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Como já usasse uma prótese fazia quase quinze anos e estava acostumado com bengalas, treinou locomover-se com as muletas sem fazer barulho, dando voltas dentro do quarto. A cada vez que seu pé encostava no chão, uma dor fulgurante lhe transpassava a perna.

Cerrou os dentes. Pensou em Lisbeth Salander que — se tinha entendido direito — achava-se num quarto próximo, à esquerda, duas portas adiante.

Por volta das duas da manhã, dez minutos depois da última visita da enfermeira da noite, estava tudo calmo e silencioso. Zalachenko levantou-se a muito custo e tateou em busca das muletas. Aproximou-se da porta, mas não escutou nada. Abriu a porta e foi para o corredor. Caminhou até a saída no fundo do corredor, abriu a porta e deu uma espiada na escada. Havia elevadores. Voltou para o corredor. Ao passar em frente à porta de Lisbeth Salander, deteve-se e se apoiou uns trinta segundos nas muletas.

Naquela noite, as enfermeiras tinham fechado a porta. Lisbeth Salander abriu os olhos ao escutar um ligeiro som de atrito no corredor. Não conseguia identificar esse som. Parecia alguém arrastando devagarinho alguma coisa no chão. Por um momento, tudo ficou quieto e ela se perguntou se não seria uma alucinação. Um minuto depois, tornou a ouvir o mesmo ruído se afastando. Relaxou e deitou a cabeça no travesseiro.

Pouco depois, apalpou a comadre e descobriu os botões que a mantinham fechada. Abriu-os e derrubou a comadre no chão. De repente, respirar ficou mais fácil.

Gostaria de ter uma arma ao alcance da mão ou força suficiente para se levantar e se livrar dele de uma vez por todas.

Por fim, apoiou-se nos cotovelos e se ergueu. Acendeu a luz lateral e observou o quarto à sua volta. Não viu nada que pudesse servir de arma. Então seu olhar se deteve na mesa das enfermeiras, a três metros da cama. Constatou que alguém deixara um lápis sobre ela.

Esperou a visita da enfermeira, que naquela noite parecia vir ocorrendo a cada meia hora. Imaginou que verificações menos freqüentes significavam que os médicos viam uma melhora em seu estado, já que antes vinham vê--la de quinze em quinze minutos, ou até menos. Quanto a ela, não percebia nenhuma diferença.

Uma vez sozinha, juntou suas forças e se sentou, balançando as pernas sobre a beirada da cama. Os eletrodos presos à seu corpo registravam seu pulso e sua respiração, mas os fios seguiam todos na mesma direção do lápis. Levantou-se bem devagar e titubeou de repente, totalmente sem equilíbrio. Por um segundo, achou que ia desmaiar, mas apoiou-se na cama e focou o olhar na mesa em frente. Deu três passos vacilantes, estendeu a mão e apanhou o lápis.

Recuou até a cama. Estava completamente esgotada.

Depois de alguns instantes, achou forças para puxar o cobertor sobre si. Ergueu o lápis e verificou a ponta. Era um lápis de madeira comum. Fora recentemente apontado, estava afiado feito uma agulha. Daria uma arma adequada para enfiar num rosto ou nos olhos.

Deixou o lápis facilmente acessível junto ao quadril e voltou a dormir.

6 - SEGUNDA-FEIRA - 11 DE ABRIL

Na segunda-feira de manhã, Mikael Blomkvist se levantou pouco depois das nove e ligou para Malu Eriksson, que acabava de chegar à redação da Millennium.

— Bom dia, senhora redatora-chefe — disse ele.

— Ainda estou em estado de choque com a saída da Erika e por saber que vocês me aceitaram como redatora-chefe.

— Ah, é?

— Ela foi embora. A sala dela está vazia.

— Então parece ser uma boa idéia você dedicar o dia para se instalar na sala.

— Não sei o que fazer. Não estou me sentindo muito à vontade.

— Pois não deveria. Todo mundo concorda que você é a melhor escolha na atual situação. E você pode pedir ajuda para o Christer ou para mim.

— Obrigada pela confiança.

— Deixe disso — disse Mikael. — Continue trabalhando como sempre. Por um tempo, a gente vai lidar com os problemas à medida que eles aparecerem.

