— Da Sapo?
— Claro, porra. Vá até Estocolmo buscá-las pessoalmente, se preciso. Quero as cartas na minha mesa quando eu voltar para a chefatura de polícia. Ou seja, daqui a uma hora mais ou menos.
Ele refletiu um instante e fez mais uma pergunta.
— Foi a Sapo que ligou para você?
— Foi o que eu disse.
— Quero dizer, foram eles que ligaram para você, e não o contrário?
— Isso mesmo.
— Certo — disse Marcus Ackerman, e desligou o celular.
Perguntou-se o que dera na telha da Sapo para, de repente, ter a iniciativa de contatar a polícia comum. Em geral, era praticamente impossível conseguir que ela desse o menor sinal de vida.
Com um gesto brusco, Wadensjõõ abriu a porta do quarto que Fredrik Clinton usava para repousar na Seção. Clinton se ergueu com cautela na cama.
— Eu gostaria de saber que baderna é essa — berrou Wadensjõõ. — O Gullberg matou o Zalachenko e depois deu um tiro na cabeça.
— Eu sei — disse Clinton.
— Você sabe? — exclamou Wadensjõõ.
Ele estava escarlate e parecia prestes a ter um derrame cerebral.
— Já pensou, o idiota deu um tiro em si próprio. Tentou se suicidar. Ele por acaso pirou?
— Quer dizer que ele ainda está vivo?
— Por enquanto, sim, mas está com lesões enormes no cérebro. Clinton suspirou.
— Que pena — disse, a voz repleta de tristeza.
— Pena?! — gritou Wadensjõõ. — Ora essa, o Gullberg está é completamente maluco. Você não percebe que...
Clinton interrompeu-o.
— O Gullberg está com câncer. No estômago, no cólon e na bexiga. Faz meses que ele está morrendo e, na melhor das hipóteses, só teria mais dois meses de vida.
- Câncer?
- Faz seis meses que ele carregava essa arma com ele, firmemente disposto a usá-la quando a dor se tornasse insuportável e antes que ele próprio se transformasse num pacote humilhado em alguma UTI. Com isso, ele pôde prestar um último serviço à Seção. Foi uma saída triunfal.
Wadensjõò parecia atônito.
__Você sabia que ele pretendia matar o Zalachenko.
— É evidente. A missão dele era dar um jeito para o Zalachenko nunca mais ter a oportunidade de falar. E você sabe muito bem que ele não se deixava ameaçar, muito menos convencer.
— Mas você não percebe o escândalo que isso vai provocar? Você está tão maluco quanto o Gullberg?
Clinton levantou-se com dificuldade. Fitou Wadensjõò olho no olho e lhe passou uma pilha de faxes.
— A decisão depende do setor de intervenções. Eu lamento pelo meu amigo, mas é bem provável que eu o siga muito em breve. Quanto a esta história de escândalo... Um ex-perito em assuntos fiscais escreveu cartas claramente paranóicas, fruto de uma mente perturbada, e mandou para os jornais, a polícia e o Ministério da Justiça. Aqui tem uma. O Gullberg acusa o Zalachenko de tudo que é coisa, desde o assassinato do Palme até uma tentativa de envenenar a população sueca com cloro. As cartas foram manifestamente escritas por um doente mental, em certos trechos a letra está ilegível, com maiúsculas, sublinhados e pontos de exclamação. Gosto do jeito como ele escreve na margem.
Wadensjõò leu as cartas, enquanto seu espanto crescia. Passou a mão pela testa. Clinton olhou para ele.
— O que quer que aconteça, a morte de Zalachenko não vai ter nada a ver com a Seção. Quem atirou foi um aposentado desnorteado e demente.
Ele fez uma pausa.
— O mais importante, a partir de agora, é você se manter na linha. Não fique se agitando dentro da canoa, que ela pode virar!
Cravou o olhar em Wadensjõò. De súbito, o olhar daquele homem exibiu uma dureza de aço.
— Você precisa entender que a Seção é figura de proa no conjunto da Defesa sueca. Somos a última linha de defesa. Nossa missão é zelar pela segurança do país. O resto não tem a menor importância.
Wadensjõõ mirou Clinton fixamente, com um olhar de dúvida.
