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— Foi você quem tirou a bala?

— Foi.

— Você pode me dizer como eu estou? Ninguém ainda me deu uma resposta coerente.

Ele voltou para junto da cama e olhou-a nos olhos.

— Você teve sorte. Levou uma bala na cabeça, mas aparentemente nenhuma zona vital foi afetada. Neste momento, o risco é você ter alguma hemorragia no cérebro. Por isso a gente quer que você fique quietinha. Você está com uma infecção em alguma parte do corpo. Ao que tudo indica, é Por causa do ferimento no ombro. Talvez seja preciso operar mais uma vez se a gente não conseguir combater a infecção com antibióticos. Você deve estar preparada para um período dolorido durante o processo de recuperação. Mas, pelo que estou vendo até agora, minha expectativa é que você saia dessa totalmente curada.

— Eu posso ficar com alguma seqüela no cérebro? Ele hesitou antes de menear a cabeça.

— Sim, esse risco existe. Mas tudo indica que você se saiu muito bem. Há também a possibilidade de se formarem cicatrizes no seu cérebro que poderiam gerar algum problema, por exemplo, você desenvolver uma epilepsia ou algo do gênero. Mas, com toda a franqueza, isso não passa de especulação. Por enquanto, tudo parece perfeito. Você está se recuperando. Se aparecerem alguns problemas no meio do caminho, a gente vai administrando. A resposta foi bastante clara?

Ela esboçou um movimento de cabeça.

— Quanto tempo ainda vou ter que ficar assim?

— Quer dizer, no hospital? Vai levar algumas semanas até a gente te deixar sair.

— Não, quero saber quanto tempo até eu conseguir me levantar, começar a andar e me mexer.

— Não sei. Depende da cicatrização. Mas conte com pelo menos duas semanas, até você poder começar algum tipo de fisioterapia.

Ela o contemplou, séria, durante um longo momento.

— Você não teria um cigarro? — ela perguntou.

Anders Jonasson soltou um riso espontâneo e balançou a cabeça.

— Sinto muito. É proibido fumar aqui. Mas posso pedir uns adesivos ou chicletes de nicotina para você.

Ela refletiu um pouco antes de dizer que aceitava do jeito que podia. Depois encarou-o novamente.

— Como vai o velho babaca?

— Quem? Você quer dizer...

— O homem que deu entrada junto comigo.

— Imagino que ele não seja um amigo seu. Olha, ele até que não está mal. Vai sobreviver e até já andou, se levantando e caminhando de muletas. Em termos físicos, está mais machucado que você e tem um ferimento extremamente doloroso no rosto. Pelo que entendi, você enfiou um machado na cara dele.

— Ele tentou me matar — disse Lisbeth em voz baixa.

- Isso não é legal. Agora eu preciso ir. Quer que eu volte outra hora para te ver?

Lisbeth Salander pensou um pouco. Então esboçou um sim. Depois que ele fechou a porta atrás de si, ela fitou pensativamente o teto. Zalachenko está de muletas. Foi esse o barulho que escutei na noite passada.

Pediram a Jonas Sandberg, o mais jovem do grupo, que fosse buscar o almoço. Ele voltou com sushis e cerveja, que foram servidos na mesa de reuniões. Evert Gullberg foi invadido por um sentimento nostálgico. Era exatamente assim que ele vivia antes, quando uma operação atingia um estágio crítico e eles trabalhavam dia e noite.

A diferença, constatou, é que talvez naquela época não tivesse ocorrido a ninguém essa esquisitice de pedir peixe cru para o almoço. Ele teria preferido que Sandberg trouxesse almôndegas com purê de batatas e mirtilos. Mas como não estava com fome pôde rejeitar os sushis sem muita aflição. Comeu um pedaço de pão e bebeu água mineral.

Continuaram a discutir enquanto comiam. Tinham chegado ao ponto em que precisavam fazer um balanço da situação e resolver que medidas se faziam necessárias. Havia decisões a ser tomadas.

— Não cheguei a conhecer o Zalachenko — disse Wadensjõõ. — Como é que ele era?

