— Nada. O procurador-geral da nação atendeu a um pedido oficial da DGPN/Sapo, o caso tem relação com um material arquivado como segredo de Estado e o procurador não tinha escolha. Ele não poderia ter feito outra coisa.
— Certo. Quem, na polícia, leu o relatório?
— Havia duas cópias, e elas foram lidas pelo Bublanski, pela colega dele Sonja Modig e, por fim, pelo responsável pelo inquérito preliminar, Richard Ekstrõm. É de se supor que mais dois policiais, no mínimo... — Nystrõm folheou suas anotações — um tal de Curt Bolinder e um tal de Jerker Holmberg, sabiam do seu conteúdo.
— Ou seja, quatro policiais e um procurador. O que sabemos sobre eles?
— O procurador Ekstrõm tem quarenta e dois anos. E visto como uma estrela em ascensão. Foi investigador do Ministério da Justiça e conduziu alguns casos que chamaram a atenção. Meticuloso. Ávido por publicidade. Carreirista.
— Social-democrata? — perguntou Gullberg.
— Provavelmente. Mas não militante.
— Bem, e o Bublanski é quem está coordenando as investigações. Eu o vi numa coletiva de imprensa na tevê. Não parecia muito à vontade diante das câmeras.
— Ele tem cinqüenta e dois anos e um currículo impressionante, mas também tem fama de ser resmungão. É judeu e bastante ortodoxo.
— E a mulher... quem é?
— E a Sonja Modig. Casada, trinta e nove anos, mãe de dois filhos. Fez uma carreira bastante rápida. Falei com o Peter Teleborian, que a descreve como alguém emocional. Ela não parava de questioná-lo.
— Certo.
— O Curt Bolinder é um osso duro de roer. Trinta e oito anos. Veio da Brigada Antigangue de Sõderort e foi alvo de comentários, anos atrás, quando atirou num delinqüente. Foi totalmente inocentado no inquérito. Aliás, foi ele que o Bublanski mandou para prender o Gunnar Bjõrck.
— Entendi. Guarde isso de ele ter matado um homem. Se for preciso lançar alguma suspeita na equipe de Bublanski, daria para focar os refletores num tira ruim. Imagino que ainda mantemos contatos interessantes na mídia... E o outro sujeito?
— Jerker Holmberg. Cinqüenta e cinco anos. Originário do Norrland e especialista na análise de cenas de crime. Há alguns anos lhe ofereceram um treinamento para ele se tornar delegado, mas ele recusou. Parece gostar do que faz.
— Algum desses dois tem atuação política?
— Não. O pai de Holmberg foi conselheiro municipal centrista nos anos 1970.
— Humm. Tem todo o jeito de ser uma equipe bacana. Dá para imaginar que sejam bastante unidos. Há algum jeito de isolá-los?
— Existe um quinto policial no grupo — disse Nystrõm. — Hans Faste, de quarenta e sete anos. Pelo que entendi, há uma rixa meio séria entre o Faste e o Bublanski. Séria o suficiente para o Faste ter pedido uma licença médica.
— O que se sabe sobre ele?
— Senti vários tipos de reação quando fiz essa pergunta. Ele tem um extenso currículo, e nos relatórios não consta de fato nenhuma crítica contra ele. É um profissional. Mas difícil de conviver. Aparentemente a desavença com o Bublanski tem a ver com a Lisbeth Salander.
— Como assim?
— O Faste teria ficado obcecado com aquela história sobre um grupo de lésbicas satânicas que os jornais andaram alardeando. Ele não gosta nem um pouco da Salander e parece considerar a existência dela uma afronta pessoal. Provavelmente ele é quem está por trás de metade dos boatos que andaram surgindo. Um ex-colega me confidenciou que ele tem dificuldades em colaborar com as mulheres em geral.
— Interessante — disse Gullberg. Ele refletiu um instante. — Já que os jornais mencionaram um grupo de lésbicas, talvez valha a pena continuar fantasiando com esse assunto. Isso realmente não contribui para aumentar a credibilidade da Salander.
— Os policiais que leram o relatório do Bjõrck constituem, portanto, um problema. Será que a gente consegue isolá-los? — perguntou Sandberg.
Wadensjõõ acendeu outra cigarrilha.
— Quem está conduzindo o inquérito preliminar é o Ekstrõm...
