Выбрать главу

— Sim — disse a ela — é claro que tudo isso é um engano.

— Ali Kia jurou sobre o Corão que o primeiro-ministro Bazargan ia parar com toda essa bobagem — disse sua esposa. — Ele jurou que iria se encontrar com ele na noite passada. As ordens provavelmente já chegaram a... já chegaram lá

Na noite anterior, ele dissera a Ali Kia que sem Paknouri não haveria nenhum empréstimo, que se ele próprio fosse perturbado, o bazar se rebelaria e todos os fundos para o governo, para Khomeini, para as mesquitas, e para Ali Kia pessoalmente seriam suspensos.

— Ali não vai falhar — disse com severidade. — Ele não ousaria. Eu sei demais a respeito de todos eles.

O carro parou do lado de fora do portão principal. Preguiçosamente, os Faixas Verdes olharam para ele. Jared Bakravan tomou coragem.

— Eu não vou me demorar.

— Que Deus o proteja. Nós vamos esperar por você aqui. Vamos esperar aqui. — Sua mulher beijou-o e os outros também, e houve mais lágrimas e depois ele se viu diante dos Faixas Verdes.

— Salaam — disse. — Eu... eu sou uma testemunha no tribunal do mulá Ali'allah Uwari.

O líder dos guardas apanhou o papel, olhou-o de cabeça para baixo e entregou-o a um dos outros que sabia ler.

— Ele é do bazar — disse o outro rapaz. — Jared Bakravan. O líder deu de ombros.

— Mostre-lhe o caminho.

O outro homem foi na frente, entrando pelo portão quebrado. Bakravan seguiu-o, e quando a barricada fechou-se atrás dele, grande parte da sua confiança desapareceu. Era sombrio e úmido naquela pequena área suja que ficava entre os muros e o edifício principal. O ar fedia. A leste, havia centenas de homens amontoados, sentados ou deitados, encolhidos por causa do frio. Muitos usavam uniformes — oficiais. A oeste, o espaço estava vazio. À frente, havia um portão alto de ferro que foi aberto para que ele entrasse. Na sala de espera havia dezenas de outros homens, homens cansados e assustados, sentados em fileiras de bancos, em pé ou simplesmente sentados no chão, alguns oficiais uniformizados, e ele notou até um coronel. Alguns dos outros ele reconheceu, importantes homens de negócios, favoritos da corte, administradores, assessores — mas ele não conhecia intimamente nenhum deles. Alguns o reconheceram. Houve um súbito silêncio.

— Depressa — disse o guarda, mal-humorado. Era um rapaz com o rosto marcado de varíola e ele fez um sinal para o funcionário exausto que estava sentado na escrivaninha. — Aqui está mais um para Sua Excelência, o mulá Uwari.

O funcionário recebeu o papel e dirigiu-se a Bakravan.

— Sente-se, será chamado quando precisarem de você.

— Salaam, Excelência — disse Bakravan, chocado com a grosseria do homem. — E quando será isso? Era para eu estar aqui logo depois da primeira...

— Quando Deus quiser. Será chamado quando precisarem de você — repetiu o homem, despachando-o.

— Mas eu sou Jared Bakravan do baz...

— Eu sei ler, aga! — disse o homem, com mais grosseria ainda. — Quando precisarem de você, eles o chamarão. O Irã é um Estado islâmico agora, com uma lei para todos, não uma lei para os ricos e outra para o povo.

Bakravan foi empurrado por outros que estavam sendo levados para junto do funcionário. Tonto de ódio, ele abriu caminho em direção a uma parede.

De um dos lados, um homem usava um balde como sanitário, que já estava cheio, com urina derramando no chão. Vários olhos observaram Bakravan. Alguns murmuraram: — Que a paz de Deus esteja com você. — A sala fedia terrivelmente. Seu coração estava acelerado. Alguém abriu um espaço para ele num banco e, agradecido, ele se sentou.

— Que as bênçãos de Deus caiam sobre vocês, Excelências.

— E sobre você também, aga. Você é acusado?

— Não, não. Eu fui chamado como testemunha — disse, chocado.

— Vossa Excelência é uma testemunha diante do mulá Uwari?

— Sim, sim. Sou, Excelência. Quem é ele?

