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E no entanto, ele tinha pena de Zataki. Na noite anterior ele o encontrara encostado num dos helicópteros com as mãos apertando as têmporas, com muita dor

O que é, aga!

— Minha cabeça. Eu... é a minha cabeça.

Ele o convencera a ver o dr. Nutt e o levara reservadamente ao bangalô do médico.

— Dê-me apenas aspirina ou codeína, doutor, o que o senhor tiver — tinha dito Zataki.

— Talvez fosse melhor deixar-me examiná-lo e...

— Nada de exames! — gritara Zataki. — Eu sei o que há de errado comigo. É a Savak o que há de errado, e a prisão... — E mais tarde, quando a codeína tinha diminuído a dor, Zataki contara a Starke que há cerca de um ano e meio ele tinha sido preso, acusado de propaganda contra o xá. Na época, ele trabalhava como jornalista para um dos jornais de Abadan. Tinha ficado preso por oito meses e então, logo depois do incêndio de Abadan, fora solto. Ele não contou a Starke o que tinham feito com ele. — Como Deus quiser, piloto — tinha dito com amargura. — Mas desde então, eu agradeço a Deus todos os dias por mais um dia de vida para exterminar mais gente da Savak e gente do xá, seus lacaios da polícia e seus lacaios soldados e todos aqueles que assistiram a sua maldade. Um dia eu o apoiei, ele não pagou pela minha educação, aqui e na Inglaterra? Mas ele foi o culpado da Savak! Ele foi o culpado! Essa parte da vingança é só por mim. Eu ainda não comecei a me vingar pela minha mulher e pelos meus filhos assassinados no incêndio de Abadan.

Starke ficara em silêncio. Quem, como ou o porquê do incêndio que causara quase quinhentas mortes jamais viera a público.

Ele observou Zataki trabalhar devagar e meticulosamente percorrendo a fila de possíveis passageiros. Quantos mais com papéis incompletos ou desatualizados Starke não sabia, todo mundo tenso, uma nuvem agourenta sobre eles. Logo seria a vez de Tyrer e Tyrer tinha que ir. O dr. Nutt tinha dito que seria mais seguro que Tyrer fosse examinado em Al Shargaz ou em Dubai o mais cedo possível, onde havia ótimos hospitais.

— Eu tenho certeza de que ele está bem, mas é melhor ele descansar os olhos por enquanto. E ouça, Duke, pelo amor de Deus, mantenha-se fora do caminho de Zataki e avise aos outros para fazerem o mesmo. Ele está prestes a explodir e só Deus sabe o que poderá acontecer então.

— O que há com ele?

— Medicamente eu não sei. Psicologicamente ele é perigoso, muito perigoso. Eu diria que é maníaco-depressivo, certamente paranóico, provavelmente em conseqüência direta das suas experiências na prisão. Ele contou a você o que fizeram com ele?

— Não. Não contou.

— Se dependesse de mim, eu recomendaria que ele fosse mantido sob sedativos e não se aproximasse de uma arma.

Ótimo, pensou Starke, desanimado. E como eu poderia fazer isso? Pelo menos Manuela e Genny estão a bordo e em breve estarão em Al Shargaz, que é um paraíso compa..

Um grito de aviso interrompeu seus pensamentos. Do outro lado do 125, vindo de trás da saída da torre principal, estava o mulá Hussein com mais Faixas Verdes e eles pareciam muito hostis.

Imediatamente, Zataki esqueceu os passageiros, empunhou sua metralhadora e, segurando-a frouxamente numa das mãos, se colocou entre Hussein e o avião. Dois dos seus homens se colocaram ao lado dele, e os outros se aproximaram do avião, tomando posições defensivas, cobrindo a aeronave.

— Matem os malditos corvos — alguém murmurou. — O que há agora?

— Preparem-se para se abaixar — disse Ayre.

— Capitão — Roberts cochichou desesperado. — Eu tenho que entrar naquele avião, tenho que entrar, a minha filhinha está muito mal, será que o senhor pode conseguir alguma coisa com aquele filho da mãe?

— Vou tentar.

