— Ande logo — ele berrou —, eu estou perdendo a paciência!
— Eu... eu quero aquele homem — disse Hussein, apontando. Zataki olhou em volta. O mulá estava apontando para Starke.
— O piloto? Por quê? Para quê? — Ele perguntou, perplexo.
— Para interrogatório. Eu quero interrogá-lo.
— Sobre o quê?
— Sobre a fuga dos oficiais de Isfahan.
— E o que ele poderia saber a respeito disso? Ele estava comigo em Bandar Delam, a centenas de quilômetros, quando isso aconteceu, ajudando a revolução contra os inimigos de Deus! — Zataki acrescentou maldosamente: — Os inimigos de Deus estão em toda parte, em toda parte! O sacrilégio existe em toda parte, a adoração de ídolos é praticada em toda parte. Não é?
— Sim, sim, os inimigos abundam e sacrilégio é sacrilégio. Mas ele é um piloto de helicópteros, foi um infiel que pilotou o helicóptero da fuga, ele pode saber alguma coisa. Eu quero interrogá-lo.
— Não enquanto eu estiver aqui.
— Por quê? Por que não? Por que você não...
— Você não vai interrogá-lo enquanto eu estiver aqui, por Deus! Não enquanto eu estiver aqui! Mais tarde ou amanhã ou depois, como Deus quiser, mas não agora.
Zataki tinha manobrado Hussein e viu no rosto dele e nos seus olhos que ele tinha cedido e que não era mais uma ameaça. Cautelosamente, ele olhou para o rosto de cada um dos Faixas Verdes que cercavam o mulá, mas não detectou mais nenhum perigo. A morte súbita e rápida de um deles, pensou sem nenhum sentimento de culpa, controla os outros.
— Vocês devem querer voltar à sua mesquita agora, está quase na hora das orações. — Ele se virou de costas e caminhou para o jipe, sabendo que os seus homens o estariam protegendo, fez um sinal para Starke e Ayre, chamando-os, e entrou no banco da frente, com a metralhadora apontada, mas não tão ostensivamente como antes. Um por um, seus homens recuaram até os carros. E partiram.
Hussein estava lívido. Seus Faixas Verdes esperavam. Um deles acendeu um cigarro, todos eles conscientes do corpo aos seus pés. E do sangue que ainda jorrava.
— Por que você os deixou ir, papai? — O garotinho perguntou na sua vozinha fina.
— Eu não deixei, meu filho. Nós temos coisas mais importantes a fazer no momento, depois voltaremos.
EM ZAGROS TRÊS: 12:05H. Scot Gavallan olhava fixamente para o cano de uma metralhadora apontada para ele. Ele tinha acabado de pousar o 212 depois da primeira viagem do dia para a plataforma Rosa, para entregar outro carregamento de canos de aço e cimento, e assim que desligara os motores, Faixas Verdes armados vieram correndo do hangar para cercá-lo.
Odiando o medo que tomou conta dele, desviou os olhos da arma e olhou para os olhos pretos e maldosos.
— O que... o que quer? — perguntou, e depois falou num farsi hesitante: — Cheh karbarehi
O homem que estava com a arma soltou uma torrente de palavras zangadas e incompreensíveis.
Ele tirou os fones da cabeça.
— Man zaban-eshoma ra khoob namidanam, Aghal — gritou por sobre o barulho dos motores. — Eu não falo a sua língua, Excelência! — contendo-se para não dizer a obscenidade que teve vontade de acrescentar. Mais palavras zangadas e o homem fez sinal para ele sair da cabine. Então ele viu Nasiri, o gerente de base da IranOil, desgrenhado e machucado, sendo levado em direção ao 212 por mais guardas revolucionários. Ele se inclinou um pouco para fora da janela.
— Que diabo está acontecendo?
— Eles... eles querem que você saia do helicóptero, capitão — respondeu Nasiri. — Eles... por favor, depressa!
— Espere até eu completar a aterrissagem! — Nervosamente, Scot terminou os procedimentos de pouso. O cano da metralhadora não se movera, nem diminuíra a hostilidade em volta dele. Os rotores giravam mais devagar e quando deu para sair, ele tirou o cinto e saltou. Imediatamente, foi empurrado para fora do caminho. Homens excitados, gritando, abriram completamente a porta da cabine, espiaram para o interior, enquanto outros abriam a porta da cabine principal e subiam a bordo.
— Que diabo aconteceu com você, aga! — perguntou a Nasiri, ao ver a extensão dos seus ferimentos.
— O... o novo komiteh cometeu um erro — disse Nasiri, tentando manter a dignidade — achando que eu era... um partidário do xá e não um homem da revolução e do imã.
— Quem são estes homens? Eles não são de Yazdek.
Mas antes que Nasiri pudesse responder, o Faixa Verde que estava com a metralhadora abriu caminho pelo meio do grupo.
— Para o escritório! AGORA! — disse o homem, num mau inglês, depois estendeu a mão e agarrou Scot pela manga da jaqueta de vôo para fazê-lo andar mais depressa. Automaticamente, Scot empurrou-lhe o braço. Uma arma foi-lhe enfiada nas costelas.
— Está bem, pelo amor de Deus — resmungou e caminhou em direção ao escritório com a cara fechada.
No escritório, Nitchak Khan, calênder da aldeia, e o velho mulá estavam em pé ao lado da escrivaninha, de costas para a parede ao lado da janela aberta. Ambos tinham um ar grave. Scot os cumprimentou e eles responderam com a cabeça, pouco à vontade. Atrás dele, muitos Faixas Verdes encheram a sala atrás de Nasiri.
— Cheh karbareh, Kalandar? — perguntou Scot. — O que está havendo?
— Estes homens são... afirmam ser o nosso novo komiteh — Nitchak Khan respondeu com dificuldade. — Eles foram mandados de Sharpur para assumir a nossa... a nossa aldeia e o nosso... campo de aviação.
Scot ficou perplexo. O que o líder da aldeia dissera não fazia sentido. Embora Sharpur fosse a cidade mais próxima e tivesse jurisdição nominal sobre aquela região, o costume sempre deixara as tribos kash'kai das montanhas governarem a si mesmas — desde que eles aceitassem a suserania do xá de Teerã, obedecessem às leis e permanecessem desarmados e pacíficos.
— Mas vocês sempre gover...
— Quieto! — disse o líder dos Faixas Verdes, brandindo a metralhadora, e Scot viu Nitchak enrubescer. O líder usava barba, tinha cerca de trinta anos, estava pobremente vestido e seus olhos escuros eram maus. Ele arrastou Nasiri para a frente do grupo e falou rapidamente em farsi.
— Eu... eu devo servir de intérprete, capitão — disse Nasiri, nervosamente. — O líder, Ali-sadr, diz que o senhor deve responder às perguntas. Eu já respondi a quase todas, mas ele quer... — Ali-sadr xingou-o e começou o interrogatório, lendo de uma lista preparada e com Nasiri traduzindo:
— O senhor está no comando aqui?
— Sim, temporariamente.
— Qual é a sua nacionalidade?
— Britânica. Agora que dia...
— Há algum americano aqui?
— Não que eu saiba — Scot disse imediatamente e manteve o rosto com uma expressão afável, torcendo para que Nasiri, que sabia que Rodrigues, o mecânico, era americano com uma falsa identidade inglesa, não tivesse respondido a esta pergunta. Nasiri traduziu sem hesitação. Um dos outros Faixas Verdes estava anotando as respostas.
— Quantos pilotos há aqui?
— No momento eu sou o único.
— Onde estão os outros, quem são e qual é a nacionalidade deles?
— O nosso piloto mais graduado, capitão Lochart, é canadense, e está em Teerã. Ele está pilotando um charter fora de Teerã, eu acho, mas é esperado de volta a qualquer momento. O outro, o segundo em comando, é o capitão Sessonne, francês, ele teve que partir para Teerã hoje, num vôo urgente para a IranOil.
O líder levantou os olhos, com o olhar duro
— O que havia de tão urgente?
— A plataforma Rosa está pronta para medir um novo poço.
Ele esperou enquanto Nasiri explicava o que isso significava e que os per furadores precisavam da ajuda urgente de especialistas da Schulumberger, agora sediados em Teerã. Esta manhã, Jean-Luc tinha ligado para a torre de controle local em Shiraz para tentar conseguir uma autorização para ir a Teerã. Para sua surpresa e alegria, a torre de Shiraz deu a aprovação imediatamente.