"Capitão Pettikin, por favor peça desculpas ao sr. McIver pelo meu atraso, mas eu fiquei preso por causa de uma nevasca numa aldeia ao sul de Ker-manshah. Assim que puder irei para casa." — Pettikin suspirou, olhou para Genny e depois outra vez para McIver. — Foi isto. O que você acha?
— Quanto a Tom? Não sei. — McIver caminhou pesadamente até a janela e Pettikin e Genny viram o peso que ele estava carregando. Havia neve no parapeito e o vento tinha aumentado um pouco. Tiros esporádicos soavam à distância, de rifle e de pistola, mas nenhum deles notou.
— Genny?
— Eu... isso não faz sentido, nenhum sentido, Charlie, isso sobre Tommy não faz nenhum sentido.
Ela despejou a água fervendo no bule de chá, já tendo aquecido as xícaras antes, satisfeita por ter algo para fazer com as mãos, sentindo-se desamparada e com vontade de chorar, com vontade de gritar por causa de toda aquela injustiça, sabendo que Duncan e Tom estavam numa enrascada, o seu Duncan tinha assinado o plano de vôo; sabendo que ela não podia falar nada a respeito de Annoush e das crianças e nem de Valik, se eles tivessem a bordo, e eles deviam estar a bordo, mas se Tom não estava pilotando, quem estaria?
— O seqüestro... bem, obviamente o nome de Tommy está na autorização e o de Duncan também. As autoridades de Teerã ainda têm a autorização. A autorização tem o nome de Duncan então um seqüestro não é... não faz muito sentido.
— Eu estou vendo isso agora, mas na hora a história me pareceu boa. — Pettikin estava se sentindo péssimo. Ele apanhou o livro de autorizações. — Mac, e se nós perdêssemos isto, nos livrássemos disto?
— O controle de Teerã está com o original, Charlie. Tom reabasteceu o aparelho, deve haver um registro.
— Em tempos normais, sem dúvida. Agora? Com toda essa confusão?
— Talvez.
— Quem sabe a gente consegue recuperar o original?
— Vamos, pelo amor de Deus, não há nenhuma chance.
Genny começou a servir o chá. O silêncio foi ficando mais pesado. Cheio de aflição, Pettikin disse:
— Eu ainda não vejo como, se Tom saiu de Doshan Tappeh e então... a menos que ele tenha sido seqüestrado no meio do caminho, ou quando estava reabastecendo o aparelho. — Ele passou nervosamente as mãos pelo cabelo. — Tem que ser um seqüestro. Onde foi que ele reabasteceu? Em Kowiss? Talvez eles pudessem ajudar.
McIver não respondeu, apenas ficou olhando para a noite lá fora, Pettikin esperou, depois folheou o livro de vôo, encontrou a cópia certa e olhou para as costas do papel.
— Isfahan? — disse, surpreso. — Por que Isfahan? Mais uma vez, McIver não respondeu.
Genny pôs leite condensado no chá e deu uma xícara a Pettikin.
— Eu acho que você se saiu muito bem, Charlie — ela disse, sem saber o que mais poderia dizer. Então levou a outra xícara para McIver.
— Obrigado, Gen.
Ela viu as lágrimas e suas próprias lágrimas começaram a rolar. Ele pôs o braço em volta dela, pensando em Annoush e na festa de Natal que ele e Genny tinham dado para todos os filhos dos seus amigos, há tão pouco tempo atrás — a pequena Setarem e Jalal, as estrelas das brincadeiras, crianças tão maravilhosas, agora transformadas em cinzas ou em carne para os abutres.
— Foi bom saber que Tommy está bem, querido — ela disse através das lágrimas, esquecendo-se de Pettikin. Embaraçado, Pettikin saiu e fechou a porta e nenhum dos dois notou que ele tinha saído. — É bom saber do Tommy — ela tornou a dizer. — Esta foi uma coisa boa.
— Sim, Gen, esta foi uma coisa boa.
— O que podemos fazer?
