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Fálldin, ainda novato e hesitante em seu papel de chefe do governo, capitulou. Deu seu aval para uma diretriz, imediatamente inscrita no registro secreto, estipulando que a Seção responderia pela segurança e pelos interrogatórios de Zalachenko, e que a informação sobre sua existência não deveria sair do gabinete do primeiro-ministro. Ao assinar essa diretriz, Fãlldin demonstrava claramente que havia sido informado, mas também que não estava autorizado a falar sobre o assunto. Em suma, o que ele tinha a fazer era esquecer Zalachenko.

Fãlldin, contudo, insistira para que outra pessoa de seu gabinete fosse informada, um secretário de Estado cuidadosamente escolhido que atuasse como contato nos assuntos relacionados com o dissidente. Gullberg concordou. Não lhe seria difícil manipular um secretário de Estado.

O diretor da DGPN/Sapo estava satisfeito. O caso Zalachenko ficava, assim, coberto do ponto de vista constitucional, o que significava que ele também estava garantido. Gullberg também estava satisfeito. Conseguira criar uma quarentena que lhe permitia controlar o fluxo de informações. Ele era o único que controlava Zalachenko.

Voltando ao seu escritório em Ostermalm, Gullberg sentou-se à sua mesa e estabeleceu uma lista manuscrita das pessoas que sabiam da existência de Zalachenko. Afora ele próprio, nela constavam Gunnar Bjôrck; Hans von Rottinger, chefe de operações da Seção; Fredrik Clinton, diretor-adjunto; Eleanor Badenbrink, secretária da Seção; e outros dois colaboradores encarregados de reunir e analisar o conteúdo das informações que Zalachenko pudesse fornecer. Ao todo sete pessoas, que, nos anos seguintes, iriam constituir uma seção à parte dentro da Seção. Ele a batizou mentalmente de Grupo Interno.

Fora da Seção, sabiam do segredo o diretor da DGPN/Sapo, o diretor--adjunto e o secretário-geral. Doze pessoas ao todo. Nunca antes um segredo daquela importância fora conhecido por um círculo tão exclusivo.

Mas Gullberg logo se preocupou. Mais uma pessoa sabia do segredo. Bjõrck viera acompanhado de um jurista, Nils Bjurman. Estava fora de questão transformar Bjurman em colaborador da Seção. Além de Bjurman não ser um legítimo policial da Sapo — não passava de um estagiário —, não tinha os conhecimentos e a competência necessários. Gullberg pesou diferentes possibilidades e então optou por ir discretamente afastando Bjurman do caso. Ameaçou-o com prisão perpétua por alta traição caso deixasse escapar uma sílaba sequer a respeito de Zalachenko, corrompeu-o com promessas de missões futuras e com adulações que aumentaram o sentimento de importância de Bjurman. Cuidou para que obtivesse um cargo num renomado escritório de advocacia, assim como um volume de encargos que o mantivesse ocupado. O único problema era Bjurman ser tão medíocre e não saber explorar suas aptidões. Ao fim de dez anos, deixara o escritório de advocacia e abrira seu próprio escritório, com um funcionário, em Odenplan.

Ao longo dos anos, Gullberg manteve Bjurman sob uma discreta, mas constante vigilância. Só relaxou nesses cuidados no final dos anos 1980, quando, com o desmoronamento da União Soviética, Zalachenko deixou de ser um assunto prioritário.

Para a SAE, Zalachenko de início representou a promessa de uma pista para o enigma Palme, um caso que estava constantemente entre as preocupações de Gullberg. De modo que Palme fora um dos primeiros temas ventilados por Gullberg durante o extenso interrogatório.

Essa expectativa, porém, foi rapidamente pulverizada, já que Zalachenko nunca atuara na Suécia e não conhecia de fato o país. Em compensação, tinha ouvido falar num tal de "Corredor Vermelho", um político do alto escalão sueco, ou quem sabe escandinavo, que trabalhava para a KGB.

