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Tinha acabado de amanhecer, o dia estava frio e nublado, e Hussein já chamara os fiéis para a oração da manhã na mesquita e limpara e lubrificara cuidadosamente a arma, tirando a pólvora da coronha e tornado a carregar o pente. Agora está ótimo, pensou satisfeito, pronto para fazer de novo o trabalho de Deus e há muita utilidade para uma arma como esta. O AK47 é muito melhor do que o M14, mais simples, mais forte, e tão preciso quanto o outro à queima-roupa. Estúpidos americanos, estúpidos por fabricarem uma arma de infantaria que era complexa e precisa a uma distância de mil metros, quando grande parte da luta era feita a menos de trezentos e você podia arrastar o AK47 na lama o dia inteiro e ele continuava fazendo o que tinha que fazer: matar. Morte a todos os inimigos de Deus!

Já tinha havido alguns conflitos entre os Faixas Verdes e os marxistas-islâmicos e outros esquerdistas em Kowiss, e outros conflitos em Gach Saran, uma cidade a noroeste onde havia uma refinaria de petróleo. Na véspera, depois de escurecer, ele tinha conduzido os Faixas Verdes a um dos esconderijos secretos do Tudeh. A reunião tinha sido denunciada por um dos membros, em troca de piedade. Mas não haveria nenhuma. A batalha foi súbita, rápida e sangrenta. Onze homens foram mortos, ele esperava que alguns fossem líderes. Até agora o Tudeh ainda não tinha se mostrado publicamente, mas tinha marcado uma demonstração para o dia seguinte à tarde, em apoio à demonstração Tudeh de Teerã, embora Khomeini tivesse se mostrado francamente contrário a isto. O confronto já estava planejado. Os dois lados sabiam disso. Muitos irão morrer, pensou implacavelmente. Morte a todos os inimigos do Islã!

— Aqui — disse ela, entregando-lhe o café preto quente e doce, o único luxo que ele se permitia, exceto nas sextas-feiras, Dias Santos, e em outros dias especiais e durante todo o mês sagrado de Ramadan, quando ele desistia de bom grado do café.

— Obrigado, Fátima — disse educadamente. Quando ele foi nomeado mulá, seu pai e sua mãe tinham-na encontrado para ele e seu mentor, aiatolá Isfahani, tinha dito a ele para se casar, então ele obedecera.

Ele tomou o café, com grande prazer, e devolveu-lhe a pequena xícara. O casamento não o desviara do seu caminho, embora de vez em quando ele sentisse prazer em dormir encostado nela, suas nádegas grandes e quentes no frio do inverno, às vezes fazendo-a virar, penetrando-a, e depois dormindo de novo, mas nunca realmente em paz. Eu só estarei em paz no paraíso, só então, ele pensou, com a excitação aumentando, tão perto agora. Agradeço a Deus pelo fato de ter recebido o nome do imã Hussein, Senhor dos Mártires, segundo filho do imã Ali, ele, o do Grande Martírio, há treze séculos atrás na Batalha de Karbala.

Nós nunca o esqueceremos, ele pensou, seu êxtase aumentando, revivendo a dor de Ashura, o décimo dia de Muharram — há poucas semanas atrás — o aniversário daquele martírio, o dia de luto mais sagrado dos xiitas. Suas costas ainda traziam os vergões. Naquele dia ele tinha estado de novo em Qom, como no ano anterior e no outro, tomando parte nas procissões de Ashura, as procissões purificadoras, com dezenas de milhares de outros iranianos — chicoteando a si mesmos para lembrarem-se do divino martírio, açoitando-se com chicotes e correntes, castigando-se com ferros.

Ele levara muitas semanas para se recuperar, para ser capaz de ficar em pé sem sentir dor. Seja como Deus quiser, disse a si mesmo orgulhosamente. A dor não é nada, este mundo não é nada, eu enfrentei Peshadi na base aérea, dominei-o e o levei preso para Isfahan como me ordenaram. E agora, hoje, eu vou à base para investigar os estrangeiros e dobrá-los e a este sunita, Zataki, que pensa que é Gengis Khan, e esta tarde eu vou tornar a conduzir os fiéis contra os ateus do Tudeh, fazendo o trabalho de Deus em obediência ao imã que só obedece a Deus. Rezo para que hoje eu seja admitido no paraíso, "para recostar-me em almofadas enfeitadas com fio de ouro, e o fruto dos dois jardins estará ao meu alcance", as palavras tão familiares do Corão ecoaram em sua cabeça.

