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O idiota do Zalachenko. Um espião que permitia que seu pinto conduzisse sua vida sentimental não podia, evidentemente, ser um bom espião. Era como se Zalachenko estivesse, ou julgasse estar, acima das regras. Se pelo menos ele pudesse trepar com a mulher sem espancá-la sempre que a via, até daria para agüentar, mas o fato é que ele a maltratava sistematicamente. Parecia até que se comportava assim para desafiar os vigilantes do grupo Zalachenko, que ele demolia a mulher só para se divertir e atormentar o grupo.

Gullberg não tinha a menor dúvida de que Zalachenko era um escroto perverso, mas não tinha escolha. Os dissidentes do GRO realmente não nasciam em árvores. Ele só dispunha de um, o qual tinha consciência da própria importância.

Gullberg suspirou. O grupo Zalachenko assumira a função de comando de limpeza. Não dava para negar. Zalachenko sabia que podia tomar suas liberdades que depois os homens ajeitariam gentilmente os problemas. E quando se tratava de Agneta Sofia Salander, ele aproveitava a situação para ultrapassar todos os limites.

Entretanto, sinais de alerta não tinham faltado. Lisbeth Salander acabava de completar doze anos quando apunhalara Zalachenko. Claro, foram ferimentos superficiais, mas mesmo assim exigiram uma passagem no Hospital Sankt Gõran e a necessidade, para o grupo Zalachenko, de realizar uma limpeza considerável. Naquela vez, Gullberg tivera uma Conversa Muito Séria com Zalachenko. Explicou-lhe que ele não podia, em hipótese alguma, retomar o contato com a família Salander, e Zalachenko prometeu. Cumpriu a promessa por mais de seis meses, até que voltou a procurar Agneta Sofia Salander e lhe deu tamanha surra que ela acabou seus dias numa clínica. Mas o que Gullberg nunca teria imaginado é que Lisbeth Salander era uma psicopata ávida de sangue que sabia fabricar um coquetel Molotov. Aquele dia fora um caos absoluto. Seria de se esperar uma série de investigações, e toda a operação Zalachenko — quem sabe até toda a Seção — estava por um tênue fio. Se Lisbeth Salander falasse, Zalachenko poderia ser desmascarado. Se Zalachenko fosse desmascarado, não só uma série de operações em andamento na Europa nos últimos quinze anos corria o risco de naufragar, como a própria Seção arriscava-se a se tornar objeto de um inquérito oficial. O que precisava ser evitado a todo custo.

Gullberg estava preocupado. Um inquérito oficial faria o caso IB parecer uma inofensiva série de televisão. Se abrissem os arquivos da Seção, descobririam um bom número de situações não totalmente constitucionais, para não falar na vigilância sobre Palme e sobre outros sociais-democratas conhecidos, que se estendera por muitos anos. Isso acarretaria investigações sobre Gullberg e vários outros funcionários da Seção. Pior: jornalistas exaltados, sem pensar duas vezes, lançariam a teoria de que a Seção estava por trás do assassinato de Palme, o que por sua vez conduziria a mais um labirinto de revelações e acusações. O pior era que a direção da Sapo tinha mudado tanto que hoje nem seu chefe principal sabia da existência da Seção. Todos os contatos com a DGPN/Sapo naquele ano iam parar na mesa do novo secretário-geral que, fazia já dez anos, era membro da Seção.

Os colaboradores do grupo Zalachenko viviam um clima de pânico e aflição. Foi Gunnar Bjõrck quem encontrou a solução na forma de um psiquiatra chamado Peter Teleborian.

Teleborian estivera ligado ao departamento de contra-espionagem da DGPN/Sapo em outro caso bem distinto, fazendo as vezes de consultor quando a contra-espionagem tivera de avaliar a personalidade de um espião industrial em potencial. Em certo ponto delicado da investigação, foi preciso determinar de que maneira o homem reagiria se exposto a uma situação de estresse. Teleborian era um jovem psiquiatra promissor que não empregava um jargão obscuro, oferecendo conselhos concretos e sólidos. Tais conselhos tinham permitido que a Sapo evitasse um suicídio, e o espião em questão fora convertido em agente duplo, fornecedor de desinformação à seus partidários.

