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— Giannini.

— Ótimo. Obrigado. E agora eu queria lhe fazer uma pergunta. Você não precisa dizer nada antes da chegada de sua advogada, mas até onde posso ver não é uma pergunta que se refira diretamente a você nem ao seu bem--esrar. A polícia está procurando um cidadão alemão chamado Ronald Niedermann, de trinta e sete anos, suspeito de ter assassinado um policial.

Lisbeth franziu o cenho. Isso, para ela, era novidade. Ignorava tudo o que se passara depois de ter enfiado o machado na cabeça de Zalachenko.

— A gente aqui em Gõteborg queria pegar esse Niedermann o quanto antes. A minha colega aqui, de Estocolmo, também queria ouvir você sobre os três assassinatos dos quais você era suspeita inicialmente. Estamos pedindo a sua ajuda. Queríamos saber se você tem alguma idéia... se você pode nos dar alguma pista do paradeiro dele.

O olhar de Lisbeth passou, desconfiado, de Ackerman para Modig.

Eles não sabem que ele é meu irmão.

Em seguida, perguntou-se se tinha vontade de ver Niedermann preso ou não. O que ela queria mesmo era levá-lo em frente a um buraco cavado na terra de Gosseberga e enterrá-lo lá dentro. Finalmente, ela deu de ombros. O que não deveria ter feito, já que uma dor lancinante transpassou, no ato, seu ombro esquerdo.

— Que dia é hoje? — ela perguntou.

— Segunda-feira. Ela refletiu.

— A primeira vez que escutei o nome de Ronald Niedermann foi na quinta-feira da semana passada. Segui a pista dele até Gosseberga. Não faço idéia de onde ele se encontra nem de para onde poderia ter ido. Mas posso apostar que ele vai tentar, bem depressa, se colocar a salvo no exterior.

— Por que você acha que ele tentaria fugir do país? Lisbeth refletiu.

-— Porque quando o Niedermann saiu para cavar um túmulo para mim, o Zalachenko comentou comigo que este caso vinha recebendo muita publicidade e que já estava tudo planejado para o Niedermann passar algum tempo no exterior.

Lisbeth Salander nunca trocara tantas palavras com um policial desde seus doze anos.

— Quer dizer que o Zalachenko... é seu pai.

Pelo menos isso eles conseguiram descobrir. Coisa do Maldito Super-Blomkvist, decerto.

— Preciso também informar que o seu pai registrou uma queixa contra você por tentativa de homicídio. No momento, o dossiê está com o procurador, que deverá se decidir a favor ou contra uma ação judicial. De qualquer forma, já está claro que você será indiciada por golpes e ferimentos agravados. Você cravou um machado na cabeça do Zalachenko.

Lisbeth não disse nada. Fez-se um longuíssimo silêncio. Então Sonja Modig se inclinou para a frente e falou baixinho.

— Eu só queria lhe dizer que na polícia não estamos dando muito crédito à versão do Zalachenko. Chame a sua advogada para uma conversa aprofundada, e a gente, enquanto isso, vai aguardar um pouco.

Ackerman concordou com a cabeça. Os policiais se levantaram.

— Obrigada por nos ajudar com o Niedermann.

Lisbeth espantou-se ao constatar que os policiais tinham sido muito corretos e quase gentis. Ficou um pouco surpresa com a fala de Sonja Modig. Ela deve ter segundas intenções, pensou.

7. SEGUNDA-FEIRA - 11 DE ABRIL – TERÇA-FEIRA 12 DE ABRIL

Às 17h45 da segunda-feira, Mikael Blomkvist fechou o seu iBook e levantou do seu lugar, à mesa da cozinha do seu apartamento da Bellmansgatan. Vestiu um paletó e foi a pé até a sede da Milton Security, perto de Slussen. Pegou o elevador para subir à recepção, no segundo andar, e foi imediatamente introduzido numa sala de reuniões.

— Olá, Dragan — disse ele estendendo a mão. — Obrigado por aceitar fazer esta reunião informal aqui.

Olhou em volta. Além de Dragan Armanskij e ele, estavam ali Annika Giannini, Holger Palmgren e Malou Eriksson. O ex-inspetor criminal Steve Bohman, da Milton, que desde o primeiro dia, por ordem de Armanskij, acompanhara a investigação sobre Salander, também estava presente.

