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Relaxou e esperou.

Zalachenko permaneceu uns dois minutos à porta, sem se mexer.

Depois, fechou-a devagar. Ela escutou o fraco arrastar das muletas enquanto ele se afastava tranqüilamente do quarto.

Passados cinco minutos, ela se ergueu apoiando-se nos cotovelos, pegou o copo e tomou um gole grande. Balançou as pernas por cima da beira da cama e tirou os eletrodos dos braços e do peito. Levantou-se e ficou em pé, cambaleando. Levou um bom minuto para reassumir o controle do corpo.

Foi mancando até a porta, apoiou-se na parede e recobrou o fôlego. Suava frio. Então, teve um acesso de fúria contida.

Fuck you, Zalachenko. Vamos acabar logo com isso!

Precisava de uma arma.

Nisso, ouviu passadas rápidas no corredor.

Droga. Os eletrodos.

— Caramba, o que você está fazendo aí em pé? — exclamou a enfermeira.

— Preciso... ir... ao banheiro — disse Lisbeth Salander, sem fôlego.

— Volte imediatamente para a cama.

Pegou na mão de Lisbeth e a ajudou a voltar para a cama. Em seguida foi buscar uma comadre.

— Se você precisar ir ao banheiro, chame a gente. Este botão aqui serve para isso — explicou a enfermeira.

Lisbeth não disse nada. Concentrou-se para conseguir produzir umas poucas gotas.

Na terça-feira, Mikael Blomkvist acordou às dez meia, tomou banho, ligou a cafeteira e em seguida se instalou diante do seu iBook. Depois da reunião na Milton Security na noite anterior, tinha vindo para casa e trabalhado até as cinco da manhã. Sentia que, finalmente, sua matéria começava a tomar forma. A biografia de Zalachenko continuava cheia de buracos — ele só dispunha, para se orientar, das informações que arrancara de Bjõrck e dos detalhes acrescentados por Holger Palmgren. A história de Lisbeth Salander estava praticamente concluída. Ele explicava com detalhes de que maneira ela se vira confrontada com um bando de frios combatentes da DGPN/Sapo e internada numa clínica de psiquiatria infantil para que não viesse à tona o segredo envolvendo Zalachenko.

Estava satisfeito com seu texto. Era uma matéria espetacular que iria estremecer as bancas de jornais e, além disso, criar problemas nas altíssimas esferas da burocracia do Estado.

Acendeu um cigarro enquanto refletia.

Restavam-lhe duas grandes lacunas para preencher. Uma era administrável. Precisava enfrentar Peter Teleborian, tarefa que ele encarava com prazer. Depois que acabasse com ele, o famoso psiquiatra infantil seria um dos homens mais odiados da Suécia.

O outro problema era um tanto mais complicado.

A maquinação contra Lisbeth Salander — ele apelidara esses conspira-dores de Clube Zalachenko — ocorrera dentro da Sapo. Ele conhecia um nome, Gunnar Bjõrck, mas Gunnar Bjòrck não podia, de modo algum, ser o único responsável. Havia necessariamente um grupo, uma espécie de equipe. Havia necessariamente chefes, responsáveis, e alguma verba. Só que ele não tinha a menor idéia de como identificar essas pessoas. Não sabia por onde começar. As informações que possuía sobre a organização da Sapo eram apenas rudimentares.

Na segunda-feira, começara sua pesquisa mandando Henry Cortez percorrer vários sebos de Sõdermalm com a instrução de comprar todos os livros que, de algum modo, mencionassem a Sapo. Cortez chegara à casa de Mikael Blomkvist por volta das quatro da tarde, levando seis livros. Mikael contemplou a pilha em cima da mesa.

Espionagem na Suécia [Spionage y Sverige] (Tempus, 1988); Eu fui chefe da Sapo de 1962 a 1970 [Sâpochef 1962-70]; Poderes secretos, de Jan Ottosson e Lars Magnusson [Hemliga makter: svensk hemlig militar under-ráttelsetjãnst frân unionstiden till det kalla kriget] (Tiden, 1991); Luta pelo controle da Sapo, de Erik Magnusson (Corona, 1989) [Maktkamp om SAPO]; Missão, de Carl Lidbom (w&w, 1990) [Ett Uppdrag], além do — um tanto surpreendente — An agent in place (Ballantine, 1966), sobre o caso Wen-nerstrõm. O caso dos anos 1960, portanto, e não o de Mikael Blomkvist, do início do século xxi.

