— Muito bem. O segundo ponto é a Millennium e o Mikael Blomkvist. Por isso o Clinton voltou à ativa. Esse ponto requer medidas fora do padrão.
— Desconfio que não vou gostar nada disso — disse Wadensjõõ.
— É provável, mas a Millennium não pode ser manipulada do mesmo jeito simples. Em compensação, a ameaça que eles representam se fundamenta numa única coisa, ou seja, no relatório policial de Bjõrck de 1991. Na atual situação, imagino que esse relatório se encontre em dois lugares, talvez três. Quem o descobriu foi a Lisbeth Salander, mas de alguma maneira o Mikael Blomkvist também pôs as mãos nele. O que significa que havia algum tipo de contato entre o Blomkvist e a Salander enquanto ela estava foragida.
Clinton levantou um dedo e proferiu suas primeiras palavras desde que chegara.
— Isso também nos revela algo do caráter do nosso adversário. O Blomkvist não tem medo de se arriscar. Lembrem do caso Wennerstrõm.
Gullberg meneou a cabeça.
— O Blomkvist passou o relatório para a chefe dele, Erika Berger, que por sua vez o encaminhou ao Bublanski. Quer dizer, ela também leu. Ê de se supor que tenham feito uma cópia de segurança. Eu arriscaria dizer que o Blomkvist está com uma cópia e que existe mais uma na redação.
— Parece plausível — disse Wadensjõõ.
— A Millennium é uma revista mensal, o que significa que eles não vão publicar nada de hoje para amanhã. Temos tempo. Mas precisamos pôr as mãos nesses dois exemplares do relatório. E para isso não podemos passar pelo procurador-geral da nação.
— Entendo.
— Portanto vamos dar início a uma fase de intervenção, entrando ilegalmente na casa do Blomkvist e na redação da Millennium. Você saberia organizar essa parte, Jonas?
Jonas Sandberg deu uma olhada de soslaio para Wadensjõõ.
— Evert, você tem que entender... a gente não faz mais esse tipo de coisa — disse Wadensjõõ. — Os tempos mudaram, a gente agora lida com pirataria informática e vigilância eletrônica, se é que você me entende. Não temos mais recursos para manter um setor de intervenção.
Gullberg se debruçou para a frente.
— Wadensjõõ. Então cabe a você arranjar recursos para isso, e depressa. Pegue gente de fora. Alugue um bando de fortões da máfia iugoslava para dar uma surra no Blomkvist, se for o caso. Mas temos que pegar essas duas cópias custe o que custar. Sem elas, eles ficam sem nenhum documento e jamais poderão provar nada. Se você não for capaz de dar um jeito numa coisa assim, te deixo aqui chupando o dedo e esperando a Comissão Constitucional vir bater na porta.
Gullberg e Wadensjõõ fitaram-se por um longo momento.
— Posso cuidar disso — disse Jonas Sandberg de repente. Gullberg lançou um olhar de esguelha para o jovem novato.
— Tem certeza de que sabe organizar esse tipo de ação? Sandberg assentiu com a cabeça.
— Ótimo. A partir de agora, seu chefe é o Clinton. É dele que você recebe as ordens.
Sandberg aquiesceu.
— Vai ser, em boa parte, uma questão de vigilância. Esse setor de intervenção precisa ser reforçado — disse Nystrõm. — Tenho alguns nomes para sugerir. Temos um cara na organização externa, ele trabalha na segurança dos figurões da Sapo, o nome dele é Mârtensson. Não tem medo de nada e é um sujeito que promete. Faz tempo que eu venho pensando em transferi-lo aqui para a organização interna. Chego a pensar que ele poderia ser meu sucessor.
— Parece muito bom — disse Gullberg. — A última palavra vai ser do Clinton.
— Tem mais uma coisa — disse Georg Nystrõm. — Tenho a impressão de que ainda existe outra cópia.
— Onde?
— Eu soube hoje à tarde que a Lisbeth Salander está com uma advogada. O nome dela é Annika Giannini. É irmã do Mikael Blomkvist.
Gullberg fez um gesto de concordância com a cabeça.
— Bem pensado. O Blomkvist deve ter dado uma cópia para a irmã. Seria absurdo ele não dar. Ou seja, durante algum tempo vamos ter que vigiar os três de perto: Berger, Blomkvist e Giannini.
