Evert Gullberg se aproximou do quarto de Lisbeth Salander e tentou mover a maçaneta da porta. Estava bloqueada com alguma coisa. Não se mexeu um milímetro sequer.
Por um instante, ficou indeciso diante da porta. Sabia que Annika Giannini estava no quarto e se perguntou se uma cópia do relatório de Bjõrck não estaria em sua bolsa. Não podia entrar no quarto e não tinha forças suficientes para arrombar a porta.
Mas isso não fazia parte do plano. O encarregado de Giannini e da ameaça que ela podia representar era o Clinton. A parte dele limitava-se a Zalachenko.
Gullberg olhou em volta no corredor e percebeu que estava sendo observado por cerca de vinte enfermeiras, pacientes e visitantes que esticavam a cabeça pela abertura das portas. Ergueu a pistola e deu um tiro num painel afixado no fundo do corredor. Sua platéia desapareceu como num passe de mágica.
Lançou um último olhar para a porta fechada, voltou resolutamente para o quarto de Zalachenko e fechou a porta. Sentou-se na poltrona dos visitantes e contemplou o dissidente russo que durante tantos anos fora parte integrante de sua vida.
Permaneceu imóvel durante quase dez minutos, até que ouviu a agitação no corredor e percebeu que a polícia estava chegando. Não pensou em nada de especial.
Então ergueu a pistola uma última vez, apontou-a para a própria têmpora e apertou o gatilho.
Os acontecimentos que se seguiram demonstraram a imprudência de tentar se suicidar no Hospital Sahlgrenska. Evert Gullberg foi levado com urgência ao serviço de traumatologia do hospital, sendo recebido pelo Dr. Anders Jonasson, que imediatamente deu início a uma série de medidas destinadas a manter suas funções vitais.
Pela segunda vez em menos de uma semana, Jonasson realizou uma cirurgia de emergência para extrair uma bala dos tecidos cerebrais humanos.
Após cinco horas de cirurgia, o estado de Gullberg permanecia crítico. Mas ele estava vivo.
Os ferimentos de Evert Gullberg, porém, eram bem mais graves que os de Lisbeth Salander. Durante vários dias ele oscilou entre a vida e a morte.
Mikael Blomkvist estava no Kaffebar, na Hornsgatan, quando escutou no rádio a notícia de que um homem de cerca de sessenta anos, ainda não identificado e que estava sendo acusado de tentar matar Lisbeth Salander, havia sido morto com um tiro no Hospital Sahlgrenska em Gõteborg. Ele largou a xícara, apanhou a sacola do computador e correu para a redação na Gõtgatan. Atravessou a Mariatorget e estava entrando na Sankt Paulsgatan quando seu celular tocou. Atendeu sem parar de caminhar.
— Blomkvist.
— Oi, é a Malu.
— Acabo de ouvir o noticiário. Já se sabe quem atirou?
— Ainda não. O Henry Cortez está indo atrás.
— Eu estou indo para aí. Chego em cinco minutos.
Na porta da Millennium, Mikael cruzou com Henry Cortez, que ia saindo.
— O Ekstròm vai dar uma entrevista coletiva às três da tarde — disse Henry. — Estou indo para Kungsholmen.
— E o que já se sabe? — gritou Mikael às suas costas.
— Malu — disse Henry, e desapareceu.
Mikael dirigiu-se à sala de Erika Berger... opa, de Malu Eriksson. Ela estava ao telefone, tomando notas febrilmente num post-it amarelo. Fez com a mão um sinal para que ele saísse. Mikael foi até a copa e encheu de café com leite duas canecas, uma com o logotipo da Juventude Cristã-Democrata e outra com o do Círculo da Juventude Social-Democrata. Quando voltou à sala de Malu, ela estava encerrando a ligação. Ele lhe ofereceu a caneca do cjs.
— Bem — disse Malu. — O Zalachenko foi morto hoje às 13h15. Ela olhou para Mikael.
— Acabo de falar com uma enfermeira do Sahlgrenska. Diz ela que o assassino é um homem de certa idade, em torno dos setenta anos, que foi levar flores para o Zalachenko minutos antes do assassinato. Deu vários tiros à queima-roupa na cabeça do Zalachenko e depois apontou a arma para si mesmo. O Zalachenko está morto. O assassino sobreviveu, está sendo operado.