— Não temos comida — disse sua mulher, interrompendo-lhe os pensamentos.

— Haverá comida na mesquita hoje — ele disse, e seu filho Ali ficou mais atento, momentaneamente distraído de cocar as feridas de mosca e as mordidas de outros insetos. — De agora em diante você e as crianças não vão mais passar fome. Nós daremos refeições diárias de horisht e arroz para os necessitados como fizemos sempre através da história. — Ele sorriu para Ali, estendeu a mão e despenteou-lhe os cabelos. — Deus sabe que nós estamos entre os necessitados.

Desde a volta de Khomeini, as mesquitas tinham começado outra vez este antigo papel de fornecer refeições diárias de uma comida simples, mas nutritiva, comida que era doada como parte do Zakat — o imposto voluntário a que todos os muçulmanos estavam sujeitos — ou comprada com dinheiro do Zakat que agora era de novo uma prerrogativa exclusiva das mesquitas. Hussein soltou mais imprecações contra o xá, que tinha cancelado o subsídio anual concedido aos mulás e às mesquitas há dois anos, trazendo-lhes tanta pobreza e angústia.

— Junte-se às pessoas que esperam na mesquita — disse a ela. — Quando todos estiverem alimentados, tire o suficiente para você e as crianças. Faça isto diariamente.

— Obrigada.

— Agradeça a Deus.

— Eu agradeço, oh, sim, eu agradeço.

Ele enfiou as botas e pendurou a arma no ombro

— Posso ir com você, pai? — Ali perguntou na sua vozinha fina. — Eu também quero fazer o trabalho de Deus.

— É claro, venha.

Ela fechou a porta e se sentou num banco, com o estômago roncando de fome, sentindo-se fraca e doente, cansada demais para espantar as moscas que pousavam no seu rosto. Estava grávida de oito meses. A parteira tinha lhe dito que desta vez seria mais difícil do que das outras, porque o bebê estava na posição errada. Ela começou a chorar, lembrando-se da agonia do último parto e do anterior.

— Não se preocupe — dissera a velha parteira, complacente —, você está nas mãos de Deus. Um pouco de bosta fresca de camelo espalhada no seu estômago vai livrá-la das dores. É dever de uma mulher ter filhos e você é jovem.

— Jovem? Eu tenho 22 anos e sou velha, velha, velha. Eu sei disso e sei por que, e tenho um cérebro e tenho olhos, sei até escrever meu nome e sei que vamos poder melhorar como o imã sabe, quando os estrangeiros forem expulsos e os seus maus hábitos forem banidos. O imã, que Deus o proteja, é sábio e bom e fala com Deus, só obedece a Deus, e Deus sabe que as mulheres não são escravas para serem exploradas e tratadas como nos tempos do Profeta como alguns fanáticos desejam. O imã nos protegerá dos extremistas e não permitirá que eles revoguem a Lei da Família, do xá, que nos deu o direito de votar e a proteção contra o divórcio sumário — ele não permitirá que os nossos votos e direitos e liberdades nos sejam tirados, ou o nosso direito de escolher se queremos ou não usar o chador, ele nunca o fará quando vir o quanto nós somos contrárias a isso. Não quando ele vir a nossa firmeza inabalável. No país inteiro.

Fátima secou as lágrimas e se sentiu mais feliz ao pensar nas demonstrações que estavam programadas para dali a três dias, e sentiu menos dor. Sim, nós, mulheres, vamos fazer uma demonstração pelas ruas de Kowiss, apoiando orgulhosamente as nossas irmãs das grandes cidades de Teerã, Qom e Isfahan, é claro que eu vou usar o chador por minha livre escolha, por causa de Hussein. Oh, como é maravilhoso poder mostrar a nossa solidariedade tanto como mulheres quanto pela revolução.

A notícia das planejadas demonstrações em Teerã tinham percorrido todo o país, ninguém sabe como. Mas todas as mulheres sabiam. Em toda parte, as mulheres tinham decidido aderir e todas elas aprovavam — mesmo aquelas que não ousavam confessar.