— Você está falando sério?
— O nosso conselho para evacuar todo o pessoal que não seja essencial ainda está valendo para assim que o aeroporto abrir, o que Deus sabe quando será, mas que está prometido para sábado. Nós conseguimos que a BA cooperasse com 747 fretados. Quanto ao ilustre Ali Kia, ele é um funcionário de importância secundária, bem secundária mesmo, sem nenhum poder e que joga em todos os times. Aliás, eu acabei de ouvir que o embaixador dos Estados Unidos em Kabul foi seqüestrado por mujhadins fundamentalistas xiitas, anticomunistas, que tentaram trocá-lo por outro mujhadin preso pelo governo pró-soviético. No tiroteio que se seguiu, ele foi morto. As coisas estão esquentando...
O telex deu sinal de vida, atraindo a atenção deles, mas a máquina não funcionou. Todos dois praguejaram.
— Assim que eu chegar em Al Shargaz, posso telefonar para o escritório e descobrir qual é o problema... — Gavallan olhou para a porta que se abria. Para surpresa deles, era Erikki. Ele e Azadeh deveriam encontrá-los no aeroporto. Erikki tinha no rosto o seu sorriso habitual, mas não havia nenhuma alegria nele.
— Olá, patrão; olá, Mac.
— Oi, Erikki. O que foi que houve? — McIver olhou-o atentamente.
— Uma ligeira mudança de planos. Nós, ahn, bem, Azadeh e eu vamos voltar a Tabriz primeiro.
Na noite anterior, Gavallan tinha sugerido que Erikki e Azadeh partissem imediatamente. "Nós encontraremos alguém para substituí-lo. Que tal virem comigo amanhã? Talvez nós consigamos outros documentos para Azadeh em Londres..."
— Por que a mudança, Erikki? — perguntou. — Azadeh se arrependeu de deixar o Irã sem documentos iranianos?
— Não. Há uma hora atrás nós recebemos uma mensagem. Eu recebi uma mensagem do pai dela. Aqui está. Leia você mesmo. — Erikki entregou a mensagem a Gavallan, que leu junto com McIver. O bilhete manuscrito dizia: "De Abdullah Khan para o capitão Yokkonen: Preciso que minha filha venha aqui imediatamente e peço que lhe dê permissão para isso". Estava assinado Abdullah Khan. A mensagem estava repetida em farsi do outro lado.
— Você tem certeza de que é a letra dele? — perguntou Gavallan.
— Azadeh tem certeza, e ela também conhecia o mensageiro. — Erikki acrescentou: — O mensageiro não nos contou mais nada, só que há muita luta por lá.
— Por terra está fora de questão. — McIver virou-se para Gavallan. — Talvez o nosso mulá, Tehrani, dê uma autorização a Erikki? De acordo com Nogger, ele estava um carneirinho depois do seu passeio da manhã. Nós podíamos equipar o 206 de Charlie com tanques de longa-distância, e Erikki podia pilotá-lo, talvez com Nogger ou um dos outros para trazê-lo imediatamente de volta?
— Erikki, você sabe o risco que está correndo? — perguntou Gavallan.
— Sim. — Erikki ainda não havia contado nada a respeito dos assassinatos.
— Você já pensou bem... em tudo? Rakoczy, a barreira da estrada, a própria Azadeh? Nós podíamos mandar Azadeh de volta sozinha e você podia seguir no 125 e nós a mandaríamos no vôo de sábado.
— Vamos, patrão, o senhor nunca faria isso e nem eu. Eu não poderia deixá-la.
— É claro, mas isso tinha que ser dito. Está bem, Erikki, você se encarrega dos tanques, nós vamos tentar conseguir a autorização. Eu sugiro que vocês voltem para Teerã o mais depressa possível e embarquem no 125 no sábado. Todos dois. Seria aconselhável você pedir uma transferência e passar uns tempos em outro lugar: Austrália, Cingapura, talvez, ou Aberdeen, mas lá podia ser frio demais para Azadeh. Você me avisa. — Gavallan estendeu-lhe a mão animadamente. — Feliz Tabriz, hein?
— Obrigado. — Erikki hesitou. — Alguma notícia de Tom Lochart?
— Não, ainda não. Ainda não consegui comunicar-me nem com Kowiss nem com Bandar Delam. Por quê? Xarazade está ficando ansiosa?
— Mais do que isso. O pai dela está na prisão de Evin e...
