Yemeni saiu voando. Os Faixas Verdes riram e um deles disse:
— Quer que eu arrebente a cabeça dele para o senhor, aga?
— Não, não, obrigado. Ele não é mais importante do que uma mosca comendo bosta de camelo. — O major Qazani deu uma baforada no cigarro, envolvendo-se na fumaça e olhou Pensativamente para Rudi. As notícias de como este alemão salvara Zataki, o comandante revolucionário mais importante daquela região, tinham alcançado a base aérea.
Ele se levantou e foi até a janela. Lá fora, podia ver seu carro e a bandeira verde de Khomeini e os Faixas Verdes vagando por ali. Escória, pensou. Filhos da mãe, todos eles. Nós não nos livramos do controle e da influência dos americanos nem ajudamos a expulsar o xá para passar o controle das nossas vidas e dos nossos lindos aviões para uns mulás piolhentos, por mais corajosos que alguns possam ser.
— Espere aqui, Hushang. Vou deixar dois guardas com você — disse. — Espere aqui e faça a chamada junto com ele. Depois eu mando o carro de volta para apanhá-lo.
— Sim senhor.
O major olhou para Rudi, com um olhar severo. Em inglês, ele disse:
— Eu quero saber se o HBC é um helicóptero da S-G, onde está sediado, como veio parar nesta área e quem estava a bordo. — Deu as ordens necessárias e partiu numa nuvem de poeira.
Hushang mandou os guardas dizerem aos outros o que estava acontecendo. Agora os dois estavam sozinhos.
— Então — disse, e sorriu estendendo a mão. — Estou feliz em vê-lo, Rudi.
— Eu também. — Eles trocaram um caloroso aperto de mão. — Eu estava imaginando como você, ahn, como você estava passando.
— Você quer dizer se eu tinha sido liquidado? — E Hushang riu. — Oh, não acredite nessas histórias todas, Rudi. Não. Está tudo ótimo. Quanto eu deixei Kharg, passei algum tempo em Doshan Tappeh, depois vim para a base aérea de Abadan.
— E depois?
— E depois? — Hushang pensou por um momento. — E então, quando Sua... quando o xá deixou o Irã, o comandante da base nos reuniu, a todos, e disse que considerava cancelado o nosso voto de obediência. Todos nós, das Forças Armadas, juramos obediência ao xá pessoalmente, mas quando ele partiu, foi como se nossos votos tivessem sido renegados. O nosso comandante pediu-nos para escolher o que queríamos fazer, oficiais e soldados, ficar ou partir, mas nos disse: "Nesta base, a transferência de poder para o novo governo legal será feita com disciplina:" Ele nos deu 12 horas para decidir. — Hushang franziu as sobrancelhas. — Uns poucos partiram, na maioria oficiais mais graduados. O que você teria feito, Rudi?
— Teria ficado. É claro. Heimat ist immer Heimat.
— O quê?
— A sua pátria é sempre a sua pátria.
— Ah, sim. Sim, foi isso que eu pensei. — Uma sombra passou por Hushang. — Depois que todos tínhamos escolhido, nosso comandante chamou o aiatolá Ahwazi, o nosso aiatolá-chefe, e realizou formalmente a transferência de poder. Depois matou-se. Ele deixou um bilhete dizendo: "Durante toda a minha vida eu servi a Muhammad Reza Xá assim como meu pai serviu ao Reza Xá, seu pai. Eu não posso servir a mulás ou a políticos, nem viver com este fedor de traição que invade esta terra".
— Ele estava se referindo aos americanos? — perguntou Rudi, hesitante.
— O major acha que ele estava se referindo aos generais. Alguns de nós achamos que ele se referia... à traição do Islã.
— Por parte de Khomeini? — Rudi viu Hushang olhando para ele, com seus olhos castanhos sinceros, seu rosto bem talhado, e por um segundo Rudi teve a sensação desconfortável de que aquele não era mais o seu amigo, mas alguém que tinha o mesmo rosto. Alguém que podia estar pronto para armar-lhe uma armadilha. Que espécie de armadilha?
— Seria traição pensar assim. Não seria? — disse Hushang. Foi uma afirmação, não uma pergunta, e Rudi se pôs mais em guarda ainda. — Eu estou com medo pelo Irã, Rudi. Estamos muito expostos, somos muito valiosos para qualquer uma das superpotências, e somos muito odiados e invejados por tantos aqui em volta.
