Выбрать главу

Sabia, por sua experiência como policial, que existia um bocado de gente doida, gente obcecada que ficava assediando celebridades e ia em busca do amor fixando residência num bosque atrás das mansões delas. E, ao não ser correspondido, esse amor podia rapidamente se transformar num ódio cego. Existiam assediadores que saíam da Alemanha ou da Itália para declarar sua paixão à jovem cantora de um famoso grupo pop, e ficavam injuriados quando ela não permitia uma relação de intimidade. Existiam os justiceiros que ficavam ruminando ofensas reais ou imaginárias e podiam apresentar um comportamento bastante ameaçador. Existiam os psicopatas puros e os doidos obcecados por conspirações, capazes de detectar mensagens ocultas que escapavam ao resto do mundo.

Também não faltavam exemplos de malucos que faziam seus fantasmas entrar em ação. O assassinato de Anna Lindh não seria justamente o impulso de um doente desses? Talvez sim. Talvez não.

Mas o inspetor Marcus Ackerman não gostou nem um pouco que um ex-especialista em assuntos fiscais, ou outra profissão qualquer, psiquicamente perturbado, tivesse conseguido entrar no Hospital Sahlgrenska com um buquê de flores na mão e uma pistola na outra e executado uma pessoa que, naquele momento, era objeto de investigação policial — a sua investigação. Um homem que nos registros oficiais tinha o nome de Karl Axel Bodin, mas que, segundo Mikael Blomkvist, chamava-se Zalachenko e era um maldito agente russo dissidente, além de assassino.

Zalachenko, no melhor dos casos, era uma testemunha, e no pior, estava envolvido numa série de homicídios. Ackerman tivera a oportunidade de interrogar Zalachenko duas vezes e em momento algum acreditara em seus protestos de inocência.

Além disso, o assassino mostrara interesse por Lisbeth Salander ou, pelo menos, por sua advogada. Tinha tentado entrar em seu quarto.

Depois tentara se suicidar com um tiro na cabeça. Segundo os médicos, parecia estar tão mal que a tentativa provavelmente seria bem-sucedida, embora seu corpo ainda não tivesse entendido que chegara a hora de abandonar o jogo. Tudo levava a crer que Evert Gullberg nunca compareceria diante de um juiz.

Marcus Ackerman não estava gostando da situação. Nem um pouco. Mas nada provava que os disparos de Gullberg eram algo além do que pareciam. De qualquer modo, resolveu não descartar nada. Olhou para Annika Giannini.

— Decidi transferir Lisbeth Salander para outro quarto. Ainda tem um vago no pedacinho de corredor à direita da recepção que, do ponto de vista da segurança, é muito melhor que este. Fica visível da recepção e da sala das enfermeiras do dia e da noite. Toda visita está proibida, com exceção da senhora. Ninguém vai entrar no quarto dela sem autorização, a não ser um médico ou enfermeira conhecidos no Sahlgrenska. Vou mandar instalar uma vigilância vinte e quatro horas na frente do quarto.

— Acha que ela está ameaçada?

— Nada indica isso. Mas não quero correr nenhum risco.

Lisbeth Salander escutou atentamente a conversa entre sua advogada e seu adversário policial. Estava impressionada de ouvir Annika Giannini responder com tanta precisão e clareza, e com tantos detalhes. Estava ainda mais impressionada pela atuação lúcida da advogada num momento de estresse.

Afora isso, estava com uma tremenda dor de cabeça desde que Annika a puxara da cama e carregara para o banheiro. Por instinto, queria ter o mínimo possível a ver com a equipe do hospital. Não gostava de pedir ajuda e dar sinais de fragilidade. Mas a dor de cabeça era tão arrasadora que ela não conseguia concatenar as idéias. Estendeu a mão e apertou a campainha.

