Eles se dirigiram para onde estavam Azadeh e suas irmãs, mas o guarda ficou no caminho. Azadeh gritou:
— Ele diz que vocês devem ir para o salão de recepção imediatamente e esperar lá. Sigam-me, por favor.
Nogger era o último. Uma das bonitas irmãs chamou-lhe a atenção, e ele sorriu consigo mesmo e subiu os degraus de dois em dois.
O salão de recepção era grande, frio e ventoso e cheirava a mofo, tinha uma pesada mobília vitoriana, muitos tapetes e almofadões e antiquados aquecedores a vapor. Azadeh ajeitou o cabelo num dos espelhos. Suas roupas de esqui eram elegantes e modernas. Abdullah Khan nunca tinha exigido que suas esposas e filhas, ou suas empregadas, usassem o chador, ele não aprovava o chador. Então por que Najoud estava usando um hoje? Ela se perguntou, com o nervosismo aumentando. Um empregado trouxe chá. Eles esperaram meia hora, depois outro guarda chegou e falou com ela. Ela deu um profundo suspiro.
— Nogger, é para você esperar aqui — disse. — Erikki, eu e você devemos acompanhar este guarda.
Erikki seguiu-a, tenso mas confiante de que o armistício que ele tinha negociado com Abdullah Khan ainda estivesse valendo. O contato da sua faca pukoh tranqüilizou-o. O guarda abriu uma porta no final do corredor e fez sinal para eles entrarem.
Abdullah Khan estava recostado em algumas almofadas, reclinado sobre um tapete em frenta à porta, com guardas atrás dele; a sala era luxuosa, vitoriana, formal e, de certa forma, decadente e suja. Os dois homens que eles tinham visto na escada estavam sentados de pernas cruzadas ao seu lado. Um era europeu, um homem grande e conservado, de uns sessenta anos, com ombros fortes e olhos eslavos num rosto amigável. O outro era mais jovem, tinha cerca de trinta anos, com feições asiáticas e pele amarelada. Ambos usavam roupas pesadas de inverno. A cautela de Erikki aumentou enquanto ele esperava na porta que Azadeh fosse até o pai, se ajoelhasse diante dele, beijasse as suas mãos gordas, cheias de anéis, e lhe pedisse a bênção. Impassível, seu pai fez sinal para que ela se afastasse e manteve os olhos fixos em Erikki, que o cumprimentou educadamente da porta mas permaneceu perto dela. Disfarçando a vergonha e o medo, Azadeh tornou a se ajoelhar no tapete e olhou-o. Erikki viu os dois estranhos examinarem-na apreciativamente, e sua temperatura subiu um ponto. O silêncio ficou mais pesado.
Ao lado do khan, havia um prato de halvah, pequenos quadrados de doces de mel turcos que ele adorava, e ele comeu alguns, brincando com os anéis.
— Então — disse com dureza — parece que você mata indiscriminadamente como um cachorro louco.
Os olhos de Erikki estreitaram-se e ele não disse nada.
— Bem?
— Se eu mato, não é como um cachorro louco. Quem dizem que eu matei? Um velho no meio de uma multidão perto de Qazvin. Com um golpe de cotovelo, seu peito foi achatado. Há testemunhas. Depois, três homens num carro e um do lado de fora, que era um importante combatente da liberdade. Há mais testemunhas. Mais adiante, cinco mortos e mais feridos durante o resgate do helicóptero. Mais testemunhas. — Houve um outro silêncio. Azadeh não se movera, embora o sangue lhe tivesse fugido do rosto. — Bem?
— Se existem testemunhas, o senhor deve saber também que nós estávamos pacificamente tentando chegar a Teerã, que não estávamos armados, que fomos atacados por uma multidão e que se não fosse por Charlie Pettikin e Rakoczy, provavelmente estaríamos... Erikki interrompeu-se momentaneamente, notando o olhar repentino trocado entre os dois homens. Então, mais cautelosamente ainda, ele continuou: — Nós estaríamos provavelmente mortos. Nós estávamos desarmados mas Rakoczy não estava, e eles atiraram em nós primeiro.
Abdullah Khan também notara a mudança nos homens que estavam ao seu lado. Pensativo, ele olhou para Erikki.
— Rakoczy? O mesmo que atacou a sua base junto com o mulá e os soldados marxistas-islâmicos? O muçulmano soviético?
