ter de prestar contas a ninguém e poder iniciar investigações sobre o que bem entendesse.

Desde o início, compreendeu que a Seção de Análise Especial corria o risco de se tornar um grupo politicamente nevrálgico. Sua missão era, no mínimo, um bocado vaga, e as instruções escritas, extremamente escassas. Em setembro de 1964, o primeiro-ministro Tage Erlander assinou uma diretriz estipulando a atribuição de uma verba para a Seção de Análise Especial, cuja missão era gerir investigações particularmente espinhosas e importantes para a segurança da nação. Foi um desses doze casos particularmente espinhosos que o diretor-adjunto da DGPN/Sapo, Hans Wilhelm Fracke, expôs numa reunião. O caso foi de imediato considerado secreto e arquivado no cadastro especial e igualmente secreto da DGPN/Sapo.

A medida do primeiro-ministro, porém, exigia que a Seção fosse uma instituição juridicamente reconhecida. Seu primeiro orçamento anual somava cinqüenta e duas mil coroas. Um orçamento minúsculo, o que o próprio Gullberg considerava um golpe de mestre. Dava a entender que a criação da Seção não passava de um fato em meio a tantos outros.

Num sentido mais amplo, a diretriz assinada pelo primeiro-ministro significava que ele reconhecia a necessidade de haver um grupo encarregado do "controle interno dos funcionários". Alguns poderiam igualmente interpretar essa assinatura como um aval do primeiro-ministro para a criação de um grupo que poderia também se encarregar do controle de "pessoas especialmente espinhosas" fora da Sapo, por exemplo o próprio primeiro-ministro. Esta última possibilidade é que criava dificuldades políticas potencialmente graves.

Evert Gullberg constatou que seu copo de Johnny Walker estava vazio. Não era particularmente afeito ao álcool, mas tinha sido um longo dia, uma longa viagem, e ele julgava ter chegado a um ponto da vida em que pouco importava se ele tomasse um ou dois uísques. Não precisava hesitar em encher o copo se lhe desse vontade. Serviu-se uma garrafinha de Glenfiddich.

O caso mais delicado fora, evidentemente, o de Olof Palme.

Gullberg recordava nos mínimos detalhes o dia das eleições de 1976. Pela primeira vez na história moderna, a Suécia tinha um governo de direita. Infelizmente, quem se tornou primeiro-ministro foi Thorbjõm Fálldin, e não Gosta Bohman, um homem da velha escola muitíssimo mais adequado. Mas o importante é que Palme fora derrotado e Evert Gullberg podia respirar aliviado.

A pertinência de Palme como primeiro-ministro fora objeto de mais de uma conversa nos corredores mais secretos da DGPN/Sãpo. Em 1969, Per Gunnar Vinge fora demitido depois de expressar sua opinião, partilhada por várias pessoas do Departamento, de que Palme talvez fosse um agente de informações a serviço da KGB russa. A convicção de Vinge não suscitou controvérsias no ambiente que reinava na Casa. Infelizmente, ele discutira o assunto de forma aberta com o governador Ragnar Lassinantti em uma visita à província de Norrbotten. Lassinantti levantara duas vezes as sobrancelhas e depois informara o gabinete ministerial, o que resultou na convocação de Vinge para uma entrevista particular.