— O senhor deve sentar-se, capitão — disse Nasiri. — Ali. — Ele indicou uma cadeira no fundo da sala lotada. Ali-sadr e quatro outros Faixas Verdes estavam sentados na mesa onde o professor costumava sentar. Nitchak Khan e o mulá sentavam-se em frente a eles. Os aldeões estavam em pé, em volta.
— O que está acontecendo?
— É... é uma reunião.
Scot percebeu o medo que Nasiri sentia e imaginou o que faria se os Faixas Verdes começassem a bater nele. Eu devia ser faixa preta ou lutador de boxe, pensou fatigado, tentando entender o que o líder estava dizendo em farsi.
— O que ele está dizendo, aga! — cochichou para Nasiri.
— Eu... ele está... ele está dizendo a Nitchak Khan como a aldeia vai ser governada de agora em diante. Por favor, eu explico depois. — Nasiri se afastou.
Depois de algum tempo, o palavrório terminou. Todo mundo olhou para Nitchak Khan. Ele se levantou lentamente. Seu rosto estava grave e suas palavras foram poucas. Até Scot entendeu.
— Yazdek é kash 'kai. Yazdek vai continuar a ser kash 'kai. — Ele voltou as costas para a mesa e começou a se retirar, com o mulá o seguindo.
A uma ordem zangada do líder, dois Faixas Verdes barraram-lhe o caminho. Desdenhosamente, Nitchak Khan afastou-os, então outros o agarraram, com a tensão crescendo na sala, e Scot viu um dos aldeões se esgueirar para fora da sala sem ser observado. Os Faixas Verdes que estavam segurando Nitchak Khan viraram-no de frente para Ali-sadr e os outros quatro, que estavam em pé, enraivecidos e gritando. Ninguém tocara no velho mulá. Ele levantou a mão e começou a falar, mas o líder gritou para ele se calar e um murmúrio percorreu os aldeões. Nitchak Khan não lutou contra os homens que o imobilizavam, apenas olhou para Ali-sadr e Scot sentiu o ódio dele como se fosse um golpe físico.
O líder tornou a falar com os aldeões, depois apontou um dedo acusador para Nitchak Khan e mais uma vez ordenou que ele obedecesse e mais uma vez Nitchak Khan disse calmamente:
— Yazdek é kash'kai e vai continuar sendo kash'kai.
Ali-sadr sentou-se. Os outros quatro fizeram o mesmo. Mais uma vez Ali-sadr apontou e disse algumas palavras. Os aldeões levaram um choque. Os quatro homens ao lado dele concordaram com a cabeça. Ali-sadr disse uma única palavra. Ele cortou o silêncio como uma lâmina.
— Morte! — E se levantou e saiu, com os aldeões e os Faixas Verdes levando Nitchak Khan atrás dele, e Scot ficou esquecido. Scot se abaixou, tentando passar despercebido. Em pouco tempo ele estava sozinho.
Lá fora, os Faixas Verdes arrastaram Nitchak Khan para o muro da mesquita e o colocaram lá. A praça estava vazia. À medida que os outros aldeões saíam da escola, eles também se afastavam rapidamente. Exceto o mulá. Vagarosamente, ele foi até onde estava Nitchak Khan e se colocou ao lado dele, de frente para os Faixas Verdes que, a vinte metros de distância, preparavam as armas. A uma ordem de Ali-sadr, dois deles afastaram o velho. Nitchak Khan esperava em silêncio, orgulhosamente, depois cuspiu no chão.
O único tiro de rifle veio não se sabe de onde. Ali-sadr estava morto antes mesmo de cair no chão. O silêncio foi súbito e enorme, e os Faixas Verdes se viraram em pânico, depois ficaram paralisados quando uma voz gritou:
— Allah-u Akbarr, larguem suas armas!
Ninguém se moveu, depois um dos guardas do pelotão de fuzilamento apontou a arma para Nitchak Khan mas morreu antes de poder puxar o gatilho.
— Deus é grande, larguem as armas!
Um dos Faixas Verdes deixou a arma cair no chão. Um outro fez o mesmo, um outro correu para o caminhão mas morreu antes de andar dez metros. Agora todas as armas estavam no chão. E todos que continuavam em pé ficaram imóveis.
