— Livre-se deste Lochart — dissera Seladi. — Por que levá-lo para um lugar seguro? Ele deveria ter-nos deixado em Isfahan, por que não deixá-lo aqui? Morto. Não podemos deixá-lo vivo, ele nos conhece e nos trairia.
— Não, meu tio Excelência — respondera Valik. — Ele nos é mais útil como presente para os kuwaitianos ou os iraquianos, eles podem prendê-lo ou extraditá-lo. Foi ele quem roubou um helicóptero iraniano e concordou em transportar-nos por dinheiro. Não foi?
— Sim. Mesmo assim, ele ainda pode dar os nossos nomes para os revolucionários.
— Nessa hora já estaremos em segurança com nossas famílias.
— Eu digo para acabar com ele... ele nos teria sacrificado. Acabe com ele e vamos para Bagdá, não para o Kuwait.
— Por favor, Excelência, reconsidere. Lochart é o piloto mais experiente..
Ali olhou para o relógio. Só faltavam trinta minutos para a partida. Viu Lochart olhar para a casa onde Valik e Seladi estavam. Eu me pergunto quem venceu, Valik ou Seladi? É uma prisão kuwaitiana ou iraquiana para este pobre imbecil bu uma bala na cabeça? Imagino se o enterrarão depois de matá-lo ou se apenas o deixarão para os abutres.
— O que foi? — perguntou Lochart.
— Nada. Nada, capitão, só estava pensando como tivemos sorte em escapar de Isfahan.
— Sim, e ainda acho que lhe devo a vida. — Lochart estava certo de que se Ali e o major não o tivessem libertado ele teria acabado diante de um tribunal do komiteh. E se ele fosse apanhado agora? A mesma coisa. Não se permitira pensar em Xarazade nem em Teerã e nem em um plano. Isso vem depois, tornou a dizer a si mesmo. Depois que você vir o que vai acontecer e onde você vai parar.
Para onde eles estão planejando ir? Para o Kuwait? Ou talvez saltar rapidamente sobre a fronteira até o Iraque? O Iraque geralmente é hostil com os iranianos, isso seria arriscado. O Kuwait é fácil de alcançar daqui e a maioria dos kuwaitianos é sunita e portanto anti-Khomeini. Mas para chegar lá, você tem que atravessar um bocado de espaço aéreo problemático com iranianos ou iraquianos nervosos, agitados e rápidos no gatilho. Nos próximos cem quilômetros deve haver umas vinte bases aéreas iranianas, prontas para o combate, com aviões preparados e dezenas de pilotos apavorados, loucos para provar sua lealdade ao novo regime.
E quanto à sua promessa a McIver de não levá-los na última parte da viagem?
Por causa de Isfahan, você agora está marcado. Não há chance dos revolucionários terem esquecido seu nome e seu registro. Viu alguém anotar seu nome? Não, acho que não. Mesmo assim, é melhor dar o fora enquanto pode, você está envolvido numa fuga, homens foram mortos em Isfahan. Para qualquer lado que se vire, você está marcado.
E quanto a Xarazade? Não posso deixá-la.
Talvez tenha que fazê-lo. Ela está a salvo em Teerã.
E se eles forem procurá-lo e Xarazade abrir a porta e eles quiserem levá-la em seu lugar?
— Gostaria de uma bebida gelada — disse, com a boca subitamente seca. — Poderia tomar uma Coca, ou algo assim?
— Vou ver. — Ambos viraram a cabeça quando os filhos de Valik vieram correndo pelo caminho que dava no lago, seguidos de perto por Annoush.
— Ah — ela lhes disse com seu sorriso alegre, mas com olheiras fundas em volta dos olhos. —, está um dia maravilhoso, não é? Estamos com muita sorte.
— Sim — responderam e ficaram imaginando como uma mulher como ela podia ter casado com um homem daqueles. Ela era uma mulher agradável de se olhar e uma mãe maravilhosa.
— Capitão Abbasi, onde está meu marido?
— Está na casa, Alteza, junto com os outros — disse Ali. — Posso acompanhá-la? Estava indo para lá.
— O senhor poderia procurá-lo, por favor, e pedir-lhe para vir falar comigo?
Ali não queria deixá-la sozinha com Lochart, pois ela estava presente quando Valik e Seladi contaram seu plano a ele, pedindo-lhe conselho quanto ao destino da viagem — embora não tivessem mencionado a eliminação de Lochart, isso fora dito mais tarde.
— Não gostaria de incomodar o general sozinho, Alteza, talvez pudéssemos ir juntos.