— Esperar. Vamos esperar para ver. Vamos esperar que eles não tenham seguido... mas eu sinto que eles estavam a bordo. — Ternamente, ele enxugou suas lágrimas. — Mas no domingo, Gen, quando o 125 partir você vai junto — disse gentilmente. — Eu prometo que é só até nós resolvermos isso. Mas desta vez você precisa ir.
Ela concordou. Ele tomou o chá. Estava muito bom. Ele sorriu.
— Você faz um chá muito bom, Gen — disse, mas isso não afastou nem o medo nem a tristeza que ela estava sentindo.
E nem o seu ódio por toda aquela matança e aquele desperdício e a tragédia e a usurpação do meio de vida deles, ou pelo mal que estava fazendo ao seu marido. A preocupação o está matando. Matando, ela pensou com mais raiva ainda. Então, de repente, ela teve a resposta. Olhou em volta para certificar-se de que Pettikin não estava lá.
— Duncan — ela sussurrou — se você não quer que esses filhos da mãe roubem o nosso futuro, por que não partimos e levamos tudo conosco?
— Hein?
— Aparelhos, peças e pessoal.
— Não podemos fazer isso, Gen. Eu já lhe disse isso cinqüenta vezes.
— Oh, sim, nós podemos. Se quisermos e se tivermos um plano. — Ela disse isto com tanta confiança que o contagiou. — Tem o Andy para ajudar. Andy pode fazer o plano, nós não podemos. Você pode executá-lo, ele não. Eles não nos querem aqui, então que seja, nós partiremos. Mas com os nossos helicópteros, as nossas peças e o nosso respeito próprio. Teremos que manter tudo em sigilo absoluto, mas podemos fazê-lo. Nós podemos. Eu sei que sim.
LIVRO DOIS
SÁBADO
17 de fevereiro
EM KOWISS: 6:38H. O mulá Hussein estava sentado de pernas cruzadas no fino colchão, checando o funcionamento do AK47. Com um movimento experiente, ele colocou no lugar o novo pente de balas.
— Ótimo — disse.
— Vai haver mais luta hoje? — Sua mulher perguntou. Ela estava do outro lado da sala, em pé, ao lado de um fogão a lenha, esquentando uma panela de água para o primeiro café do dia. O seu chador preto farfalhava quando ela se movia, disfarçando o fato dela estar outra vez grávida.
— Seja como Deus quiser.
Ela repetiu as palavras dele, tentando disfarçar o medo, temerosa do que aconteceria com eles quando seu marido obtivesse o martírio que buscava com tanto ardor, desejando do fundo do coração gritar do alto dos minaretes que era demais suportar que Deus exigisse um tal sacrifício dela e dos seus filhos. Sete anos de casamento e três filhos vivos e quatro mortos e a extrema pobreza de todos aqueles anos — um contraste tão grande com sua vida anterior, com sua própria família, que possuía um açougue no bazar, sempre com o suficiente para comer, e alegria e andar sem o chador, piqueniques e até cinema — tudo isso enrugara seu rosto que um dia fora atraente. Seja como Deus quiser, mas não é justo, não é justo! Nós vamos morrer de fome. Quem vai querer sustentar a família de um mulá morto?
O filho mais velho deles, Ali, um garotinho de seis anos, estava agachado ao lado da porta da cabana de um só cômodo que ficava ao lado da mesquita, seguindo atentamente todos os movimentos do seu pai. Seus dois irmãozinhos, de dois e três anos, dormiam num colchão de palha sobre o chão de terra, enrolados num velho casaco do exército. Eles estavam encolhidos como dois gatinhos. No cômodo, havia uma mesa tosca de madeira e dois bancos, algumas panelas, o colchão grande e um pequeno sobre velhos tapetes. Para iluminar, havia uma lamparina a óleo. A vala lá fora era para se fazer as necessidades e para se lavar. Não havia nenhum enfeite nas paredes de barro caiadas de branco. Uma torneira que às vezes funcionava, moscas e insetos e, num nicho, virado para Meca, no lugar de honra, estava o velho e gasto livro do Corão.