— Além de mim, só o Otto Hallberg e o Georg Nystrõm. O Hallberg se aposenta este ano e o Nystrõm está para fazer sessenta anos. Fora eles, praticamente só temos gente nova. Você já deve ter cruzado com alguns deles.
— Quantas pessoas trabalham na Seção atualmente?
— Andamos reorganizando as coisas por aqui.
— Ah, é?
— No momento, estamos com sete pessoas em período integral. Ou seja, houve uma redução. Além disso, a Seção tem trinta e um colaboradores na DGPN/Sapo. A maioria nunca aparece, faz o trabalho de rotina, e os serviços que eles realizam para nós são mais um extra discreto.
— Trinta e um colaboradores.
— Mais sete. Acontece que foi você quem criou este sistema. Nós só aperfeiçoamos, e ainda hoje se fala em uma organização interna e outra externa. Quando recrutamos uma pessoa, ela fica lotada aqui por um tempo para adquirir experiência com a gente. O Hallberg é quem cuida do treinamento. O estágio básico dura seis semanas. É realizado na Escola da Marinha. Depois o novato reassume seu posto efetivo na DGPN/Sapo, mas alocado aqui com a gente.
— Ah,é?
— O sistema é meio fantástico. Os colaboradores, na sua maioria, ignoram tudo uns sobre os outros. E aqui na Seção a gente funciona antes de mais nada como receptores de relatórios. As regras são as mesmas da sua época. Para todos os efeitos, somos uma organização banal.
— Unidade de intervenção?
Wadensjõõ franziu o cenho. Nos tempos de Gullberg, a Seção tivera uma pequena unidade de intervenção de quatro pessoas comandadas por Hans von Rottinger, um sujeito experiente.
— Bem, não exatamente. O Rottinger morreu há cinco anos. Temos aqui um jovem talentoso que faz algum trabalho de campo, mas em geral recorremos a alguém da organização externa quando é preciso. Sem contar que tecnicamente ficou mais complicado, por exemplo, montar uma escuta telefônica ou entrar num apartamento. Hoje em dia existem alarmes e lixos desse tipo em todo lugar.
Gullberg concordou com a cabeça.
— Orçamento? — perguntou.
— Contamos com pouco mais de onze milhões por ano. Um terço vai para os salários, um terço para a manutenção e o outro terço para as atividades.
— Quer dizer que o orçamento foi reduzido?
— Um pouco. Mas temos menos pessoal, o que significa que a verba para as atividades aumentou.
— Entendi. Me fale um pouco sobre a nossa relação com a Sapo — disse Gullberg, sem se preocupar se podia ou não usar esse termo.
Wadensjõõ balançou a cabeça.
— O secretário-geral e o encarregado do orçamento são nossos. Formalmente, o secretário-geral é talvez o único que tem acesso às nossas atividades. Como sempre, somos secretos a ponto de não existirmos. Mas, ha verdade, alguns chefes-adjuntos sabem da nossa existência. Fazem o possível para nem ouvir falar na gente.
— Sei. Isso significa que caso haja algum problema a atual direção da Sapo vai ter uma surpresa desagradável. E a direção da Defesa? E o governo?
— A direção da Defesa foi afastada já faz uns dez anos. E os governos, você sabe, vão e vêm.
— Quer dizer que, se o tempo fechar, estamos completamente sozinhos?
Wadensjõõ assentiu com a cabeça.
— E o inconveniente desse arranjo. Em compensação, há vantagens óbvias. Mas as nossas tarefas também mudaram. A real politik na Europa já não é a mesma desde a queda da União Soviética. Nosso trabalho está menos centrado na detecção de agentes de informação. Agora tudo gira mais em torno do terrorismo e, principalmente, da adequação política de tal ou tal pessoa para os cargos nevrálgicos.
— Tudo sempre girou em torno disso.
Bateram à porta. Gullberg viu um homem bem-apessoado de uns sessenta anos e outro mais jovem, de jeans e paletó.
— Olá, pessoal. — E virando-se para Gullberg: — Esse é o Jonas Sandberg. Ele trabalha aqui há quatro anos e participa da frente de intervenções. Já lhe falei sobre ele. E esse é o Georg Nystrõm, vocês já se conhecem.
— Olá, Georg — disse Gullberg.
Apertaram-se as mãos. Gullberg então se virou para Jonas Sandberg.