Annika Giannini planejara a viagem a Gòteborg como o prólogo de um trabalho de fôlego. Pensara em conhecer Lisbeth Salander, informar-se sobre seu real estado de saúde e traçar um primeiro esboço da estratégia que ela e Mikael Blomkvist tinham combinado com vistas ao processo. De início, imaginara voltar para Estocolmo naquela noite, mas os extraordinários acontecimentos do Sahlgrenska impediram que conversasse com Lisbeth Salander. O estado de sua cliente era bem pior do que ela tinha entendido quando os médicos o classificaram como estável. Lisbeth continuava atormentada por uma dor de cabeça terrível e estava com muita febre, motivo pelo qual uma médica chamada Helena Endrin prescrevia-lhe analgésicos fortes, antibióticos e repouso. Tão logo sua cliente foi transferida para o novo quarto e um policial foi designado para a sua vigilância, Annika foi expulsa de lá.

Ela resmungou e consultou o relógio, que indicava quatro e meia da tarde. Hesitou. Se fosse para Estocolmo, provavelmente teria de voltar a Gõteborg no dia seguinte. Podia passar a noite ali, mas também se arriscar a que no dia seguinte sua cliente não estivesse em condições de suportar uma visita. Não tinha reservado um quarto num hotel; afinal, ela era apenas uma advogada com orçamento reduzido que representava mulheres expostas à violência e sem recursos, portanto procurava não inchar suas despesas com faturas caras de hotel. Ligou primeiro para casa, depois para sua colega Lillian Josefsson, membro da Rede de Mulheres e uma velha amiga da universidade. Fazia dois anos que não se viam e conversaram um pouco antes de Annika contar por que estava ligando.

— Estou em Gótehorg — disse. — Eu tinha planejado voltar no final da tarde, mas aconteceram umas coisas e vou ser obrigada a passar a noite aqui. Achei que talvez você pudesse me convidar para ficar um pouco na sua casa.

— Ótimo. Adoro parasitas. Faz uma eternidade que a gente não se vê.

— Não vou incomodar?

— Não, claro que não. Eu me mudei. Estou morando perto da Linnegatan. Tenho um quarto de hóspedes. A gente podia dar uma volta pelos bares à noite.

— Se eu tiver energia. A que horas posso ir para aí? Combinaram que Annika apareceria por volta das seis da tarde. Annika pegou o ônibus para a Linnegatan e passou a hora seguinte num restaurante grego. Estava faminta, pediu um espetinho com salada. Refletiu demoradamente sobre os acontecimentos do dia. Estava meio trêmula, agora que o pico de adrenalina tinha baixado, mas contente consigo mesma. Agira sem hesitação diante do perigo, com calma e eficiência. Era bom ter essa segurança sobre suas próprias capacidades.

Por fim, pegou sua agenda Filofax dentro da pasta e deu uma folheada na parte das anotações. Leu concentradamente. O que seu irmão lhe explicara a deixava perplexa. Na hora, tinha parecido lógico, mas na verdade havia belas lacunas naquele plano. Contudo, ela não tinha intenção de recuar.

Às seis horas, pagou, foi a pé para o prédio de Lillian Josefsson, na Olivedalsgatan, e teclou o código de acesso que sua amiga lhe fornecera. Quando entrou no hall e começou a procurar o elevador com os olhos, o ataque caiu sobre ela feito um raio. Sem nenhum tipo de aviso, foi brutal e violentamente jogada contra a parede de tijolos do hall. Bateu a testa e sentiu uma dor lancinante.

No instante seguinte, ouviu passos que se afastavam rapidamente, e a porta se abrindo e fechando. Levantou-se, apalpou a testa e viu sangue em sua mão. Caramba! Confusa, olhou em volta e foi para a rua. Avistou as costas de um homem dobrando a esquina da Sveaplan. Ficou atordoada, sem se mover, durante um longo minuto.

Então percebeu que sua pasta não estava mais ali, que acabava de ser roubada. Demorou alguns segundos para que as conseqüências disso chegassem até seu cérebro. Não! O dossiê Zalachenko. Sentiu o choque se espalhando a partir do estômago e deu alguns passos hesitantes atrás do homem que fugia. Não ia adiantar. Ele já havia sumido.

Sentou-se devagar na beira da calçada.

Então, de um salto, se pôs de pé e vasculhou o bolso do casaco. A agenda. Graças a Deus. Ao sair do restaurante ela a tinha guardado no bolso em vez de na pasta. Continha, item por item, a primeira versão da sua estratégia no caso Lisbeth Salander.