— Certo. O que você tem em mente?

Ele explicou que pretendia ficar o dia inteiro em casa escrevendo. Malu se deu conta, de repente, de que ele estava prestando conta, como — provavelmente — prestaria a Erika Berger, de seu trabalho. Ele esperava um comentário dela. Ou estaria enganada?

— Você tem alguma instrução para me passar?

— Niet. Pelo contrário, se você tiver alguma, é só me ligar. Estou por aqui. Eu continuo com as rédeas da encrenca Salander e decido tudo sobre o caso, mas no que se refere a tudo o mais na revista a bola está com você. Tome as decisões. Eu te dou uma força.

— E se eu tomar a decisão errada?

— Se eu sentir ou perceber alguma coisa, te falo. Mas só se for alguma coisa absurda. Em geral, não existem decisões cem por cento boas nem cem por cento más. Você vai tomar as suas decisões, que talvez não sejam as que a Erika tomaria. E se fosse eu a decidir, teríamos uma terceira variante. Mas agora as suas é que vão prevalecer.

— Entendido.

— Se você for uma boa chefe, vai debater as questões que surgirem com as outras pessoas. Primeiro com o Henry e o Christer, depois comigo e, por fim, discutimos os problemas realmente espinhosos nas reuniões de redação.

— Vou fazer o melhor possível.

— Ótimo.

Ele se sentou no sofá da sala com o iBook no colo e trabalhou sem nenhuma pausa a metade da segunda-feira. Quando terminou, dispunha de uma primeira versão bruta de dois textos de vinte e uma páginas no total. Essa parte da matéria se centrava no assassinato de seu colaborador Dag Svensson e da companheira dele, Mia Bergman — no que eles vinham trabalhando, por que tinham sido mortos e quem era o assassino. Calculava, por alto, que teria de produzir mais umas quarenta páginas para a edição temática do próximo verão. E precisava resolver de que modo poderia introduzir Lisbeth Salander no texto sem ferir a integridade dela. Sabia coisas a seu respeito que ela decerto gostaria de não ver divulgadas.

Naquela segunda-feira, Evert Gullberg tomou um café da manhã composto por uma única fatia de pão e uma xícara de café preto, na Cafeteria Frey.

Em seguida, pegou um táxi que o levou até a Artillerigatan, em Õstermalm. Às 9hl5, tocou o interfone, apresentou-se e imediatamente lhe abriram a porta. Subiu até o quinto andar, onde foi recebido por Birger Wadensjõõ, de cinqüenta e quatro anos. Era o novo diretor da Seção.

Wadensjõõ era um dos mais jovens recrutas da Seção na época em que Gullberg se aposentara. Não sabia bem o que pensar a respeito dele.

Gostaria que o enérgico Fredrick Clinton ainda estivesse lá. Clinton sucedera Gullberg e fora diretor da Seção até 2002, quando um diabetes e problemas cardiovasculares de certa forma o obrigaram a se aposentar. Gullberg não conseguia identificar qual era realmente o perfil de Wadensjõõ.

— Olá, Evert — disse Wadensjõõ, apertando a mão de seu antigo chefe. — Obrigado por reservar um tempinho para nos fazer uma visita.

— Tempo é quase tudo o que me resta — disse Gullberg.

— Sabe como é. A gente não é muito bom em manter contato com nossos ex-fiéis servidores.

Evert Gullberg ignorou a observação. Entrou à esquerda em sua antiga sala, instalando-se a uma mesa redonda de reuniões próxima à janela. Wadensjõõ (Gullberg supôs que fosse mesmo ele) pusera nas paredes reproduções de Chagall e Mondrian. No seu tempo, Gullberg tinha posto plantas de navios históricos como o Kronan e o Wasa. Sempre sonhara com o mar e era, de origem, oficial da Marinha, embora só tenha passado alguns poucos meses no mar durante o serviço militar. Havia também computadores na sala. No mais, ela estava praticamente igual à que ele deixara ao se aposentar. Wadensjõõ serviu um café.

— O pessoal não deve demorar — disse ele. — Pensei que a gente poderia conversar um pouco primeiro.

— Quantas pessoas da minha época ainda estão na Seção?