Mikael respirou aliviado. Desde que ouvira a notícia no Kaffebar, estava com um aperto no coração e a sensação, bem próxima do pânico, de que Lisbeth Salander é que tivesse disparado a arma. O que iria realmente complicar seu plano.
— Já sabem o nome do assassino? — ele perguntou.
Malu balançava a cabeça quando o telefone voltou a tocar. Ela atendeu e, pela conversa, Mikael percebeu que era um freelancer enviado por Malu até o Sahlgrenska. Ele fez um gesto com a mão e foi para a sua sala.
Tinha a impressão de que era a primeira vez, em semanas, que ia para a redação da Millennium. Decididamente, empurrou de lado uma pilha de correspondência ainda fechada. Ligou para a irmã.
— Giannini.
— Oi. E o Mikael. Você soube do que aconteceu no Sahlgrenska?
— É, pode-se dizer que sim.
— Aonde você está?
— No Sahlgrenska. O canalha apontou a arma para mim.
Mikael permaneceu calado por vários segundos até entender o que sua irmã estava dizendo.
— Puta merda... você estava aí?
— Estava. Foi a pior experiência que já tive na vida.
— Você está ferida?
— Não. Mas ele tentou entrar no quarto da Lisbeth. Eu bloqueei a porta e me tranquei com ela no banheiro.
Mikael, de repente, sentiu seu mundo balançar. Sua irmã por pouco não...
— Como está a Lisbeth? — ele perguntou.
— Está tudo bem. Quero dizer, tudo bem quanto a essa tragédia de hoje.
Ele respirou um pouco melhor.
— Annika, você sabe alguma coisa sobre o assassino?
— Nadica de nada. É um homem de idade, bem-vestido. Achei seu ar um pouco perturbado. Nunca o tinha visto, mas ele estava comigo no elevador minutos antes do assassinato.
— E o Zalachenko está mesmo morto?
— Está. Eu escutei três tiros e, pelo que ouvi por aqui, atiraram nele três vezes. Foi um caos absoluto, os policiais correndo para lá e para cá, e um setor inteiro de pessoas gravemente feridas, que não podem ser removidas, teve de ser evacuado. Quando a polícia chegou, alguém até tentou interrogar a Salander sem entender até que ponto ela está mal. Fui obrigada a falar grosso.
O inspetor Marcus Ackerman avistou Annika Giannini no quarto de Lisbeth Salander pela abertura da porta. A advogada estava com o celular junto ao ouvido e ele esperou que ela terminasse a ligação.
Duas horas depois do assassinato, um caos mais ou menos organizado ainda reinava no corredor. O quarto de Zalachenko estava interditado. Alguns médicos haviam tentado intervir logo após os tiros, mas desistiram em seguida. Zalachenko não precisava mais de ajuda. Seu corpo fora levado ao necrotério e o exame da cena do crime estava em andamento.
O celular de Ackerman tocou. Era Frank Malmberg, da equipe de investigação.
— Temos uma identificação segura do assassino — disse Malmberg. — Seu nome é Evert Gullberg, tem setenta e oito anos. Meio velho para um assassino!
— E quem é o puto desse Evert Gullberg?
— Aposentado. Mora em Laholm. Parece que é advogado empresarial. Recebi uma ligação da DGPN/Sapo dizendo que recentemente eles abriram um inquérito preliminar sobre ele.
— Quando e por quê?
— Quando eu não sei. Por quê... bem, porque ele tinha o péssimo hábito de mandar cartas ameaçadoras e sem pé nem cabeça para figuras públicas.
— Para quem, por exemplo?
— Para o ministro da Justiça.
Marcus Ackermann suspirou. Quer dizer, um louco. Um justiceiro.
— Hoje de manhã a Sapo recebeu ligações de vários jornais para os quais o Gullberg tinha escrito cartas. O Ministério da Justiça também telefonou, depois que o tal Gullberg ameaçou expressamente o Karl Axel Bodin de morte.
— Quero uma cópia dessas cartas.