— Nós somos aqueles que não existem. Somos aqueles a quem ninguém agradece. Somos aqueles que precisam tomar as decisões que ninguém mais consegue tomar... muito menos os políticos.
Havia desprezo em sua voz quando pronunciou a última palavra.
— Faça o que eu estou dizendo, e a Seção talvez sobreviva. Mas para que isso aconteça vamos precisar ter muita determinação e não usar meias-medidas.
Wadensjõõ sentiu-se invadido pelo pânico.
Henry Cortez anotou febrilmente tudo o que era dito no tablado durante a entrevista coletiva da chefatura de polícia em Kungsholmen. O procurador Ekstrõm foi quem abriu a coletiva. Explicou que, naquela manhã, eles haviam decidido entregar a um procurador da jurisdição de Gõteborg a instrução do assassinato de um policial em Gosseberga, pelo qual Ronald Niedermann era procurado, mas que qualquer outra investigação referente a Niedermann seria dirigida por ele próprio. Niedermann era, portanto, suspeito dos assassinatos de Dag Svensson e Mia Bergman. O dr. Bjurman não foi mencionado. Ekstrõm também iria investigar Lisbeth Salander e entrar com uma ação na Justiça cobrindo uma extensa lista de infrações.
Ele explicou que decidira tornar pública essa informação após os acontecimentos de Gõteborg naquele dia, já que o pai de Lisbeth Salander, Karl Axel Bodin, havia sido morto a tiros. O primeiro motivo daquela entrevista coletiva é que ele queria desmentir algumas informações já divulgadas pela imprensa, sobre as quais já recebera várias ligações.
— Com base nas informações de que dispomos no momento, posso dizer que a filha de Karl Axel Bodin, que se encontra detida por tentativa de homicídio contra o seu pai, não tem nada a ver com os acontecimentos desta manhã.
— E quem é o assassino? — gritou um jornalista do Dagens Eko.
— Foi identificado o homem que, às 13hl5 de hoje, fez os disparos que mataram Karl Axel Bodin e depois tentou se suicidar. E um aposentado de setenta e oito anos, que fazia algum tempo vinha se tratando de uma doença fatal e dos problemas psíquicos decorrentes dessa doença.
- Existe alguma ligação com Lisbeth Salander?
- Não. Podemos refutar essa hipótese com toda a segurança. Essas duas pessoas nunca se viram e não se conhecem. O homem de setenta e oito anos é uma figura trágica. Ele agiu sozinho, levado por suas próprias fantasias, claramente paranóicas. Não faz muito tempo, a Sapo iniciou uma investigação sobre ele por causa de uma quantidade de cartas confusas que ele escreveu para políticos de destaque e para a imprensa. Ainda hoje de manhã, cartas desse homem chegaram aos jornais e a autoridades, contendo ameaças de morte contra Karl Axel Bodin.
— Por que a polícia não colocou Bodin sob proteção?
— As cartas foram enviadas ontem à noite e, pelo que se sabe, chegaram justamente no instante em que ele cometia o assassinato. Não houve nenhuma margem de ação para nós.
— Qual o nome desse homem?
— Não podemos divulgar o nome dele antes que a família tenha sido informada.
— Sabe-se alguma coisa do passado dele?
— Pelo que entendi até agora, ele era auditor e especialista em assuntos fiscais. Estava aposentado havia quinze anos. As investigações continuam, mas, como mostram as cartas, essa tragédia talvez pudesse ter sido evitada se a sociedade fosse mais vigilante.
— Ele ameaçou outras pessoas?
— Segundo me informaram, ameaçou, mas não tenho mais detalhes.
— O que isso significa para o processo de Lisbeth Salander?
— Por enquanto, nada. Dispomos do depoimento que o próprio Karl Axel Bodin prestou aos policiais que o interrogaram e temos provas técnicas consideráveis contra ela.
— E quanto à informação de que Bodin teria tentado matar a filha?
— Isso está sendo investigado, mas há fortes indícios de que é verdade. Tudo parece indicar que estamos diante de sérios antagonismos de uma família desfeita de modo trágico.
Henry Cortez parecia pensativo. Cocou a orelha. Observou que seus alegas tomavam notas tão febrilmente quanto ele.