Mikael passara boa parte da noite de terça-feira lendo, ou pelo menos folheando, os livros encontrados por Henry Cortez. Concluída a leitura, chegou a algumas conclusões. Em primeiro lugar, a maioria dos livros já escritos sobre a Sapo tinha aparentemente sido publicada no final dos anos 1980. Uma pesquisa na internet mostrou que não existia nenhuma literatura recente sobre o tema.

Em segundo lugar, tudo indicava que não existia um resumo compreensível das atividades da polícia secreta sueca ao longo dos anos. Isso se explicava pela quantidade de casos considerados segredo de segurança nacional, dificilmente abordáveis, portanto, mas tudo indicava não haver uma única instituição, um único pesquisador ou órgão de imprensa disposto a lançar um olhar crítico sobre a Sapo.

Também chamou sua atenção o fato de não existir, em nenhum dos livros reunidos por Henry Cortez, referência a outras obras. As notas de rodapé remetiam invariavelmente a artigos em jornais vespertinos ou a entrevistas pessoais feitas com algum aposentado da Sapo.

Poderes secretos era fascinante, mas tratava, sobretudo, da época anterior e contemporânea à Segunda Guerra Mundial. Mikael via nas memórias de P. G. Vinge, antes de mais nada, um livro de propaganda escrito em defesa própria por um diretor da Sapo duramente criticado e demitido do cargo. An agent in place continha, desde o primeiro capítulo, tantas esquisitices sobre a Suécia que ele simplesmente jogou o livro no lixo. Os únicos volumes com a clara intenção de descrever o trabalho da Sapo eram Luta pelo controle da Sapo e Espionagem na Suécia. Apresentavam datas, nomes e organogramas. Achou o livro de Erik Magnusson particularmente interessante. Embora não trouxesse resposta às suas perguntas imediatas, oferecia um bom panorama do que tinham sido a Sapo e de suas atividades nas décadas passadas.

Sua maior surpresa, contudo, foi Missão, de Carl Lidbom, que descrevia os problemas enfrentados pelo antigo embaixador em Paris quando, por ordem do governo, investigou sobre a Sapo na esteira do assassinato de Palme e do caso Ebbe Carlsson. Mikael nunca tinha lido Carl Lidbom e se surpreendeu com sua linguagem irônica permeada de observações mordazes. Mas o livro de Carl Lidbom também não ajudou Mikael a encontrar resposta às suas perguntas, embora ele começasse a ter uma vaga idéia da confusão que tinha pela frente.

Depois de refletir por algum tempo, pegou o celular e ligou para Henry Cortez.

— Oi, Henry. Obrigado pelo trabalho de ontem.

— Humm. O que você quer?

— Tenho mais uns servicinhos para você.

— Micke, eu tenho trabalho a fazer. Eu agora sou assistente de redação.

— Um belo avanço na carreira.

— Desembucha!

— Nesses anos todos, foram feitas algumas investigações públicas sobre a Sapo - Uma delas pelo Carl Lindbom. Deve haver um bocado de investigações desse tipo.

— Ahã.

— Me traga tudo o que tenha a ver com o Parlamento: orçamentos, inquéritos oficiais do Estado, discussões decorrentes de interpelações da Câmara, esse tipo de coisa; E compre os anais da Sapo, até o mais antigo que conseguir.

— Às suas ordens, capitão.

— Ótimo. E... Henry...

— Sim?

— ... eu só vou precisar disso amanhã.

Lisbeth Salander passou o dia pensando em Zalachenko. Sabia que ele estava dois quartos adiante do seu, que rondava pelos corredores à noite e viera até o seu quarto às 3hl0.

Ela o seguira até Gosseberga com o propósito de matá-lo. Fracassara, Zalachenko ainda estava vivo e se achava a menos de dez metros de distância. Ela estava encrencada. Era difícil definir até que ponto, mas imaginava que teria de fugir e desaparecer discretamente no exterior se não quisesse se arriscar a ser trancafiada outra vez com os loucos, tendo Peter Teleborian como guardião.