Gullberg montou uma lista de nomes que ele relacionava com Palme. Nela constavam Carl Lidbom, Pierre Schori, Sten Andersson, Marita Ulvskog e mais algumas pessoas. Ao longo de sua vida, Gullberg jamais deixou de voltar a essa lista, e jamais encontrou uma resposta.

Gullberg, de repente, estava brincando no pátio dos meninos mais velhos. Passaram a cumprimentá-lo com respeito no exclusivo clube dos guerreiros, em que todos se conhecem e os contatos se dão por intermédio de amigos pessoais e de confiança — e não pelos canais oficiais e intervenções burocráticas. Conheceu James Jesus Angleton e teve a oportunidade de tomar uísque num discreto clube londrino com o chefe do MI-6. Tinha se tornado um dos mais velhos.

A desvantagem de seu ofício é que nunca poderia revelar seus êxitos, nem mesmo em suas memórias póstumas. E vivia sempre com o receio de que o Inimigo reparasse em suas viagens e o pusesse sob vigilância — de que sem querer conduzisse os russos até Zalachenko.

Sob esse ponto de vista, Zalachenko era seu pior inimigo.

No primeiro ano, Zalachenko vivera num apartamento neutro de propriedade da Seção. Ele não constava em nenhum registro ou documento oficial, e o grupo Zalachenko acreditava ter muito tempo pela frente antes de ser obrigado a planejar seu futuro. Só na primavera de 1978 ele recebeu um passaporte com o nome de Karl Axel Bodin, junto com uma história minuciosamente montada — um verdadeiro passado falso passível de ser conferido nos cadastros suecos.

Mas era tarde demais. Zalachenko já tinha se metido com a desgraçada daquela puta da Agneta Sofia Salander, nascida Sjõlander, e se apresentara com seu nome verdadeiro. Para Gullberg, faltava algum parafuso na cabeça do seu protegido. Desconfiava que o dissidente russo queria ser desmascarado. Dava a impressão de querer se mostrar à luz dos refletores. Se não, como se explicava ele às vezes ser tão obtuso?

Eram as putas, eram os períodos de consumo exagerado de álcool, eram as brigas e altercações com os seguranças nos bares. Zalachenko foi detido três vezes pela polícia sueca por embriaguez, e duas por confusão em bares. E todas as vezes a Seção tinha de intervir discretamente para tirá-lo da encrenca, dar sumiço nos documentos e tratar de alterar os registros. Gullberg designou Gunnar Bjõrck para o papel de ama-seca. Seu trabalho consistia em servir de babá para o dissidente quase vinte e quatro horas por dia. Meio complicado, mas também era difícil não agir daquele modo.

Tudo poderia ter sido tranqüilo. No início dos anos 1980, Zalachenko tinha se acalmado e começava a se adaptar. A não ser pelo fato de não querer largar aquela puta da Salander — e, para piorar, ele agora era pai de duas meninas, Camilla e Lisbeth Salander.

Lisbeth Salander.

Gullberg pronunciou o nome com uma sensação de mal-estar.

Quando as meninas tinham nove, dez anos, Gullberg já sentia como que uma câimbra no estômago quando o assunto era Lisbeth Salander. Não precisava ser psiquiatra para perceber que ela não era normal. Gunnar Bjõrck relatara que ela era rebelde, violenta e agressiva com Zalachenko, e ainda por cima parecia não ter nenhum medo dele. Falava muito pouco, mas expressava de mil maneiras seu desagrado com aquele estado de coisas. Ela era um problema em potencial, porém nem em seus maiores delírios da imaginação

Gullberg conseguiria prever as proporções monumentais que aquilo tudo iria assumir. O que ele mais temia era que a situação da família Salander provocasse uma investigação social que acabasse pondo Zalachenko em foco. Gullberg pedia-lhe constantemente que rompesse com a família e sumisse da vida delas. Zalachenko prometia, mas nunca cumpria a promessa. Ele tinha outras putas. Muitas putas. No entanto, ao fim de alguns meses, sempre voltava para junto de Agneta Sofia Salander.