— Um juiz, um juiz revolucionário — murmurou o homem. Ele tinha uns cinqüenta anos, era pequeno, seu rosto era mais vincado do que o de Bakravan e seu cabelo crescia em tufos. Ele se contorceu nervosamente. — Ninguém aqui parece saber o que está acontecendo nem por que foi chamado, nem quem é Uwari. Sabem apenas que ele foi indicado pelo aiatolá e julga em seu nome.

Bakravan olhou o homem nos olhos e viu o seu terror e se sentiu ainda mais nervoso.

— Vossa Excelência também é uma testemunha?

— Sim, sim, sou, embora por que me chamaram, a mim, que era apenas um gerente nos correios, eu não saiba.

— O correio é muito importante. Eles provavelmente precisam dos seus conselhos. O senhor acha que vamos esperar muito tempo?

— Insha'Allah. Eu fui convocado para ontem, depois da quarta oração, e estou esperando desde então. Eles me mantiveram aqui a noite inteira. Nós temos que esperar até sermos chamados. Aquele é o único banheiro — disse o homem, apontando para o balde. — Foi a pior noite que eu já passei. Terrível. Durante a noite, eles... houve um bocado de tiroteio; há boatos de que mais três generais e uma dúzia de oficiais da Savak foram executados.

— Cinqüenta ou sessenta — disse o homem que estava do outro lado, saindo do seu estupor. — O número deve estar mais próximo de sessenta. A prisão tem mais gente do que percevejos num colchão. Todas as celas estão lotadas. Há dois dias, os Faixas Verdes arrombaram os portões, dominaram os guardas e os puseram nos calabouços, soltando a maioria dos prisioneiros e começando a encher as celas com outros — ele baixou ainda mais a voz — todas as celas estão lotadas, muito mais do que no tempo do xá, que Deus o amaldiçoe por não... A cada hora que passa, os Faixas Verdes estão trazendo mais gente, fedayim, mujhadin, do Tudeh, misturados a nós, inocentes, os fiéis...

— Ele tornou a baixar a voz, com o branco dos olhos aparecendo —, e gente boa que nunca deveria ser tocada... quando a multidão invadiu a prisão, eles acharam instrumentos elétricos e chicotes e... e camas de tortura e... — O canto da sua boca se encheu de espuma. — ...dizem que os novos carcereiros os estão usando e... e que quando a pessoa entra aqui não sai mais. — Lágrimas começaram a formar-se nos seus pequenos olhos, encravados num rosto redondo.

— A comida é horrível, a prisão é horrível e... e eu tenho úlcera de estômago e aquele filho da mãe daquele funcionário não entende que eu tenho que comer uma comida especial...

Houve um tumulto do outro lado e a porta foi aberta com violência. Meia dúzia de Faixas Verdes entraram na sala e começaram a abrir caminho com seus rifles. Atrás deles, outros guardas cercavam um oficial da Força Aérea que caminhava orgulhosamente, com a cabeça erguida, com as mãos amarradas nas costas, o uniforme desgrenhado, com as dragonas arrancadas. Bakravan ficou perplexo. Era o coronel Peshadi, comandante da Base Aérea de Kowiss — outro primo seu.

Outros reconheceram o coronel, pois muito se tinha falado da vitoriosa expedição iraniana a Dhofar, no sul de Omã, da vitória sobre os marxistas do Iêmen do Sul, que tinham desfechado um ataque quase letal contra o Omã, e também da bravura pessoal de Peshadi liderando os tanques iranianos numa batalha-chave.

— Aquele não é o herói de Dhofar? — perguntou alguém, sem poder acreditar.

— Sim, é ele...

— Que Deus nos proteja! Se prenderam até a ele...

Impaciente, um dos guardas empurrou Peshadi por trás, tentando obrigá-lo a andar depressa. Imediatamente, o coronel voltou-se contra ele, embora embaraçado pelas algemas.

— Filho de um cão! — gritou, com a raiva explodindo — Eu estou andando o mais depressa que posso. Que o seu pai queime no inferno! — O Faixa Verde xingou-o de volta, depois enfiou a coronha do rifle no estômago do coronel. Este perdeu o equilíbrio e caiu, à sua mercê. Mas ainda assim ele xingou os seus captores. E os xingou enquanto estes o levantavam, dois de cada lado, e o arrastavam para fora, para o espaço a oeste entre os muros. E lá ele os xingou, a Khomeini, aos falsos mulás e depois gritou: