— Outros Faixas Verdes virão em breve, atraídos pelo magnetismo das máquinas voadoras, fabricadas pelos estrangeiros e pilotadas pelos estrangeiros para o benefício dos estrangeiros por causa do petróleo que é retirado da nossa terra para o benefício dos inimigos Tehranis e dos inimigos cobradores de impostos e de mais estrangeiros. Se não houvesse poços, não haveria estrangeiros, portanto não haveria Faixas Verdes. A terra é rica em petróleo em outros lugares, fácil de ser retirado em outros lugares. O nosso não é. Os nossos poucos poços não são importantes e as 11 bases são de acesso difícil e perigoso. Eles não tiveram que explodir o topo da montanha para salvar um deles de uma avalanche, há uns poucos dias atrás?
Houve concordância geral. Ele continuou fumando despreocupadamente. As pessoas olhavam para ele, confiantes. Ele era o calênder, o chefe que tinha governado sabiamente por 18 anos, em épocas boas e más.
— Se não houvesse máquinas voadoras, não poderia haver poços. Então, se esses estrangeiros partissem — ele continuou na mesma voz grossa e vagarosa —, eu duvido que outros estrangeiros se aventurassem a vir aqui para consertar e reabrir as 11 bases, pois as bases com certeza tornariam a ser avariadas, talvez até saqueadas por bandidos. Então nós seríamos deixados em paz. Sem a nossa benevolência, ninguém pode operar nas nossas montanhas. Nós, kash'kai, procuramos viver em paz. Mas seremos livres e governados pelos nossos próprios hábitos e costumes. Portanto, os estrangeiros devem partir, por sua própria vontade. E partir depressa. E também os poços. E tudo o que for estrangeiro. — Cuidadosamente, ele apagou o cigarro na neve. — Vamos começar: ponham fogo na escola.
Ele foi obedecido imediatamente. Um pouco de gasolina e a madeira ressecada logo pegou fogo. Todo mundo esperou. Mas o infiel não apareceu, e quando eles revistaram as cinzas não encontraram nenhum resto dele.
32
PERTO DE TABRIZ: 11:49H. Erikki Yokkonen subia com o 206 pelo alto desfiladeiro que ia dar na cidade. Nogger Lane estava ao seu lado e Azadeh atrás. Ela usava um grosso casaco de vôo sobre as roupas de esqui, mas no porta-bagagem havia um chador:
— Só por segurança — dissera. Ela estava usando o terceiro par de fones que Erikki lhe conseguira.
Tabriz Um, está me ouvindo? — Ele tornou a dizer. Esperaram. Nenhuma resposta ainda e já estava bem dentro da sua faixa. — Pode estar abandonada, pode ser uma armadilha, como aconteceu com Charlie.
— É melhor darmos uma boa olhada antes de pousar — disse Nogger, pouco à vontade, com os olhos examinando o céu e a terra.
O céu estava claro, a temperatura bem abaixo de zero, e as montanhas estavam cobertas de neve. Eles tinham reabastecido sem incidentes num depósito da IranOil muito próximo de Bandar-e Pahlavi, seguindo instruções da torre de Teerã.
— Khomeini está com tudo sob controle, com a torre de controle querendo ajudar e o aeroporto aberto de novo — Erikki tinha comentado, tentando espantar a depressão que pesava sobre eles.
Azadeh ainda estava muito abalada pela notícia da execução de Emir Paknouri por "crimes contra o Islã" e pela notícia ainda mais terrível a respeito do pai de Xarazade.
— Isso é assassinato — exclamara horrorizada, ao saber. — Que crimes ele poderia ter cometido, ele que tem apoiado Khomeini e os mulás há gerações?
Nenhum deles tivera qualquer resposta. A família recebera ordem de recolher o corpo e agora estava em luto profundo, Xarazade quase louca de tristeza — a casa fechada até mesmo para Azadeh e Erikki. Azadeh não queria sair de Teerã, mas tinha chegado uma segunda mensagem, enviada por seu pai a Erikki, repetindo a primeira: "Capitão, necessito urgentemente da presença da minha filha em Tabriz". — E agora eles estavam quase chegando em casa.
Antigamente, era a nossa casa, Erikki pensou. Agora eu não tenho mais certeza.