Após a agressão de Salander contra Zalachenko, Bjõrck vinculara discretamente Teleborian à Seção, como consultor. E naquele momento, mais do que nunca, estavam precisando dele.

A solução do problema fora bastante simples. Karl Axel Bodin podia desaparecer em algum momento durante seu processo de reeducação. Agneta Sofia Salander desapareceria em meio aos tratamentos de longo prazo, com lesões cerebrais irreversíveis. Todas as investigações policiais ficaram concentradas na DGPN/Sapo e foram repassadas para a Seção através do secretário-geral.

Peter Teleborian acabava de assumir o cargo de médico-chefe adjunto na clínica Sankt Stefan de psiquiatria infantil, em Uppsala. Só precisavam de uma perícia médico-legal redigida em conjunto por Bjõrck e Teleborian, seguida de uma decisão sumária e não muito contestável de um tribunal de instâncias. Só dependia da forma como a questão seria apresentada. A Constituição nada tinha a ver com isso. Afinal, tratava-se da segurança nacional. As pessoas iriam entender.

E Lisbeth Salander era claramente uma doente mental. Alguns anos internada numa instituição psiquiátrica só iriam lhe fazer bem. Gullberg meneara a cabeça e dera seu aval para a operação.

Todas as peças do* quebra-cabeça tinham se encaixado, numa época em que, de qualquer modo, o grupo Zalachenko estava para ser dissolvido. A União Soviética deixara de existir e o período de glória de Zalachenko estava definitivamente relegado ao passado. Sua data de validade estava mais do que vencida.

O grupo conseguira para Zalachenko uma generosa indenização, fornecida por um dos fundos da Sapo. Ofereceram-lhe os melhores tratamentos imagináveis e, seis meses depois, com um suspiro de alívio, acompanharam Karl Axel Bodin ao aeroporto de Arlanda, munido de um bilhete de ida para a Espanha. Explicaram-lhe que, a partir daquele momento, Zalachenko e a Seção seguiriam caminhos diferentes. Aquele foi um dos últimos casos de Gullberg. Uma semana depois, aposentava-se em função da idade e deixava o lugar a seu herdeiro Fredrik Clinton. Gullberg passou a atuar apenas como consultor e conselheiro em assuntos mais delicados. Permaneceu mais três anos em Estocolmo, trabalhando quase diariamente na Seção, mas as missões foram ficando cada vez mais escassas e ele próprio foi esmorecendo. Voltou para Laholm, sua cidade natal, e realizou alguns trabalhos à distância. Nos primeiros anos, ainda vinha regularmente a Estocolmo, mas mesmo essas viagens foram se tornando mais e mais episódicas.

Nunca mais tinha pensado em Zalachenko. Até o dia em que, ao acordar de manhã, deu com a filha de Zalachenko na primeira página de todos os jornais como suspeita de um triplo homicídio.

Gullberg acompanhou o noticiário com uma sensação de confusão. Percebia claramente que Bjurman não se tornara tutor de Salander por acaso, mas o ressurgimento do velho caso Zalachenko não se afigurava para ele como um perigo iminente. Salander era uma doente mental. Que ela tivesse planejado uma orgia assassina não chegava a surpreendê-lo. Em compensação, nunca lhe ocorrera que Zalachenko pudesse estar ligado ao caso até ver, no noticiário da manhã, o relato dos acontecimentos de Gosseberga. Foi quando começou a dar uns telefonemas e acabou comprando uma passagem de trem para Estocolmo.

A Seção enfrentava sua pior crise desde que a organização fora criada. Tudo ameaçava explodir.

Zalachenko arrastou-se até o banheiro e urinou. Desde que o Hospital Sahlgrenska fornecera-lhe muletas, conseguia se locomover. Dedicara o domingo a breves sessões de exercícios. Uma dor infernal ainda lhe varava o maxilar e ele só ingeria alimentos líquidos, mas já conseguia se levantar e percorrer uns poucos metros.