— Acho que não precisamos nos preocupar com a Berger. A imprensa divulgou hoje que ela é a nova redatora-chefe do Svenska Morgon-Posten. Não tem mais nada a ver com a Millennium.
— Certo. Mesmo assim vamos ficar de olho nela. Quanto à Millennium, temos que instalar um sistema de escuta, evidentemente, na casa deles e na redação. E um controle da correspondência eletrônica. Precisamos descobrir com quem eles se encontram e com quem conversam. E estamos muito, muito dispostos a acompanhar a edição das revelações que eles têm a fazer. Mas, antes de tudo, temos que pegar esse relatório. Ou seja, há um bocado de trabalho pela frente.
Wadensjõõ parecia hesitar.
— Evert, você está nos pedindo para realizar uma operação de intervenção na redação de um jornal. Estamos nos aventurando num terreno muito perigoso.
— Você não tem escolha. Ou arregaça as mangas, ou deixa a chefia para outra pessoa.
O desafio pairou como uma nuvem acima da mesa.
— Acho que consigo administrar a Millennium — disse, por fim, Jonas Sandberg. — Mas nada disso resolve o problema de fundo. O que fazer com o Zalachenko? Se ele abrir o bico, nossos esforços não terão servido de nada.
Gullberg balançou a cabeça devagar.
— Eu sei. Essa vai ser a minha parte. Acho que tenho um argumento capaz de convencer o Zalachenko a calar a boca. Mas vai exigir um bocado de preparação. Vou para Gõteborg ainda hoje à tarde.
Calou-se e percorreu o olhar pela sala. Então cravou os olhos em Wadensjõõ.
— O Clinton toma as decisões quanto à intervenção enquanto eu estiver fora — decretou.
Passados alguns instantes, Wadensjõõ fez que sim com a cabeça.
Foi preciso esperar até a noite de segunda-feira para que a Dra. Helena Endrin, de comum acordo com seu colega Anders Jonasson, decidisse que o estado de Lisbeth Salander estava suficientemente estável para que ela pudesse receber visitas. Os primeiros visitantes foram os dois inspetores criminais, a quem foram concedidos quinze minutos para perguntas. Quando entraram em seu quarto e se sentaram, ela contemplou os policiais em silêncio.
— Bom dia. Sou o inspetor criminal Marcus Ackerman. Trabalho na Brigada Criminal aqui de Gõteborg. Essa é a minha colega Sonja Modig, da polícia de Estocolmo.
Lisbeth Salander não deu bom-dia. Permaneceu totalmente impassível. Reconheceu Sonja Modig como uma das policiais da equipe de Bublanski. Ackerman dirigiu-lhe um sorriso aberto.
— Soube que não é do seu feitio falar de boa vontade com as autoridades. E, se me permite, você não precisa falar nada. Em compensação, eu agradeceria muito se nos ouvisse. Temos vários assuntos para tratar, e hoje não nos deram muito tempo. Haverá outras oportunidades.
Lisbeth Salander não disse nada.
— Então, para começar, eu queria informar que o seu amigo Mikael Blomkvist nos avisou que uma advogada chamada Annika Giannini está disposta a representar você e já está inteirada do caso. Diz ele que já falou com você sobre ela. Preciso que você me confirme isso, e queria saber se você aceita que a doutora Giannini venha para Gõteborg assisti-la.
Lisbeth Salander continuou calada.
Annika Giannini. A irmã de Mikael Blomkvist. Ele mencionara o nome dela num e-mail. Na verdade, não ocorrera a Lisbeth que ela iria precisar de um advogado.
— Desculpe, mas tenho de pedir que responda a essa pergunta. Basta dizer sim ou não. Se for sim, o procurador aqui de Gõteborg entrará em contato com a doutora Giannini. Se for não, um tribunal vai indicar um defensor público. O que você prefere?
Lisbeth refletiu sobre a proposta. Ponderou que, realmente, precisava i um advogado, mas ter a irmã do Maldito Sacana do Super-Blomkvist para defendê-la era meio difícil de engolir. Ele ia adorar. Por outro lado, um defensor público, desconhecido, não era melhor. Por fim, abriu a boca e grasnou uma só palavra rouca.