O problema, claro, é que ela não tinha forças sequer para se sentar na cama. Percebia alguns sinais de melhora. A dor de cabeça persistia, mas vinha por ondas em vez de ser constante. A dor no ombro estava superficial, só explodindo quando ela tentava se mexer.
Escutou passos no corredor e viu uma enfermeira abrir a porta e introduzir uma mulher de calças pretas, camisa branca e casaco escuro. Uma mulher bonita, magra, de cabelos castanhos bem curtos e que emanava uma calma autoconfiança. Carregava uma pasta preta. Lisbeth imediatamente reconheceu os olhos de Mikael Blomkvist.
— Bom dia, Lisbeth. Meu nome é Annika Giannini — disse ela. — Posso entrar?
Lisbeth contemplou-a sem nenhuma expressão. De repente, não estava com a mínima vontade de conhecer a irmã de Mikael Blomkvist e se arrependeu de ter aceitado a proposta de tê-la como advogada.
Annika Giannini entrou, fechou a porta atrás de si e puxou uma cadeira. Ficou sentada em silêncio alguns instantes, observando sua cliente.
Lisbeth Salander não parecia nada bem. Sua cabeça não passava de um pacote de bandagens. Enormes hematomas vermelhos circundavam seus olhos injetados de sangue.
— Antes de a gente começar a conversa, preciso saber se você realmente me quer como advogada. Em geral, eu só atuo em casos civis, representando vítimas de estupro e maus-tratos. Não sou advogada criminal. Em compensação, estou à par dos mínimos detalhes do seu caso e com muita vontade de representar você, se concordar. Devo dizer também que o Mikael Blomkvist é meu irmão — isso eu acho que você já sabe — e que ele e o Dragan Armanskij estão pagando meus honorários.
Ela esperou um instante, mas como não obteve nenhuma reação por parte de sua cliente, prosseguiu.
— Se me aceitar como advogada, vou trabalhar para você. Quero dizer, não estou trabalhando para o meu irmão nem para o Armanskij. Além disso, para tudo que estiver relacionado com o direito penal, vou contar com o auxílio do seu antigo tutor, Holger Palmgren. Está aí um homem de fibra, que deixou seu leito no hospital para te ajudar.
— O Palmgren? — disse Lisbeth Salander.
— É.
— Você esteve com ele?
— Estive. Ele vai ser meu conselheiro.
— Como é que ele está?
— Está furioso, mas não me pareceu particularmente preocupado com você.
Lisbeth Salander esboçou um sorrisinho de esguelha. O primeiro desde que ela chegara ao Hospital Sahlgrenska.
— Como você está se sentindo? — perguntou Annika Giannini.
— Um lixo — disse Lisbeth Salander.
— Ahã. Você quer que eu cuide da sua defesa? O Armanskij e o Mikael estão pagando os meus honorários e...
— Não.
— Como assim?
- Eu mesma vou pagar. Não vou aceitar um ore do Armanskij ou do Suer-Blomkvist. Mas só vou poder lhe pagar quando eu tiver acesso à internet.
— Entendo. Na hora certa a gente dá um jeito nisso e, seja como for, 0 Ministério Público é quem vai pagar a maior parte do meu salário. Então você aceita que eu faça a sua defesa?
Lisbeth Salander assentiu brevemente com a cabeça.
— Ótimo. Para começar, vou lhe passar um recado do Mikael. Ele falou em código, mas disse que você entenderia.
— Ah, é?
— Ele mandou dizer que me contou quase tudo, tirando umas coisinhas. A primeira se refere aos seus talentos, que ele descobriu em Hedestad.
Mikael sabe que eu tenho memória fotográfica... e que sou uma hacker. Ele guardou segredo.
— Certo.
— A segunda é sobre o DVD. Não sei do que se trata, mas ele disse que você é quem deve decidir se quer falar sobre isso comigo ou não. Você entende o que isso quer dizer?
— Entendo.
— Bem...
Annika Giannini hesitou de repente.
— Estou meio irritada com o meu irmão. Mesmo tendo me contratado, ele só me conta o que convém a ele. Você também pretende me esconder alguma coisa?
Lisbeth refletiu.
— Não sei.