— Sim. — Erikki olhou para os dois desconhecidos, com um olhar duro. — O agente da KGB, que dizia vir da Geórgia, de Tbilisi.
Abdullah Khan sorriu levemente.
— KGB? Como você sabe?
— Eu os conheço bem. — Os dois desconhecidos olharam para ele inocentemente. O mais velho tinha um sorriso simpático que gelou Erikki.
— Este Rakoczy, como foi que ele entrou no helicóptero? — perguntou o khan.
— Ele capturou Charlie Pettikin na minha base no domingo passado. Pettikin é um dos nossos quatro pilotos e ele tinha vindo a Tabriz para nos apanhar, a mim e Azadeh. A minha embaixada tinha pedido para eu me comunicar com eles a respeito do meu passaporte. Foi no dia em que a maioria dos governos, o meu também, mandou que todos os estrangeiros que não fossem essenciais deixassem o Irã — disse, exagerando com facilidade. — Na segunda-feira, o dia em que saímos daqui, Rakoczy obrigou Pettikin a transportá-lo para Teerã. — Erikki contou rapidamente o que tinha acontecido. — Se ele não tivesse notado a bandeira da Finlândia no teto do carro, nós estaríamos mortos.
O homem de feições asiáticas riu baixinho.
— Isso seria uma grande perda, capitão Yokkonen — disse em russo. O homem mais velho, com os olhos eslavos, perguntou num inglês perfeito: — Este Rakoczy, onde ele está agora?
— Não sei. Em algum lugar em Teerã. Posso perguntar quem são os senhores? — Erikki estava tentando ganhar tempo e não esperava nenhuma resposta. Estava tentando decidir se Rakoczy era amigo ou inimigo desses dois, que eram, obviamente, soviéticos, obviamente da KGB ou da GRU, a polícia secreta das forças armadas.
— Qual era o primeiro nome dele, por favor? — O homem mais velho perguntou gentilmente.
— Fedor, como o revolucionário húngaro — Erikki não percebeu nenhuma reação e poderia ter prosseguido, mas era esperto demais para fornecer qualquer informação para a KGB ou a GRU. Azadeh estava ajoelhada no tapete, com as costas retas, imóvel. Suas mãos pousavam no colo, e seus lábios vermelhos contrastavam com a palidez do rosto. De repente ele sentiu muito medo por ela.
— Você admite ter matado esses homens? — perguntou o khan, e comeu outro doce.
— Admito ter matado um homem, há um ano e pouco, salvando a sua vida, Alteza, e...
— E a sua! — disse Abdullah Khan, raivosamente. — Os assassinos o teriam matado também. Foi a Vontade de Deus que nós dois vivêssemos.
— Eu não comecei o conflito nem o provoquei — Erikki tentava escolher as palavras com inteligência, sentindo-se burro, inseguro e inadequado. — Se eu matei esses outros não foi por minha vontade, mas apenas para proteger sua filha e minha esposa. Nossas vidas estavam em perigo.
— Ah, você considera que é seu direito matar todas as vezes que considera que sua vida está em perigo?
Erikki viu o rubor no rosto do khan, e percebeu os dois soviéticos observando-o e lembrou da sua própria herança e das histórias do seu avô sobre os tempos antigos nas Terras do Norte, quando gigantes povoavam a terra e os duendes e demônios não eram apenas um mito, há muito tempo atrás, quando a terra era pura e o mal era o mal e o bem era o bem, e o mal não podia usar nenhuma máscara.
— Se a vida de Azadeh for ameaçada, ou a minha, eu matarei qualquer um — respondeu.
Os três homens sentiram um sopro gelado passando por eles. Azadeh ficou apavorada com aquela ameaça e os guardas que não falavam nem russo nem inglês se agitaram, sentindo a violência.
A veia no meio da testa de Abdullah Khan pulsou.
— Você irá com este homem — disse sombriamente. — Você irá com este homem e fará o que ele mandar.
Erikki olhou para o homem de feições asiáticas.
— O que você quer de mim?
— Apenas a sua habilidade como piloto, e o 212 — disse o homem, amistosamente, em russo.
— Sinto muito, mas o 212 está na revisão das mil e quinhentas horas e eu trabalho para a S-G e para a Madeira Iraniana.
— O 212 está pronto, já foi revisado pelos seus mecânicos e a Madeira Iraniana o emprestou a... a mim.