— Jesus Cristo. — McIver explodiu, e Gavallan ficou igualmente chocado, conhecendo os boatos acerca das prisões e dos pelotões de fuzilamento. — Por quê?
— Para ser interrogado por um komiteh, ninguém sabe por quê, nem por quanto tempo ele vai ficar detido.
— Bem, se for só para interrogatório... o que aconteceu, Erikki? — perguntou Gavallan, apreensivo.
— Xarazade chegou em casa há meia hora atrás banhada em lágrimas. Quando ela foi para a casa dos pais na noite passada, depois do jantar, estava havendo o diabo. Aparentemente, alguns Faixas Verdes foram ao bazar, agarraram Emir Paknouri... o senhor sabe, o ex-marido dela. — Acusaram-no de "crimes contra o Islã" e mandaram que Bakravan comparecesse à prisão logo depois do amanhecer para interrogatório. Por que motivo ninguém sabe. — Erikki tomou fôlego. — Eles foram com ele até a prisão hoje de manhã, ela, a mãe, as irmãs e o irmão. Chegaram lá logo depois do amanhecer e esperaram horas e ainda estariam esperando se não recebessem ordens para dar o fora, por volta das duas horas da tarde, dos Faixas Verdes que estavam de guarda lá. Houve um silêncio de perplexidade.
— Mac, tente falar com Kowiss. Faça-os entrarem em contato com Bandar Delam. Tom deve ser informado a respeito do pai de Xarazade. — Erikki notou o olhar que os dois homens trocaram. — O que está havendo com Tom?
— Ele está num vôo fretado para Bandar Delam.
— Sim, você já me disse isso. Mac me disse isso e Xarazade também. Tom disse a ela que voltaria dentro de poucos dias. — Erikki esperou. Gavallan apenas olhou para ele. — Bem, vocês devem ter boas razões.
— Acho que sim — disse Gavallan. Tanto ele quanto Mac estavam convencidos de que Tom Lochart não teria ido para o Kuwait por sua livre e espontânea vontade, qualquer que fosse o suborno que Valik oferecesse a ele. Ambos estavam com medo de que ele tivesse sido forçado a ir.
— Está bem, o senhor é o patrão. Bem, eu já vou. Sinto muito por trazer más notícias, mas achei melhor vocês saberem. — Erikki forçou um sorriso. — Xarazade não estava bem. Encontro vocês em Al Shargaz.
— Quanto mais cedo melhor, Erikki. McIver disse:
— Se você cruzar com Gen, não fale nada sobre o pai de Xarazade, sim?
— É claro.
Depois de Erikki ter saído, McIver disse:
— Bakravan é um lojista importante demais para ser sumariamente preso.
— Concordo. — Depois de uma pausa, Gavallan disse: — Espero que Erikki não esteja caindo numa armadilha. Aquela tal mensagem cheira muito mal, muito mal...
O barulho do telex fez os dois pularem. Eles leram o telex, linha por linha, à medida que ele foi sendo passado. Gavallan começou a praguejar e continuou praguejando até a máquina parar.
— Que Deus amaldiçoe a Imperial Helicópteros! — Ele arrancou a folha do telex, e Mac mandou de volta o sinal de chamada e 'Alerta Um'. Gavallan tornou a ler a mensagem.
Era novamente de Liz Chen: "Caro Patrão, nós tentamos nos comunicar com você de hora em hora deste que Johnny nos disse que você tinha ficado em Teerã. Sinto trazer más notícias, mas de manhã cedo na segunda-feira, a Imperial Air e a Imperial Helicópteros anunciaram em conjunto 'novos acordos financeiros para revitalizar a sua posição competitiva no mar do Norte'. A IH foi autorizada a cancelar uma dívida de 17,1 milhões de libras esterlinas de dinheiro dos contribuintes e capitalizaram mais 48 milhões do seu débito de 68 milhões emitindo papel para a principal companhia ao invés do débito. Nós acabamos de saber secretamente que 18 dos nossos 19 contratos no mar do Norte que estavam para ser renovados por diferentes companhias foram entregues à IH abaixo do preço real. Thurston Dell, da ExTex precisa falar urgentemente com você. Os nossos operadores na Nigéria precisam urgentemente de três, repito, três 212 — você pode providenciá-los entre os que estão sobrando no Irã? Suponho que você irá para Al Shargaz ou Dubai com John Hogg hoje. Por favor, avise! Mac, se ele já tiver partido, por favor avise. Lembranças a Genny."