— Ah, mas suas forças militares são as mais numerosas e bem equipadas daqui. Vocês são a maior potência do golfo. — Ele foi até a pequena geladeira. — Que tal racharmos uma garrafa de cerveja bem gelada?
— Não, obrigado.
Normalmente, ele teria aceito com satisfação.
— Você está de dieta? — Rudi perguntou.
O outro sacudiu a cabeça e deu um sorriso estranho.
— Não. Eu parei. É o meu presente ao novo regime.
— Então vamos tomar chá, como nos velhos tempos — disse Rudi, sem hesitação e foi até a cozinha pôr a chaleira no fogo. Mas estava pensando: Hushang realmente mudou. Mas se você fosse ele teria mudado também, o mundo dele está de pernas para o ar, como a Alemanha Ocidental e a Alemanha Oriental, mas não tão ruim assim. — Como vai o Ali? — perguntou. Ali era o adorado irmão mais velho de Hushang, um piloto de helicóptero que Rudi não conhecia, mas de quem Hushang estava sempre
falando, rindo de suas lendárias aventuras e conquistas em Teerã, Paris e Roma nos velhos tempos. Os bons e velhos tempos, pensou enfaticamente.
— Ali, o Grande, também vai muito bem — disse Hushang, com um sorriso radiante. Pouco antes do xá partir, eles tinham discutido as suas opções secretamente e tinham resolvido que, acontecesse o que acontecese, eles ficariam: "Nós ainda somos a força de elite, nós ainda passamos as nossas licenças na Europa!" Hushang sorriu, tão orgulhoso dele, sem nenhuma inveja do seu sucesso, mas desejando que tivesse um décimo daquele sucesso. — Mas ele vai ter que ir mais devagar agora. Pelo menos no Irã.
A chaleira começou a apitar. Rudi preparou o chá.
— Você se importa que eu pergunte a respeito do HBC? — Ele olhou para a outra sala. Seu amigo o observava. — Tudo bem?
— O que você quer saber?
— O que foi que aconteceu? Depois de uma pausa, Hushang disse:
— Eu era o líder da esquadrilha. Fomos colocados em alerta e recebemos ordens de interceptar um helicóptero que fora localizado esgueirando-se pela área. Era um aparelho civil que estava voando baixo pelos vales perto de Dezful. Ele não respondeu às chamadas de rádio, nem em farsi nem em inglês. Nós esperamos, seguindo o seu rastro. Assim que ele se expôs, eu fiz um vôo rasante em cima dele, foi quando pensei ter reconhecido o emblema da S-G. Mas ele me ignorou completamente, simplesmente virou em direção à fronteira e saiu a toda velocidade. O meu segundo-piloto fez sinal para ele, mas ele fez outra manobra de fuga.
Os olhos de Hushang se estreitaram quando ele recordou a excitação que havia tomado conta dele, caçador e caça, ele que nunca tinha caçado antes, com os ouvidos cheios do grito doce dos seus jatos, de estática e de ordens: "Preparem os mísseis!" Com as mãos e os dedos obedecendo.
Apertando o gatilho, o foguete errando da primeira vez enquanto o helicóptero fazia uma pirueta, atirando-se para um lado e para o outro, ligeiro como uma libélula, com o seu segundo-piloto também atirando e errando por um triz — os mísseis não eram atraídos pelo calor. Tornando a errar. Agora ele já estava sobre a fronteira. Sobre a fronteira e a salvo, mas não a salvo de mim, da justiça, então continuando com o ataque, a impressão de rostos nas janelas, vendo-o dissolver-se numa bola de fogo e quando eu saí do mergulho violento para tornar a olhar ele tinha desaparecido. Só restava uma nuvem de fumaça. E o prazer.
— Eu o destruí — disse. — Eu o fiz explodir no céu.
Rudi virou o rosto para disfarçar o choque. Presumira que o HBC tivesse escapado — seja quem for que estivesse pilotando.
— Não houve nenhum... nenhum sobrevivente?
— Não, Rudi. Ele explodiu — disse Hushang, tentando manter a voz calma. E profissional. — Foi... Foi a primeira vez que eu matei... eu nunca pensei que seria tão difícil.