— A gente vai ter que conversar bastante. Estou sem tempo agora, tenho um encontro com a procuradora Agneta Jervas daqui a quarenta e cinco minutos. Eu só precisava confirmar que você me aceitava como advogada. Também preciso lhe passar uma instrução...
— Ah, é?
— É o seguinte: se eu não estiver presente, você não deve dizer uma palavra sequer à polícia. Mesmo que eles a provoquem e a acusem de tudo que é coisa. Pode me prometer isso?
— Não vai ser difícil — disse Lisbeth Salander.
Exausto pela tensão da segunda-feira, Evert Gullberg acordou às nove horas da terça, quase quatro horas depois de seu horário habitual. Foi até o banheiro, lavou-se e escovou os dentes. Contemplou demoradamente seu rosto no espelho antes de apagar a luz e ir se vestir. Escolheu a única camisa limpa que lhe sobrava na pasta e pôs uma gravata estampada marrom.
Desceu até a sala de café da manhã do hotel, tomou uma xícara de café preto e comeu uma fatia de pão de forma torrada com queijo e um pouco de geléia de laranja. Bebeu um copo grande de água mineral.
Em seguida, foi até o hall do hotel e ligou de uma cabine telefônica para o celular de Fredrik Clinton.
— Sou eu. Como está a situação?
— Bastante agitada.
— Fredrik, você vai conseguir dar conta disso tudo?
— Sim, como antigamente. Só é pena que o Hans von Rottinger não esteja vivo. Ele era melhor que eu para planejar as operações.
— Você e ele tinham o mesmo gabarito. Podiam ocupar o lugar um do outro a qualquer momento. Aliás, vocês fizeram isso mais de uma vez.
— Havia uma diferença pequena, mínima, entre nós. Ele sempre foi um tantinho melhor que eu.
— Em que pé vocês estão?
— O Sandberg é mais esperto do que parecia. Chamamos o Mártensson como reforço. É um garoto de recados, mas nos será útil. O Blomkvist já está sob escuta, celular e telefone fixo de casa. Hoje, durante o dia, vamos cuidar dos telefones da Giannini e da Millennium. Estamos estudando a planta dos escritórios e dos apartamentos. Vamos entrar assim que possível.
— Primeiro você tem que localizar todas as cópias...
— Isso já foi feito. Tivemos uma sorte incrível. A Annika Giannini ligou para o Blomkvist agora às dez da manhã para perguntar, justamente, quantas cópias estão circulando, e descobrimos, pela conversa, que o Mikael Blomkvist é quem está com o único exemplar. A Berger fez uma cópia do relatório, mas mandou para o Bublanski.
— Ótimo. Não temos um segundo a perder.
- Eu sei. Mas precisamos pegar tudo de uma vez. Se não juntarmos todas as cópias do relatório do Bjõrck ao mesmo tempo, não vamos conseguir.
— Eu sei.
— Complicou um pouco porque a Giannini foi até Gõteborg hoje de manhã. Despachei uma equipe de colaboradores externos atrás dela. A essa hora eles estão no avião.
— Ótimo.
Gullberg não lembrava de mais nada para dizer. Ficou um bom tempo calado.
— Obrigado, Fredrik — disse por fim.
— Eu é que agradeço. Essa história é mais divertida do que ficar esperando por um rim que nunca chega.
Despediram-se. Gullberg pagou a conta do hotel e saiu. A sorte estava lançada. Agora era só esperar que a coreografia desse certo.
Primeiro, foi a pé até o Park Avenue Hotel e perguntou se poderia usar o fax. Não queria fazer isso no mesmo hotel onde tinha se hospedado. Enviou as cartas que escrevera no trem no dia anterior. Em seguida, saiu na Avenyn e procurou um táxi. Parou em frente a uma lixeira e rasgou as cópias que fizera das cartas.
Annika Giannini conversou por quinze minutos com a procuradora Agneta Jervas. Queria saber que acusações, a procuradora pretendia fazer contra Lisbeth Salander, mas percebeu rapidamente que Jervas ainda não sabia bem o que ia acontecer.
— Por enquanto, vou me limitar a indiciá-la por golpes e ferimentos agravados, acompanhados de tentativa de homicídio. Refiro-me à machadada que Lisbeth Salander desfechou no pai. Suponho que a senhora vá alegar legítima defesa.