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Lisbeth Salander mordeu o lábio inferior. O problema, evidentemente, era que Gottfried se afogara numa noite de bebedeira em 1965, enquanto o último crime ocorrera em Uppsala em fevereiro de 1966. Teria cometido um engano ao incluir a colegial de dezessete anos, Lena Andersson, na lista? Não. A assinatura não era exatamente a mesma, porém a paródia bíblica era idêntica. Havia com certeza uma ligação.

Nove da noite, anoitecia. O ar estava mais fresco e uma chuva miúda começou a cair. Mikael estava sentado na cozinha, tamborilando na mesa com os dedos, quando o Volvo de Martin Vanger atravessou a ponte e desapareceu em direção ao promontório. De certo modo, as coisas estavam caminhando rápido.

Mikael não sabia como agir. Todo o seu corpo ardia de vontade de fazer perguntas — de confrontar. Uma atitude certamente pouco razoável, se suspeitava que Martin Vanger era um louco que assassinara a irmã e uma jovem em Uppsala, além de haver tentado matar o próprio Mikael. Mas Martin Vanger funcionava também como um ímã. E ele não sabia que Mikael sabia. Mikael podia perfeitamente passar na casa dele com um pretexto... digamos, devolver a chave da cabana de Gottfried? Mikael trancou a porta e dirigiu-se ao promontório.

A casa de Harald Vanger estava, como de hábito, mergulhada na mais completa escuridão. Também não havia luzes na casa de Henrik, com exceção de um quarto que dava para o pátio. Anna fora deitar-se. A casa de Isabella, às escuras. Cecilia não estava em casa. Havia luzes no primeiro andar da casa de Alexander Vanger, mas elas estavam apagadas nas duas casas habitadas por pessoas que não pertenciam à família Vanger. Ele não avistou ninguém.

Hesitante, deteve-se diante da casa de Martin Vanger, pegou o celular e digitou o número de Lisbeth Salander. Continuava não atendendo. Desligou o celular para evitar que tocasse.

Luzes estavam acesas no andar de baixo. Mikael atravessou a relva e parou a alguns metros da janela da cozinha, porém não viu nenhum movimento. Contornou a casa detendo-se diante de cada janela, mas não via Martin Vanger. Contudo, percebeu que a porta lateral da garagem estava entreaberta. Não vá fazer uma besteira agora. Mas não resistiu à tentação de dar uma espiada rápida.

A primeira coisa que viu, numa bancada de marceneiro, foi uma caixa aberta com munição para rifle de caça. A seguir, viu dois galões de gasolina no chão, embaixo da bancada. Está preparando outra visita noturna, Martin?

— Entre, Mikael. Vi você na estrada.

O coração de Mikael parou. Ele virou lentamente a cabeça e viu Martin Vanger na penumbra de uma porta que levava ao interior da casa.

— Não conseguiu se conter, precisava vir até aqui, não é mesmo? A voz era calma, quase amistosa.

— Oi, Martin — respondeu Mikael.

— Entre — repetiu Martin. — Por aqui.

Deu um passo para o lado e estendeu a mão esquerda num gesto convidativo. Levantou a mão direita e Mikael viu um reflexo de metal fosco.

— Para a sua informação, é uma Glock. Não faça besteira. A essa distância eu não costumo errar o alvo.

Mikael se aproximou devagar. Quando estava bem perto de Martin Vanger, parou e o olhou nos olhos.

— Eu precisava vir. Tenho uma porção de perguntas a lhe fazer.

— Entendo. Pela porta, venha.

Mikael entrou lentamente na casa. A passagem conduzia ao vestíbulo e depois à cozinha, mas antes de chegar lá Martin o deteve pondo de leve a mão em seu ombro.

— Não, na cozinha não. Entre à direita. Abra a porta ao lado.

O porão. Mikael havia descido metade da escada quando Martin girou um interruptor e as luzes se acenderam. A direita ficava a caldeira. A sua frente, sentiu o cheiro da lavanderia. Martin Vanger o conduziu à esquerda, a um pequeno quarto com velhos móveis e pastas. Bem ao fundo havia outra porta. Uma porta blindada de aço com uma fechadura de segurança.

— Tome — disse Martin, jogando um molho de chaves para Mikael. — Abra.

