— Pode ser.
— Mas, para ser sincera, minha prioridade no momento é o Niedermann, o assassino do policial.
— Compreendo.
— Conversei com o procurador-geral da nação. No momento, estão tentando decidir se todas as acusações contra a sua cliente não deveriam ser centralizadas por um procurador de Estocolmo e vinculadas ao que aconteceu lá.
— Estou partindo do princípio de que o caso vai ser transferido para Estocolmo.
— Ótimo. Seja como for, preciso ter a oportunidade de ouvir a Lisbeth Salander. Quando pode ser?
— Tenho aqui uma declaração do médico dela, o doutor Anders Jonasson. Ele diz que durante alguns dias Lisbeth Salander ainda não terá condições de enfrentar um interrogatório. Além dos ferimentos no corpo, ela está sob o efeito de sedativos fortíssimos.
— Foi mais ou menos o que me disseram. Mas você há de compreender que é frustrante para mim. Repito, minha prioridade no momento é o Ronald Niedermann. Sua cliente diz que não sabe onde ele está.
— E é verdade. Ela não conhece o Niedermann. Só o que ela fez foi descobrir quem ele era e ir atrás dele.
— Muito bem — disse Agneta Jervas.
Evert Gullberg segurava um buquê de flores quando entrou no elevador do Hospital Sahlgrenska junto com uma mulher de cabelos curtos e casaco escuro. Segurou educadamente a porta e deixou que ela passasse à sua frente para se dirigir à recepção.
— Meu nome é Annika Giannini. Sou advogada e preciso falar de novo com a minha cliente, Lisbeth Salander.
Evert Gullberg virou a cabeça e olhou, surpreso, para a mulher que viera com ele no elevador. Desviou o olhar para a sua pasta, enquanto a enfermeira verificava a identidade de Giannini e consultava uma lista.
— Quarto número 12 — disse a enfermeira.
— Obrigada. Já estive aqui, sei onde é.
Pegou a pasta e desapareceu do campo visual de Gullberg.
— Posso ajudar? — perguntou a enfermeira.
— Sim, obrigado, eu queria deixar essas flores para Karl Axel Bodin.
— Ele não está autorizado a receber visitas.
— Eu sei, só queria deixar as flores.
— Posso cuidar disso.
Gullberg só trouxera o buquê como pretexto. Queria ter uma idéia da burocracia de entrada. Agradeceu e se dirigiu para a saída. No caminho, cassou em frente ao quarto de Zalachenko, o número 14 segundo Jonas Sandberg.
Esperou no patamar. Pela porta de vidro, viu a enfermeira pegar o buquê que ele acabara de trazer e entrar no quarto de Zalachenko. Assim que ela voltou para a sua mesa, Gullberg empurrou a porta, dirigiu-se rapidamente para o quarto número 14 e entrou.
— Olá, Zalachenko — disse.
Zalachenko fitou, espantado, aquele visitante inesperado.
— Achei que você já estivesse morto a esta altura — disse ele.
— Ainda não — disse Gullberg.
— O que você quer? — perguntou Zalachenko.
— O que você acha?
Gullberg puxou a cadeira dos visitantes e se sentou.
— Me ver morto, provavelmente.
— Sim, até que eu ia gostar. Como você conseguiu ser tão idiota? Nós lhe demos uma vida nova, e aqui está você de novo.
Se Zalachenko pudesse sorrir, sem dúvida o teria feito. Para ele, a Segurança sueca era composta de amadores, entre os quais Evert Gullberg e Sven Jansson, ou melhor, Gunnar Bjõrck. Para não falar naquele inepto do dr. Nils Bjurman.
— E mais uma vez a gente é que tem que apagar o seu incêndio.
A metáfora não foi muito do agrado de Zalachenko, que já tinha sido vítima de graves queimaduras,
— Pare de me dar sermão. Vocês têm que me tirar daqui.
— E sobre isso que quero falar com você.
Pôs a pasta no colo, pegou um novo bloco de anotações e abriu uma página em branco. Depois, observou Zalachenko.
— Uma coisa me intriga: você seria capaz de nos fritar depois de tudo que fizemos por você?
— O que você acha?
— Depende do tamanho da sua loucura.
— Não me chame de louco. Sou um sobrevivente. Faço o que tenho que fazer para sobreviver.
Gullberg balançou a cabeça.