Então a porta da casa de Nitchak Khan se abriu e sua esposa saiu com uma carabina, apontada, seguida de um rapaz também empunhando uma carabina. Ela parecia feroz no seu orgulho, dez anos mais jovem que o marido, e o único som na praça era o tilintar dos seus brincos e correntes e o farfalhar das suas longas vestes marrons e vermelhas.
Os olhos estreitos de Nitchak Khan no seu rosto de maçãs salientes ficaram ainda mais estreitos, e as profundas rugas que tinha no canto dos olhos se acentuaram. Mas não disse nada a ela, apenas olhou para os oito Faixas Verdes que tinham sobrado. Sem piedade. Eles olharam para Nitchak, e um deles tentou apanhar a arma, e ela atirou no seu estômago e ele gritou, contorcendo-se na neve. Ela o deixou gritar por um momento. Depois deu um segundo tiro e os gritos cessaram.
Agora havia sete.
Nitchak Khan sorriu silenciosamente. Agora, das casas e cabanas, os homens e mulheres da aldeia saíram para a praça. Todos estavam armados. Ele voltou a atenção para os sete.
— Entrem no caminhão, deitem-se e ponham as mãos para trás. — Os homens obedeceram de má vontade. Ele ordenou que quatro aldeões os vigiassem, depois voltou-se para o rapaz que tinha saído da sua casa. — Há mais um no campo de aviação, meu filho. Leve alguém com você e trate dele. Traga o corpo de volta mas cubram os seus rostos com lenços para que os infiéis não possam reconhecê-los.
— Seja como Deus quiser. — O rapaz apontou para a escola. A porta estava aberta, mas não havia sinal de Scot. — O infiel — disse baixinho. — Ele não é da nossa aldeia. — E se afastou rapidamente.
A aldeia esperou. Nitchak Khan coçou a barba Pensativamente. Então seus olhos dirigiram-se para Nasiri que estava escondido ao lado da escada da escola.
O rosto de Nasiri ficou lívido.
— Eu... eu não... eu não vi nada, nada, Nitchak Khan — ele falou com voz rouca e se levantou e pulou por cima dos corpos. — Eu sempre... nos dois anos em que estou aqui eu sempre fiz tudo o que pude pela aldeia. Eu... eu não vi nada — disse mais alto, covardemente, e então o terror o dominou e ele saiu correndo da praça. E morreu. Uma dúzia de homens tinha atirado nele.
— É verdade que a única testemunha da maldade destes homens devia ser Deus.
Nitchak Khan suspirou. Ele gostava de Nasiri. Mas ele não era do seu povo. Sua mulher se aproximou e ele lhe sorriu. Ela apanhou um cigarro, entregou-lhe e o acendeu para ele, depois tornou a guardar os cigarros e os fósforos no bolso. Ele fumou Pensativamente. Alguns cachorros latiram no meio das casas e uma criança chorou, e a fizeram calar rapidamente.
— Haverá uma pequena avalanche para destruir a estrada no lugar em que ela foi interrompida antes, para manter todo mundo afastado até o degelo, — disse finalmente. — Nós poremos os corpos no caminhão e jogaremos gasolina por cima e o empurraremos para a ravina do Camelo Quebrado. Parece que o komiteh decidiu que nós podemos nos governar como sempre e que deveríamos ser deixados em paz como sempre, então eles foram embora e levaram o corpo de Nasiri com eles. Eles mataram Nasiri aqui na praça, como nós todos vimos, quando ele tentou escapar da justiça. Infelizmente, eles sofreram um acidente na volta. É uma estrada muito perigosa, como todos nós sabemos. Provavelmente eles levaram o corpo de Nasiri para provar que tinham cumprido o seu dever e livrado a montanha de um conhecido partidário do xá e o mataram quando ele tentou escapar. Ele certamente era um partidário do xá quando o xá tinha poder e antes do xá fugir. — Os aldeões concordaram satisfeitos e esperaram. Todos queriam saber a resposta para a última pergunta: e quanto à última testemunha? E quanto ao infiel que ainda estava dentro da escola?
Nitchak Khan coçou a barba. Isso sempre o ajudava na hora de tomar uma decisão difícil.