— E isso procede?
Wadensjõõ deu de ombros.
— Na verdade, não faço idéia. Fazia muitos anos que as gêmeas não se viam, até que a Lisbeth foi atrás da Camilla tentando obrigar a irmã a dizer o que sabia. A história acabou numa discussão feia e numa briga daquelas entre as duas.
— Ah, é?
— A Lisbeth foi mantida sob estreita vigilância durante meses. Também já tinham avisado a Camilla Salander que a irmã era violenta e mentalmente perturbada. Foi ela quem nos contatou depois da visita repentina da Lisbeth, o que fez com que reforçássemos a segurança.
— Quer dizer que a irmã é que era sua informante?
— A Camilla Salander tinha pânico da irmã. De qualquer modo, a Lisbeth também chamou a atenção por outras vias. Teve várias discussões com o pessoal das instâncias sociais e avaliamos que ela continuava sendo uma ameaça para o anonimato do Zalachenko. Depois disso houve o incidente no metrô.
— Ela atacou um pedófilo...
— Exato. Ela tendia claramente para a violência e era psicologicamente perturbada. Achamos que seria melhor para todos os interessados se ela sumisse de novo numa clínica, e aproveitamos a oportunidade. O Fredrik Clinton e o Rottinger é que intervieram. Apelaram mais uma vez para o Peter Teleborian e travaram, por tabela, um combate no Tribunal de Instâncias para que ela fosse internada novamente. Holger Palmgren representou Lisbeth Salander e, contrariando as expectativas, o Tribunal escolheu a alternativa dele — com a condição de que ela fosse posta sob tutela.
— Mas como é que o Bjurman acabou se envolvendo nessa história?
— O Palmgren teve um derrame cerebral no outono de 2002. Sempre somos informados quando a Salander aparece em algum banco de dados, e dei um jeito para que o Bjurman se tornasse seu novo tutor. Veja bem, ele não sabia que ela era filha do Zalachenko. A idéia era simplesmente que, se ela começasse a delirar a respeito do Zalachenko, ele reagisse e nos alertasse.
— O Bjurman era um idiota. Ele nunca deveria ter tido nada a ver com o Zalachenko, muito menos com a filha dele. — Gullberg encarou Wadensjõõ. — Foi um erro grave.
— Eu sei — disse Wadensjòõ. — Mas na época parecia a coisa certa. Eu nunca ia imaginar que...
— E agora, onde está a irmã, a Camilla Salander?
— Ninguém sabe. Quando ela completou dezenove anos, fez as malas e deixou a casa da família adotiva. Desde então não tivemos mais notícias dela. Desapareceu.
— Certo, continue.
— Tenho um informante entre os tiras oficiais, e ele falou com o procurador Richard Ekstrõm — disse Sandberg. — O inspetor Bublanski, que conduz as investigações, acha que o Bjurman estuprou a Salander.
Gullberg encarou Sandberg com genuína surpresa. Depois cocou o queixo, pensativo.
— Estuprou? — disse.
— O Bjurman tinha uma tatuagem na barriga, que dizia: "Sou um porco sádico, um canalha estuprador".
Sandberg pôs uma foto colorida da autópsia em cima da mesa. Gullberg, com os olhos arregalados, examinou a barriga de Bjurman.
— E a filha do Zalachenko é quem teria feito isso?
— E difícil explicar a situação de outro jeito. Mas ela, aparentemente, não é inofensiva. Deu uma surra que quase matou os dois hooligans do MC Svavelsjõ.
— A filha do Zalachenko — repetiu Gullberg. — Voltou-se para Wadensjõõ. — Sabe, eu acho que você deveria contratá-la.
Wadensjõõ pareceu tão surpreso que Gullberg precisou explicar que era brincadeira.
— Certo. Vamos admitir, como hipótese de trabalho, que o Bjurman estuprou a garota e ela se vingou. O que mais?
— O único capaz de dizer exatamente o que aconteceu seria, claro, o próprio Bjurman, o que agora é meio difícil, já que ele está morto. Porém o fato é que no começo ele não sabia que ela era filha do Zalachenko, isso não consta em nenhum registro oficial. Mas no meio do caminho, em algum momento, o Bjurman fez a relação.