Mikael abriu a porta.

— Há um interruptor à esquerda. Mikael acabava de abrir a porta do inferno.

Por volta das nove da noite, Lisbeth foi buscar um café e um sanduíche numa máquina automática que havia no corredor dos arquivos. Continuou a folhear velhos documentos, tentando encontrar algum sinal de Gottfried Vanger em Kalmar, em 1954. Não encontrou nada.

Pensou em ligar para Mikael, mas antes de ir embora decidiu dar uma olhada também nos boletins de diretoria; então seria o suficiente para essa noite.

A peça media cerca de cinco metros por dez. Mikael calculou que, geograficamente, ela ficava no lado norte da casa.

Martin Vanger montara com capricho sua câmara de tortura particular. A esquerda, correntes, argolas de metal no teto e no chão, uma mesa com correias de couro onde podia amarrar suas vítimas. Havia também um equipamento de vídeo. E um estúdio de gravação. No fundo da peça via-se uma jaula de aço onde seus hóspedes podiam ficar aprisionados por longos períodos. A direita da porta, uma cama e um aparelho de tevê. Numa prateleira, Mikael viu uma grande quantidade de videocassetes.

Assim que entraram, Martin Vanger apontou a pistola para Mikael e ordenou que se deitasse de bruços no chão. Mikael se recusou.

— Como quiser — disse Martin. — Nesse caso, vou dar um tiro no seu joelho.

Apontou a arma. Mikael capitulou, não tinha escolha.

Ele havia esperado que Martin se descuidasse por um décimo de segundo — sabia que numa luta corporal o venceria. Houvera uma pequena oportunidade no corredor, no momento em que Martin pôs a mão em seu ombro, mas ele hesitou. Depois Martin não voltou a se aproximar. Sem rótula, ele não teria a menor chance. Assim, estendeu-se no chão.

Martin aproximou-se por trás e mandou Mikael pôr as mãos nas costas. Imobilizou-as com algemas. Começou então a lhe dar pontapés na virilha e a lhe desferir socos violentos.

O que se passou a seguir foi como um pesadelo. Martin Vanger oscilava entre a racionalidade e a loucura. Em alguns momentos parecia calmo. No instante seguinte, começava a andar de um lado para o outro do porão como uma fera enjaulada, voltando a chutar Mikael. Tudo que ele conseguiu fazer foi tentar proteger a cabeça e receber os golpes em outras partes do corpo, que, depois de alguns minutos, apresentavam diversos ferimentos.

Durante a primeira meia hora, Martin não disse uma só palavra e permaneceu insensível a tudo o que Mikael dissesse. Depois pareceu se acalmar. Foi buscar uma corrente, passou-a em volta do pescoço de Mikael, fixou-a a uma argola no chão e depois fechou com um cadeado. Deixou Mikael sozinho por quinze minutos. Ao retornar, trazia uma garrafa plástica com água. Sentou-se numa cadeira e contemplou Mikael enquanto bebia.

— Posso beber um pouco de água? — perguntou Mikael.

Martin Vanger inclinou-se e pôs a garrafa na boca de Mikael. Ele bebeu sofregamente.

— Obrigado.

— Sempre bem-educado, Super-Blomkvist.

— Por que todos esses chutes? — perguntou Mikael.

— Porque me deixou muito zangado e merece ser punido. Por que simplesmente não voltou para a sua casa? Precisavam de você na Millennium. Falo sério, poderíamos ter feito dela uma grande revista. Poderíamos ter trabalhado juntos por muitos anos.

Mikael fez uma careta e procurou acomodar o corpo numa posição confortável. Estava sem defesa. Só lhe restava a voz.

— Imagino que esteja querendo dizer que a ocasião já passou — disse Mikael.

Martin Vanger riu.

— Sinto muito, Mikael. Sim, você entendeu bem: você não vai sair vivo daqui.

Mikael assentiu com a cabeça.

— Mas como fizeram para me desmascarar, você e aquela múmia anoréxica que se envolveu na história?

— Você mentiu sobre o que fez no dia em que Harriet desapareceu. Posso provar que estava em Hedestad no desfile da Festa das Crianças. Foi fotografado olhando para Harriet.