— Exatamente como é hoje, imagino — respondeu Gullberg. — Tem uma inteligência notável e uma memória quase fotográfica para detalhes. Mas, na minha opinião, é um idiota de primeira. E meio maluco, me parece.

— Jonas, você esteve com ele ontem. Qual é a sua conclusão? Jonas Sandberg soltou os talheres.

— Ele ainda está no controle. Já falei no ultimato que ele deu. Ou damos sumiço em tudo num passe de mágica, ou ele revela a existência da Seção.

— O que faz esse idiota achar que a gente pode dar sumiço em algo que a mídia já repetiu milhões de vezes? — perguntou Georg Nystrõm.

— Não se trata do que a gente pode fazer ou deixar de fazer. Trata-se da necessidade que ele tem de nos controlar — disse Gullberg.

— E então, qual a sua impressão? Ele vai cumprir a ameaça? Vai falar Cotn a mídia? — perguntou Wadensjõõ.

Gullberg respondeu devagar.

— E praticamente impossível responder. Zalachenko não é do tipo que ameaça à toa e vai fazer o que for conveniente para ele. Nesse sentido, ele é previsível. Se for vantajoso para ele contatar a mídia... se isso lhe garantir uma anistia ou uma redução de pena, ele faz. Ou se se sentir traído e quiser nos sacanear.

— Sejam quais forem as conseqüências?

— Especialmente por causa das conseqüências. Para ele o que importa é se mostrar mais forte que todos nós juntos.

— Mas mesmo que o Zalachenko abra o bico, não é certeza que o levem a sério. Para conseguir provar alguma coisa, vão precisar dos nossos arquivos. Ele não sabe da existência desse endereço.

— Você está disposto a arriscar? Vamos supor que o Zalachenko abra o bico. Quem mais vai fazer o mesmo em seguida? O que a gente faz se o Bjõrck confirmar a história dele? E o Clinton com a diálise dele... o que vai acontecer se ele virar um crente amargurado e começar a detestar o mundo inteiro? E se ele resolver confessar? Acreditem, se alguém começar a falar, vai ser o fim da Seção.

— Então... o que a gente faz?

Instalou-se um silêncio em volta da mesa. Foi Gullberg quem retomou o assunto.

— É um problema complexo. Primeiro, parece que concordamos sobre as conseqüências caso Zalachenko abra a boca. Toda a maldita Suécia constitucional iria cair em cima da gente. Seríamos aniquilados. Imagino que vários funcionários da Seção acabariam presos.

— A atividade é juridicamente legal, não se esqueça de que a gente trabalha sob as ordens do governo.

— Deixe de besteira — disse Gullberg. — Você sabe tão bem quanto eu que um documento redigido de forma nebulosa em meados dos anos 1960 não vale um tostão furado hoje em dia. Aposto que nenhum de nós tem vontade de saber o que aconteceria exatamente se o Zalachenko resolvesse falar — acrescentou.

Mais silêncio.

— Então, nosso ponto de partida é necessariamente fazer com que o Zalachenko fique quieto — acabou dizendo Geog Nystrõm.

Gullberg assentiu com a cabeça.

— E para fazê-lo ficar quieto temos que lhe oferecer algo substancial. O problema é que ele é imprevisível. Seria até capaz de nos fritar por pura maldade. Precisamos pensar num jeito de manter o homem sob controle.

— E sobre essas exigências dele? — perguntou Jonas Sandberg. — Que a gente dê um sumiço na história toda e que a Salander volte para uma clínica psiquiátrica?

— Na Salander, a gente dá um jeito. O problema é o Zalachenko. Mas isso nos leva ao outro aspecto do problema — a redução de prejuízos. O relatório de Teleborian de 1991 vazou e potencialmente representa uma ameaça tão séria quanto o próprio Zalachenko.

Georg Nystrõm deu uma tossidinha.

— Assim que percebemos que o relatório tinha vindo à tona e estava nas mãos da polícia, tomei algumas providências. Fui até o jurista Forelius, na DGPN/Sãpo, e ele contatou o Ministério Público. O Ministério Público ordenou que o relatório fosse tirado da polícia; está proibido de ser divulgado ou reproduzido.

— O que o Ministério Público sabia?