Perto de Qazvin, ele sobrevoara o lugar onde o seu Range Rover tinha ficado sem gasolina e onde Pettikin e Rakoczy os salvaram da multidão. O Range Rover não estava mais lá. Depois passara sobre a aldeia miserável onde ficava a barreira, e de onde ele fugira para esmagar o mujhadin de cara redonda que lhes roubara os papéis. É loucura voltar, pensou.
— Mac tem razão — Azadeh tinha dito, implorando. — Vá para Al Shargaz e deixe Nogger levar-me para Tabriz e trazer-me de volta para pegar o próximo vôo. Eu vou me encontrar com você em Al Shargaz não importa o que meu pai diga.
— Eu vou levá-la para casa e trazê-la de volta — respondera. — Está acabado.
Eles tinham decolado de Doshan Tappeh pouco depois do amanhecer. A base estava quase vazia, com muitos edifícios e hangares transformados em ruínas, destroços de aviões da Força Aérea iraniana, de caminhões, e um tanque incendiado com o emblema dos Imortais do lado. Não havia ninguém limpando aquela bagunça. Não havia nenhum guarda. Os catadores de lixo estavam levando para casa qualquer coisa que pudessem queimar — não havia quase nenhum combustível para vender, nem comida, mas ainda havia muitas batalhas diurnas e noturnas entre Faixas Verdes e esquerdistas.
O hangar e a oficina da S-G estavam quase intatos. Havia muitos buracos de balas nas paredes, mas nada fora saqueado até agora e eles estavam operando, precariamente, com alguns mecânicos e funcionários fazendo o trabalho normal. O pagamento de alguns salários atrasados, com o dinheiro que McIver conseguira espremer de Valik e dos outros sócios, fora a isca. Ele dera mais algum dinheiro para Erikki pagar o pessoal de Tabriz Um:
— Comece a rezar, Erikki! Hoje eu tenho um encontro marcado no Ministério para tratar das nossas finanças e do dinheiro que nos estão devendo — McIver tinha dito a eles pouco antes de decolarem —, e para renovar todas as nossas licenças vencidas. Foi Talbot, da embaixada, quem marcou o encontro para mim. Ele acha que há uma boa chance de Bazargan e Khomeini conseguirem controlar a situação agora e desarmar os esquerdistas. Nós só temos que manter o ânimo e a calma.
É fácil para ele, pensou Erikki.
Chegaram ao alto do desfiladeiro. Ele se inclinou e baixou depressa.
— Lá está a base! — Os dois pilotos se concentraram. A biruta era a única coisa que se movia. Não havia nenhum veículo estacionado em lugar algum. Não saía fumaça de nenhuma das cabanas. — Devia haver fumaça. — Fez uma volta apertada a duzentos metros. Ninguém apareceu para recebê-los. — Vou dar uma olhada mais de perto.
Tornaram a dar outra volta. Nada se moveu e eles subiram para trezentos metros. Erikki pensou por um momento.
— Azadeh, eu podia pousar no pátio da frente do palácio ou do lado de fora dos muros.
Imediatamente, Azadeh sacudiu a cabeça.
— Não, Erikki, você sabe como os guardas estão nervosos, e como ele é sensível a alguém aparecer lá sem ter sido chamado.
— Mas ele nos chamou, pelo menos a você. Ordenou é uma palavra melhor. Podíamos ir até lá, dar uma volta e olhar, e se estiver tudo bem, nós pousamos.
— Podíamos pousar bem longe e andar...
— Nada de andar. Não sem armas. — Ele não tinha conseguido arranjar uma arma em Teerã. Qualquer maldito vândalo tem tantas quantas quiser, pensou irritado. Tenho que arranjar uma. Já não me sinto mais seguro. — Vamos dar uma olhada e depois decidimos. — Ele ligou para a freqüência da torre de Tabriz e chamou. Nenhuma resposta. Tornou a chamar, depois virou e foi para a cidade. Ao passarem sobre a pequena aldeia de Abu Mard, Erikki apontou para baixo e Azadeh viu a escolinha onde passara tantos momentos felizes, a clareira ali perto e lá, ao lado do riacho, o lugar onde ela vira Erikki pela primeira vez e tinha achado que ele era um gigante da floresta e se apaixonara, milagre dos milagres, para ser salva por ele de uma vida de tormentos. Ela estendeu a mão e tocou-o através da pequena janela.