— Puta merda, Wadensjõõ, só que ela sabia perfeitamente quem era o pai dela e pode ter contado ao Bjurman em algum momento.
— Eu sei. Nós... eu não pensei direito nesta história.
— Isso é de uma incompetência imperdoável — disse Gullberg.
— Eu sei. E já me xinguei por isso dúzias de vezes. Mas o Bjurman era uma das raras pessoas que sabiam da existência do Zalachenko, e o meu raciocínio foi que era melhor ser ele a descobrir que ela era filha do Zalachenko do que um tutor desconhecido. Na verdade, ela poderia ter contado para qualquer pessoa.
Gullberg beliscou a ponta da orelha.
— Bem... continue.
— Não passa de uma hipótese — disse Georg Nystrõm suavemente. — Mas estamos supondo que o Bjurman violentou a Salander e que ela se vingou com isso... — Ele apontou a tatuagem na fotografia da autópsia.
— E bem filha do pai dela — disse Gullberg. Havia em sua voz uma pontinha de admiração.
— O resultado foi que o Bjurman entrou em contato com o Zalachenko pedindo que ele desse um jeito na filha. O Zalachenko tem bons motivos para odiar a Lisbeth Salander, o senhor sabe disso tanto quanto eu. E o Zalachenko, por sua vez, terceirizou o caso para o MC Svavelsjõ e para esse tal Niedermann que anda com ele.
— Mas como é que o Bjurman entrou em contato... — Gullberg calou--se. A resposta era óbvia.
— O Bjórck — disse Wadensjõõ. — A única maneira de explicar como o Bjurman conseguiu achar o Zalachenko é o Bjõrck ter lhe passado a informação.
— Puta que pariu — disse Gullberg.
Lisbeth Salander sentia um mal-estar crescente, além de uma forte irritação. Pela manhã, duas enfermeiras tinham vindo arrumar sua cama. Toparam imediatamente com o lápis.
— Olha só! Como é que isso veio parar aqui? — disse uma das enfermeiras, enfiando o lápis no bolso enquanto Lisbeth a fitava com um olhar assassino.
Lisbeth estava novamente desarmada e, além disso, tão fraca que nem conseguiu protestar.
Sentira-se mal todo o fim de semana. Estava com uma enxaqueca insuportável e haviam lhe ministrado analgésicos potentes. Sentia uma dor constante no ombro, que volta e meia se transformava numa facada quando ela se mexia descuidadamente ou deslocava o peso do corpo. Estava deitada de costas e usando a comadre. Ainda ficaria vários dias com ela, até que o corte da cabeça começasse a cicatrizar. Domingo tinha tido febre, com um pico de 38,7 graus. A Dra. Helena Endrin concluiu que ela estava com alguma infecção. Ou seja, sua saúde não ia muito bem. Lisbeth não precisava de um termômetro para perceber isso.
Constatou que estava novamente entrevada num leito do Estado, embora dessa vez não houvesse correias para prendê-la no lugar. O que teria sido supérfluo. Não tinha forças nem para se erguer, muito menos para sair andando por aí.
Lá pelo meio-dia da segunda-feira, o Dr. Anders Jonasson veio vê-la. Ele lhe parecia familiar.
— Olá. Lembra de mim? Ela tentou balançar a cabeça.
— Você estava meio atordoada, mas fui eu que te acordei depois da cirurgia. E fui eu que te operei. Só vim ver como você está se sentindo e se está tudo bem.
Lisbeth Salander arregalou os olhos. Parecia óbvio que não estava tudo bem.
— Ouvi dizer que você tirou a comadre na noite passada. Ela tentou dizer que sim com a cabeça.
— Esse colete ortopédico não está aí só de bobeira; é para você ficar com a cabeça imóvel nessa etapa da sua recuperação.
Ele contemplou a garota calada.
— Está bem — disse afinal. — Eu só dei uma passada para ver como você estava.
Ele já estava na porta quando escutou a voz dela.
— Jonasson, não é?
Ele se virou e dirigiu-lhe um sorriso surpreso.
— É isso mesmo. Se você lembra do meu nome é porque deve estar num estado melhor do que eu imaginava.