— Mas é o Bublanski quem comanda o barco — disse Nystrõm.
— Sim, só que ele não pode ir contra decisões administrativas. — Wadensjõõ ficou pensativo. Olhou para Gullberg. — Você tem mais experiência que eu, mas essa história já está com tantos fios e ramificações... Minha impressão é que seria bom afastar o Bublanski e a Modig da Salander.
— É isso, Wadensjõõ — disse Gullberg. — E exatamente o que nós vamos fazer. O Bublanski é o chefe da investigação do assassinato de Bjurman e do casal de Enskede. A Salander já não é notícia nesse contexto. O foco agora é esse alemão, o Niedermann. Portanto o Bublanski e a sua equipe vão se concentrar na caça ao Niedermann.
— Certo.
— O caso deles não é mais a Salander. Temos também a investigação sobre Nykvarn... trata-se de três assassinatos antigos. Eles têm a ver com o Niedermann. No momento, a investigação está a cargo de Sõdertalje, mas vão juntá-la com a outra. Ou seja, o Bublanski vai ficar ocupado por um bom tempo. Quem sabe... ele talvez prenda o Niedermann.
— Humm.
— O tal Faste... haveria como fazer com que ele voltasse ao trabalho? Ele parece ser a pessoa ideal para investigar as suspeitas contra a Salander.
— Entendo aonde você quer chegar — disse Wadensjõõ. — A idéia é levar o Ekstrõm a separar um caso do outro. Mas para isso teríamos que controlar o Ekstrõm.
— Isso não deverá ser um grande problema — disse Gullberg. Ele olhou para Nystrõm, que concordou com a cabeça.
— Posso cuidar do Ekstrõm — disse Nystrõm. — Algo me diz que ele preferiria nunca ter ouvido falar em Zalachenko. Ele devolveu o relatório do Bjõrck assim que a Sapo pediu, e já afirmou que está disposto a se submeter a tudo que diga respeito à segurança nacional.
— O que você pretende fazer? — perguntou Wadensjõõ, desconfiado.
— Me deixe pensar num plano — disse Nystrõm. — Imagino que vamos apenas, de maneira muito elegante, explicar-lhe o que se espera que ele faça se quiser evitar que sua carreira seja brutalmente interrompida.
— O terceiro ponto é o que representa o maior problema — disse Gullberg. — A polícia não descobriu o relatório do Bjõrck sozinha... foi um jornalista que repassou para eles. Todos vocês já entenderam que a mídia é, evidentemente, um problema para nós. Millenníum.
Nystrõm abriu seu caderno de anotações.
— Mikael Blomkvíst — disse.
Todos naquela mesa já tinham ouvido falar no caso Wennerstrõm e conheciam o nome de Mikael Blomkvist.
— Dag Svensson, o jornalista assassinado, era colaborador da Millenníum. Estava trabalhando numa matéria ligada ao tráfico de mulheres. Foi assim que ele chegou ao Zalachenko. E foi o Mikael Blomkvist quem encontrou o corpo. Além disso, ele conhece a Lisbeth Salander e nunca deixou de acreditar na inocência dela.
— Como é que ele conhece a filha do Zalachenko... É coincidência demais, não pode ser um simples acaso.
— A gente não acha que seja por acaso — disse Wadensjõõ. — Achamos que a Salander, de alguma maneira, é o elo entre todos eles. Não sabemos explicar direito como, mas é a única hipótese plausível.
Gullberg permanecia calado, desenhando círculos concêntricos no seu caderninho. Por fim, ergueu os olhos.
— Preciso pensar um pouco sobre isso. Vou dar uma caminhada. Nos encontramos aqui dentro de uma hora.
A escapadinha de Gullberg durou quase quatro horas, e não uma como ele dissera. Ele caminhou por apenas uns dez minutos, até encontrar um café que oferecia um monte de variedades bizarras dessa bebida. Pediu uma xícara de café preto comum e sentou-se a uma mesa num canto perto da entrada. Refletiu intensamente, tentando esclarecer os diferentes aspectos do problema. De tempo em tempo, registrava um breve lembrete numa agenda.
Depois de uma hora e meia, um plano começava a ganhar forma.
Não era um bom plano, mas, depois de virar e revirar todas as possibilidades, percebeu que o problema exigia medidas drásticas.