Gunnar Bjõrck sentiu o pânico invadi-lo ao escutar a notícia dos tiros no Sahlgrenska. Estava com dores terríveis nas costas.
Primeiro, permaneceu indeciso por mais de uma hora. Depois, pegou o telefone e tentou ligar para seu antigo protetor, Evert Gullberg, em Laholm. Ninguém atendeu.
Assistiu ao noticiário e ouviu o resumo do que havia sido dito na entrevista coletiva da polícia. Zalachenko morto por um justiceiro.
Caramba. Setenta e oito anos.
Tentou ligar mais uma vez para Evert Gullberg, sem sucesso.
Por fim, o pânico e a angústia prevaleceram. Ele não podia ficar na casa que tinham lhe emprestado em Smâdalarõ, pois ali se sentia cercado e exposto. Precisava de tempo para pensar. Enfiou roupa, analgésicos e objetos de higiene pessoal numa sacola. Preferiu não usar o telefone e foi mancando até uma cabine, em frente à mercearia, a fim de ligar para Landsort e fazer uma reserva no velho farol transformado em pousada. Landsort ficava no fim do mundo, e pouca gente iria procurá-lo lá. Fez uma reserva para duas semanas.
Consultou o relógio. Precisava correr se quisesse pegar a última balsa e voltar para casa tão depressa quanto suas costas doloridas permitiam. Passou pela cozinha para conferir se a cafeteira elétrica estava desligada, e foi até o hall de entrada apanhar a sacola. Deu uma última olhada na sala e se deteve, atônito.
De início, não entendeu o que via.
O lustre fora misteriosamente retirado e colocado sobre a mesa de centro. Em seu lugar, havia uma corda presa no gancho, acima de um banquinho que costumava ficar na cozinha.
Bjõrck olhou para a corda sem entender.
Então escutou um movimento atrás de si e sentiu as pernas fraquejarem.
Virou-se lentamente.
Eram dois homens de cerca de trinta anos. Observou que tinham um tipo mediterrâneo. Não teve tempo de reagir quando o agarraram delicadamente, cada um por um braço, ergueram-no e o puxaram para trás em direção ao banquinho. Quando ele tentou resistir, a dor transpassou-o como uma facada nas costas. Estava quase paralisado quando sentiu que o colocavam sobre o banco.
Tonas Sandberg estava acompanhado de um homem de cerca de cinqüenta anos, apelidado de Falun, que quando jovem fora assaltante profissional e mais tarde se tornara chaveiro. Hans von Rottinger, da Seção, recrutara Falun em 1986 para uma operação que consistia em arrombar a casa do líder de uma organização anarquista. Depois disso, Falun tinha sido regularmente recrutado até meados dos anos 1990, quando esse tipo de ação perdera o fôlego. Cedo, pela manhã, Fredrik Clinton reativara o relacionamento contatando Falun para uma missão. Falun ia ganhar dez mil coroas livres de impostos para trabalhar cerca de dez minutos. Em troca, comprometera-se a não roubar nada no apartamento visado; a Seção, afinal, não tinha uma atuação criminosa.
Falun não sabia ao certo o que Clinton representava, mas supunha que tinha alguma relação com o Exército. Ele lera Jan Guillou. Não fazia perguntas. Em compensação, estava feliz por voltar à ativa após tantos anos de silêncio por parte do sócio.
Sua função era abrir portas. Era especialista em arrombamentos e utilizava uma picareta elétrica. Contudo, precisou de cinco minutos para forçar as fechaduras do apartamento de Mikael Blomkvist. Depois, Falun esperou no patamar enquanto Jonas Sandberg passava pela porta.
— Entrei — disse Sandberg ao microfone do seu headset.
— Ótimo — disse Fredrik Clinton no seu receptor. — Fique calmo e aja com prudência. Descreva-me o que está vendo.
— Estou no hall de entrada, há um armário e uma prateleira para chapéus à direita e um banheiro à esquerda. O resto do apartamento é uma sala grande, de uns cinqüenta metros quadrados. Tem uma pequena cozinha americana à direita.
— Por acaso tem uma mesa de trabalho ou...
— Tenho a impressão de que ele trabalha na mesa da cozinha, ou então no sofá... espere.
Clinton esperou.