— Não, Alexander, você faz o que faz porque é ruim e depravado. Você queria saber qual a posição da Seção. Pois estou aqui para te informar. Desta vez não vamos levantar um dedo para te ajudar.
Pela primeira vez, Zalachenko pareceu hesitar.
— Você não tem escolha — disse.
— Sempre se tem escolha — disse Gullberg.
— Eu vou...
— Você não vai fazer coisa nenhuma.
Gullberg respirou fundo, enfiou a mão no bolso externo da pasta marrom e pegou uma Smith & Wesson 9 milímetros com coronha banhada a ouro. A arma era um presente de vinte e cinco anos atrás do serviço de informações inglês — fruto de uma informação inestimável que ele extorquira de Zalachenko e transformara numa sólida moeda de troca: o nome de um estenógrafo do MI-5 inglês que, no bom e velho espírito de Philby, trabalhava para os russos.
Zalachenko pareceu surpreso. Deu uma risada.
— E o que você vai fazer com isso? Me matar? Vai passar o resto da sua miserável vida na cadeia.
— Acho que não — disse Gullberg.
De repente, Zalachenko já não sabia se Gullberg estava blefando ou não.
— Vai ser um escândalo e tanto.
— Também acho que não. Vai dar só algumas manchetes. Daqui a uma semana ninguém mais vai se lembrar do nome Zalachenko.
Os olhos de Zalachenko se estreitaram.
— Seu canalha — disse Gullberg, com uma voz tão fria que Zalachenko ficou gelado.
Ele apertou o gatilho e enfiou a bala no meio da testa de Zalachenko no exato momento em que este começava a puxar a prótese sobre a beira da cama. Zalachenko foi projetado para trás, sobre o travesseiro. Seu corpo se agitou em alguns movimentos espasmódicos, depois se aquietou. Gullberg viu os respingos formarem uma flor vermelha na parede atrás da cabeceira da cama. O tiro ecoava em seus ouvidos e ele esfregou maquinalmente o canal auditivo com o dedo indicador livre.
Em seguida levantou-se, acercou-se de Zalachenko, pressionou o cano da arma em sua têmpora e atirou mais duas vezes. Queria ter certeza de que o velho canalha estava realmente morto.
Lisbeth Salander ergueu-se de um salto quando o primeiro tiro foi disparado. Sentiu uma dor intensa no ombro. Quando os dois tiros seguintes ecoaram, tentou jogar as pernas sobre a beira da cama.
Annika Giannini estava conversando com Lisbeth havia poucos minutos quando ouviram os tiros. De início, ficou paralisada, tentando entender de onde vinha o disparo. A reação de Lisbeth Salander lhe mostrou que algo estava acontecendo.
— Não se mexa! — gritou. Pôs automaticamente a mão no peito de Lisbeth Salander, prendendo sua cliente na cama com tanta força que Lisbeth se sentiu sufocar.
Então Annika atravessou depressa o quarto e abriu a porta. Avistou duas enfermeiras correndo em direção a um quarto duas portas adiante. A primeira estacou de chofre ao entrar. Annika ouviu-a gritar: "Não faça isso" e dar um passo atrás, esbarrando na outra.
— Ele está armado. Corra.
Annika viu as duas enfermeiras abrirem a porta do quarto vizinho ao de Lisbeth e se refugiarem lá dentro.
No instante seguinte, viu o homem magro de cabelos grisalhos e paletó pied-de-poule aparecer no corredor. Segurava uma pistola na mão. Annika reconheceu o homem que subira com ela no elevador poucos minutos antes.
Então seus olhares se cruzaram. Ele pareceu embaraçado. Em seguida, viu que ele virava a arma em sua direção e dava um passo à frente. Ela levou a cabeça para trás, bateu a porta e olhou em volta, desesperada. Bem à seu lado havia uma mesa alta de enfermagem. Puxou-a num gesto brusco para junto da porta e prendeu-a debaixo da maçaneta.
Escutou um movimento, virou a cabeça e viu que Lisbeth Salander tentava sair da cama novamente. Alcançou sua cliente em poucas passadas e pegou-a no colo. Arrancou os eletrodos e o gotejador para levá-la até o banheiro, onde a acomodou sobre a tampa do vaso sanitário. Virou-se e fechou a porta a chave. Em seguida, pegou o celular no bolso do casaco e ligou para o 112.