Holger Palmgren estava saindo pela primeira vez depois de dois anos. Seu médico, o Dr. A. Sivarnandan, não ficara muito entusiasmado com a idéia de deixá-lo sair do centro de reabilitação de Ersta, mas Palmgren tinha insistido. Efetuara o trajeto num carro particular, acompanhado de sua enfermeira pessoal, Johanna Karolina Oskarsson, de trinta e nove anos, cujo salário era pago por um fundo criado por um benfeitor misterioso e que tinha por objetivo oferecer a Palmgren o melhor tratamento possível. Karolina Oskarsson aguardava numa área de descanso em frente à sala de reuniões. Tinha trazido um livro. Mikael fechou a porta.

— Para quem não conhece: essa é a Malu Eriksson, a nova redatora-chefe da Millennium. Pedi-lhe que viesse à reunião porque o que vamos conversar aqui vai afetar o trabalho dela.

— Certo — disse Armanskij. — Está todo mundo aqui. Estamos ouvindo.

Mikael se aproximou do quadro branco de Armanskij e pegou uma caneta. Seu olhar percorreu a sala.

— Acho que nunca vivi nada tão delirante — disse. — Quando tudo isso acabar, vou fundar uma associação beneficente. Vou chamá-la de Os Cavaleiros da Távola Biruta, e sua missão será organizar um jantar anual para falar mal da Lisbeth Salander. Vocês todos serão membros.

Fez uma pausa.

— A realidade se parece com o seguinte — disse ele, traçando umas colunas no quadro de Armanskij. Falou durante uma boa meia hora. A discussão que se seguiu durou quase três horas.

Uma vez formalmente encerrada a reunião, Evert Gullberg sentou-se frente a frente com Fredrick Clinton. Conversaram em voz baixa durante alguns minutos, até que Gullberg se levantou. Os dois velhos irmãos de armas apertaram-se as mãos.

Gullberg voltou de táxi para o Hotel Frey, juntou suas coisas, pagou a conta e pegou um trem que saía à tarde para Gõteborg. Escolheu a primeira classe e ficou com um vagão inteiro só para ele. Depois que o trem passou a ponte de Ársta, ele pegou uma esferográfica e um bloco de papel de cartas. Refletiu alguns instantes e em seguida se pôs a escrever. Preencheu cerca de metade da página, então se deteve e destacou-a do bloco.

Documentos falsificados não eram sua especialidade, ele não se considerava um entendido no assunto, mas naquele caso sua tarefa estava sendo facilitada pelo fato de que as cartas que estava escrevendo levavam a sua assinatura. A dificuldade é que nenhuma palavra poderia ser verdadeira.

Ao passar por Nykõping, ainda se desfez de uma boa quantidade de rascunhos, mas já começava a ter uma idéia de como deveria formular as cartas.

Ao chegar a Gõteborg, estava satisfeito com as doze cartas de que dispunha. Cuidou para que suas impressões digitais ficassem nítidas e claras no papel.

Na estação central de Gõteborg, conseguiu achar uma copiadora e fez urnas fotocópias. Depois comprou selos e envelopes e jogou a correspondência na caixa postal que seria esvaziada às nove da noite.

Gullberg pegou um táxi para ir ao City Hotel, na Lorensbergsgatan, onde Clinton lhe reservara um quarto. De modo que se hospedou no mesmo hotel em que Mikael Blomkvist pernoitara dias antes. Em seguida foi para o quarto e desabou sobre a cama. Estava extremamente cansado e se deu conta de que comera apenas duas fatias de pão o dia inteiro. Continuava sem fome. Despiu-se, deitou-se e adormeceu quase em seguida.

Lisbeth Salander acordou sobressaltada ao escutar a porta se abrindo. Soube de imediato que não se tratava da enfermeira da noite. Abriu os olhos em duas fendas estreitas e avistou, à porta, a silhueta com muletas. Zalachenko não se movia e contemplava-a da fresta de luz do corredor que passava pela abertura da porta.

Sem se mover, ela virou os olhos para o relógio e viu que eram 3h10.

Desviou o olhar alguns milímetros e avistou o copo d'água na beirada do criado-mudo. Mal podia alcançá-lo sem ter que movimentar o corpo.

Levaria uma fração de segundo para estender o braço e, num gesto decidido, quebrá-lo contra a beirada do criado-mudo. Levaria meio segundo para enfiar a borda cortante na garganta de Zalachenko se ele se debruçasse sobre ela. Avaliou outras possibilidades, mas percebeu que aquela era a única arma possível.