Zataki observava Hussein, com ódio dele. Há dois dias ele fora a Isfahan, convidado a ir lá para entendimentos com o komiteh secreto. Todos os 11 membros eram aiatolás e mulás, e lá, pela primeira vez, ele vira a verdadeira face da revolução pela qual ele tanto lutara e tanto tinha sofrido: "Os hereges serão destruídos. Nós teremos apenas Tribunais Revolucionários. A justiça será rápida e definitiva, sem apelação..." Os mulás estavam tão seguros de si, tão seguros do seu direito divino de governar e de administrar justiça já que só eles interpretavam o Corão e o Sharia. Cautelosamente, Zataki guardara seu horror e seus pensamentos para si mesmo, mas ele sabia que, mais uma vez, fora traído.

— O que você quer, mulá? — disse Zataki, pronunciando esta palavra como se fosse um xingamento.

— Primeiro eu quero que você entenda que não tem nenhum poder aqui O que você faz em Abadan é problema dos aiatolás de Abadan, mas aqui você não tem nenhum poder sobre esta base, sobre estes homens, ou sobre este avião. — Rodeando Hussein havia uma dúzia de jovens armados, de caras fechadas, todos Faixas Verdes.

— Nenhum poder, hein? — Desdenhosamente, Zataki virou as costas para o mulá e gritou em inglês: — O avião vai partir agora! Todos os passageiros subam a bordo! — Iradamente, ele fez um sinal para o piloto partir, depois tornou a encarar Hussein. — Bem? E em segundo lugar? — perguntou, enquanto, atrás dele, os passageiros se apressaram em obedecer, e como os Faixas Verdes estavam concentrados em Zataki e Hussein, Starke mandou que Roberts subisse para o avião, e depois fez sinal para Ayre ajudá-lo a encobrir a fuga do mecânico. Juntos, eles ajudaram Tyrer a sair do jipe.

Zataki brincava com a arma, com toda a sua atenção fixada em Hussein.

— Bem? E em segundo lugar? — Ele tornou a perguntar.

Hussein estava perplexo, e seus homens também estavam conscientes das armas apontadas para eles. Os motores começaram a rugir. Ele viu os passageiros subindo apressadamente, Starke e Ayre ajudando um homem com bandagens nos olhos a subir as escadas, depois os dois pilotos outra vez ao lado do jipe, os motores a jato esquentando, e assim que o último homem entrou, a escada foi levantada e o avião começou a taxiar.

— Bem, aga, e depois?

— Depois... depois o komiteh de Kowiss ordena que você e os seus homens saiam de Kowiss.

Desdenhosamente, Zataki gritou para os seus homens por sobre o barulho dos motores, com os pés plantados na pista de concreto, pronto para lutar se fosse necessário e morrer se fosse necessário, com o ar superaquecido soprando em cima dele enquanto o avião se movia em direção à pista.

— Vocês ouviram, o komiteh de Kowiss ordenou que nós partíssemos! Seus homens começaram a rir, e um dos Faixas Verdes de Hussein, um adolescente imberbe que estava no final do grupo, levantou a carabina e morreu imediatamente, quase cortado ao meio pela rajada precisa de balas dos homens de Zataki que o escolheram cuidadosamente. O silêncio foi quebrado apenas pelo som distante dos jatos. Hussein ficou momentaneamente confuso pela rapidez e pela poça de sangue que jorrou no concreto.

— Seja como Deus quiser — disse Zataki. — O que você quer mulá?

Foi então que Zataki notou o garotinho que o olhava petrificado, escondido atrás das vestes do mulá, agarrando-se a elas para se proteger, tão parecido com o seu próprio filho, o mais velho, que por um momento ele foi levado de volta aos dias felizes antes do incêndio, quando tudo parecia bem e havia alguma forma de futuro — a maravilhosa Revolução Branca do xá, a reforma agrária, o controle dos mulás, a educação universal e outras coisas — os bons tempos em que eu era um pai, o que não serei nunca mais. Nunca. Os choques elétricos e as tenazes destruíram essa possibilidade.

Uma pontada violenta de dor nos seus testículos inundou sua cabeça junto com as lembranças e ele teve vontade de gritar. Mas não o fez, apenas reprimiu o sofrimento, como sempre, e se concentrou naquela morte. Ele pôde ver a expressão implacável do rosto do mulá e se preparou. Matar com a metralhadora dava-lhe grande pazer. O quente staccato, a arma viva explodindo em pequenos arrancos, o cheiro acre de cordite, o sangue dos inimigos de Deus e do Irã jorrando. Os mulás são inimigos, e mais do que eles todos, Khomeini, que comete o sacrilégio de permitir que o seu retrato seja venerado e que os seus seguidores o chamem de imã, e coloca os mulás entre nós e Deus, contra todos os ensinamentos do Profeta.