— E você, vem de onde? — perguntou, enquanto o examinava.
— Nesse momento, de Gõteborg — brincou Sandberg. — Fui fazer uma visita.
— Zalachenko... — disse Gullberg.
Sandberg fez que sim com a cabeça.
— Senhores, queiram sentar-se — disse Wadensjõõ.
— Bjõrck? — disse Gullberg, e franziu o cenho quando Wadensjõõ acendeu uma cigarrilha. Tinha tirado o paletó e estava recostado na poltrona diante da mesa de reuniões. Wadensjõõ lançou um olhar para Gullberg e se impressionou com a extrema magreza do velho.
— Ele foi acusado de infringir a lei de remuneração de serviços sexuais na sexta-feira passada — disse Georg Nystrõm. — A ação judicial ainda não teve início, mas ele a princípio confessou e voltou para casa com o rabo entre as pernas. Está morando em Smâdalarõ durante sua licença médica. A mídia ainda não divulgou nada.
— Houve um tempo em que Bjõrck era um dos melhores aqui na Seção — disse Gullberg. — Tinha um papel-chave no caso Zalachenko. O que aconteceu depois que eu me aposentei?
— Ele deve ser um dos raríssimos colaboradores internos que deixaram a Seção para voltar à atividade externa. Mas já no seu tempo ele andava um bocado entre lá e cá.
— É, ele precisava de um descanso e queria ampliar seus horizontes. Na década de 1980 ficou dois anos licenciado da Seção, sem vencimentos, atuando como adido no serviço de informações. Ele tinha trabalhado feito louco com o Zalachenko, praticamente vinte e quatro horas por dia desde 1976, e achei que ele estava precisando mesmo de um tempo. Ficou fora de 1985 a 1987 e depois voltou para cá.
— Pode-se dizer que ele deixou de trabalhar na Seção em 1994, quando passou para a organização externa. Em 1996, virou chefe-adjunto da Brigada dos Estrangeiros e se viu num cargo difícil, de muito trabalho. E claro que manteve contato constante com a Seção, e posso sem dúvida lhe dizer também que conversamos regularmente por telefone mais ou menos uma vez por mês até bem pouco tempo atrás.
— E agora ele está doente.
— Nada sério, mas muito doloroso. Está com uma hérnia de disco. Ela o incomodou várias vezes nos últimos tempos. Há dois anos tirou uma licença médica de quatro meses. E em agosto passado ficou mal de novo. Era para ele voltar ao trabalho em 1- de janeiro, mas a licença foi prorrogada e agora é mais uma questão de esperar a cirurgia.
— E ele passou a licença médica correndo atrás das putas — disse Gullberg.
— Pois é, ele é solteiro e, se entendi direito, já freqüenta as putas há vários anos — disse Jonas Sandberg, que em quase meia hora não pronunciara uma palavra sequer. — Eu li o relatório do Dag Svensson.
— Ahã. Mas alguém poderia me explicar o que realmente aconteceu?
— Até onde pudemos entender, deve ter sido o Bjõrck quem desencadeou esta confusão toda. E a única explicação para o relatório de 1991 ter ido parar nas mãos do doutor Bjurman.
— Que também vive correndo atrás das putas? — perguntou Gullberg.
— Não que a gente saiba. Pelo menos ele não aparece no material do Dag Svensson. Em compensação, era o tutor da Lisbeth Salander.
Wadensjõõ suspirou.
— Tenho de admitir que a culpa é minha. Você e o Bjõrck pegaram a Lisbeth Salander em 1991, quando ela foi internada na psiquiatria. A gente achou que ela ia ficar lá por muito tempo, mas ela tinha um guardião legal, o advogado Holger Palmgren, que conseguiu tirá-la de lá. Ela foi encaminhada para uma família adotiva. Nessa época, você já tinha se aposentado.
— E depois disso, o que aconteceu?
— Ela foi mantida sob vigilância. Enquanto isso, a irmã dela, a Camilla Salander, foi encaminhada para outra família adotiva em Uppsala. Quando elas tinham dezessete anos, a Lisbeth Salander de repente começou a vasculhar seu passado. Procurava por Zalachenko e esquadrinhou todos os registros oficiais que conseguiu achar. De um modo ou de outro, não sabemos bem como, ela obteve a informação de que a irmã sabia onde estava o Zalachenko.