— É. Tem uma pasta na mesa da cozinha com o relatório do Bjõrck. Parece ser o original.
— Ótimo. Há mais alguma coisa interessante em cima da mesa?
— Livros. As memórias de I. G. Vinge. Luta pelo controle da Sapo, de Krik Magnusson. Uns seis livros desse tipo.
— Computador?
— Não.
— Armário com chave?
— Não... não estou vendo.
- Certo. Não tenha pressa. Examine cada metro quadrado do apartamento. O Mártensson está me informando que o Blomkvist continua na vedação. Você está usando luvas?
— É claro.
Marcus Ackerman esperou que Annika Giannini terminasse a ligação para entrar no quarto de Bishelh Salander. Estendeu a mão para Annika e se apresentou. Depois cumprimentou Bishelh e perguntou-lhe como estava se sentindo. Bishelh Salander não disse nada. Ele se virou para Annika (íiannini.
— Eu queria fazer umas perguntas.
— Tudo bem.
— Poderia me contai o que aconteceu?
Annika Giannini contou o que ela linha vivenciado c sua atuação ale o momento em que se trancou com Lisbeth no banheiro. Ackerman pareceu pensativo. Olhou para Bishelh Salander e depois para a advogada.
— Então a senhora acha que ele vinha para este quarto.
— Eu ouvi, ele tentou abrir a porta.
- Tem certeza? A gente imagina um monte de coisa quando está com medo ou enlouquecido.
— Eu ouvi. Ele me viu. Apontou a arma paia num.
— Acha que ele também estava tentando matar a senhora?
— Não sei. Pus a cabeça para dentro e bloqueei a porta.
— Fez muito bem. E fez melhor ainda quando escondeu sua cliente no banheiro. Essas portas são tão finas que as balas provavelmente teriam atravessado a madeira caso ele atirasse. O que estou tentando entender é se ele quis de fato apontar a arma para a senhora ou se apenas reagiu porque a senhora estava olhando. Estava muito perto dele, no corredor.
— É verdade.
- Tive a impressão de que ele a conhecia, ou reconhecia, quem sabe?
- Na verdade, não.
— Você poderia conhecê-la dos jornais? A senhora foi mencionada em vários casos importantes.
— Pode ser. Não sei.
— E a senhora nunca o tinha visto antes?
— Vi no elevador, quando cheguei aqui.
— Ali, isso eu não sabia. Vocês conversaram?
— Não. Olhei para ele durante talvez meio segundo. Ele estava com um buquê de flores numa mão e uma pasta na outra.
— Vocês fizeram contato visual?
— Não. Ele estava olhando para a frente.
— Ele foi o primeiro a entrar no elevador, ou foi a senhora? Annika refletiu.
— Acho que entramos mais ou menos na mesma hora.
— Ele parecia perturbado ou...
— Não. Distava ali parado segurando as flores.
— O que aconteceu em seguida?
— Saí do elevador. Ele também saiu, e eu fui me encontrar com a minha cliente.
— Veio direto para o quarto?
— Sim... não. Ouça! Primeiro fui até a recepção me identificar. O procurador decretou proibição de visitas para a minha cliente.
— Onde estava o homem nessa hora?
Annika Giaimini hesitou.
— Não tenho certeza. Imagino que tenha vindo atrás de mim. Espere... Ele saiu do elevador primeiro, mas parou e segurou a porta para mim. Eu não posso jurar, mas acho que ele também foi até a recepção. Eu só fui mais rápida que ele.
Um assassino aposentado muito galante, pensou Ackerman.
— É verdade, ele foi ate a recepção — ele confirmou. — Falou com a enfermeira e entregou o buquê de flores para ela. Mas a senhora não viu isso?
— Não, acho que não.
Marcus Ackerman pensou uni pouco, mas não se lembrou de mais nada para perguntar. Uma sensação de frustração o incomodava. Já tivera essa sensação e aprendera a interpretá-la como um alerta de seu instinto.
O assassino fora identificado como Evert Gullberg, setenta e oito anos, ex-auditor, eventual consultor de empresas e especialista em assuntos fiscais. Um homem de idade avançada. Um homem que estava sofrendo um inquérito preliminar aberto recentemente pela Sapo, porque ele era um doido que mandava cartas com ameaças para celebridades.