— Por favor, encontre-o para mim. — Ela era tão autoritária quanto o general, embora falasse educadamente e sem ofender.
Ali deu de ombros. Insha'Allah, pensou, e afastou-se. Quando estavam a sós, com as duas crianças correndo em volta do barracão, brincando de esconder, Annoush tocou gentilmente em Lochart.
— Ainda não lhe agradeci pelas nossas vidas, Tommy.
Lochart ficou perplexo. Era a primeira vez que ela o chamava pelo nome. Ele tinha sido sempre 'capitão Lochart' ou 'meu primo' ou 'Sua Excelência, o marido de Xarazade'.
— Fiquei feliz em poder ajudar.
— Sei que você e o velho Mac fizeram isso pelas crianças e por mim. Não fique tão surpreso, meu caro, eu conheço os pontos positivos do meu marido e... e as suas fraquezas. Qual é a mulher que não conhece? — Seus olhos encheram-se de lágrimas. — Sei o que isso significa para você. Você arriscou a vida, a de Xarazade, o seu futuro no Irã e talvez a sua companhia.
— Não a de Xarazade. Não, ela está perfeitamente segura. Seu pai, Excelência Bakravan, vai mantê-la em segurança até que ela possa sair. É claro que está segura. — Ele viu os olhos castanhos de Annoush e o que leu neles fez seu coração se contrair.
— Rezo por isso com toda a minha alma, Tommy, e peço a Deus que me conceda este desejo. — Ela afastou as lágrimas. — Nunca me senti tão triste em toda a minha vida. Nunca pensei que pudesse sentir tanta tristeza. Tristeza por estar fugindo, por aquele pobre soldado morrendo na neve, pela nossa família e pelos nossos amigos que têm que ficar, tristeza por ninguém estar mais seguro no Irã. Tenho tanto medo de que todo o nosso círculo vá ser perseguido pelos mulás, nós sempre fomos, como posso dizer? Modernos demais e... progressistas demais. Ninguém mais está seguro aqui. Nem mesmo o próprio Khomeini.
Lochart viu-se respondendo Insha'Allah, mas já não estava prestando atenção nela, subitamente apavorado com a idéia de nunca mais tornar a ver Xarazade, de nunca mais poder voltar ao Irã ou conseguir tirá-la de lá.
— Tudo vai voltar ao normal em breve, poderemos viajar e tudo o mais. É claro que vai. Em poucos meses, tem que ser. É claro que tudo vai voltar ao normal em breve.
— Espero que sim, Tommy, pois eu amo a sua Xarazade e odiaria não poder tornar a vê-la e nem ao pequenino.
— Hein? — Ele a olhou embasbacado.
— Oh, mas é claro que você ainda não sabe — disse ela, depois enxugou o resto das lágrimas. — Era muito cedo para você saber. Xarazade me disse que tinha certeza que estava carregando o seu primogênito.
— Mas... mas, bem ela... — Não pôde continuar, ao mesmo tempo horrorizado e extasiado. — Ela não pode estar!
— Oh, ela ainda não tinha certeza, Tommy, mas sentia que sim. Às vezes uma mulher sabe. A gente se sente tão diferente, tão diferente e tão bem, tão realizada — acrescentou, agora com uma voz plena de felicidade.
Lochart tentava fazer a cabeça trabalhar, completamente consciente de que seria impossível para ela compreender o turbilhão que criara dentro dele. Deus Todo-Poderoso, pensou, Xarazade?
— Ainda faltam alguns dias para ela ter certeza — dizia Annoush. — Acho que três ou quatro. Deixe-me pensar. Sim, incluindo hoje, terça-feira, mais
quatro dias para ter certeza. Seria no dia seguinte à visita ao pai dela — disse delicadamente. — Você deveria vê-lo neste dia santo, sexta-feira, dia 16, pelas suas contas, não é?
— Sim — disse Lochart. Como se eu pudesse esquecer. — A senhora sabia disso?
— É claro. — Annoush ficou espantada com a pergunta. — Um pedido tão extraordinário como este, e uma decisão tão importante teriam que ser conhecidos por todos nós. Oh, não seria maravilhoso se ela estivesse esperando bebê? Você não disse a Excelência Bakravan que queria filhos? Espero que ela tenha sido abençoada por Deus, pois isto certamente fará com que ela fique feliz durante o tempo que levarmos para tirá-la de lá. O Kuwait não é longe. Só lamento que ela não tenha vindo conosco. Isso teria tornado as coisas perfeitas.