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— Para fazer o quê?

— Para voar — disse o homem, irritado. — Você é surdo?

— Não, mas parece que você é.

O homem espumou. O homem mais velho sorriu estranhamente. Abdullah Khan virou-se para Azadeh que quase deu um salto de medo.

— Você, vá apresentar os seus respeitos a Khanan!

— Sim... sim... papai — gaguejou e se levantou de um salto. Erikki deu um passo para a frente, mas os guardas estavam prontos, um deles apontava para ele e Azadeh disse, quase chorando:

— Não, Erikki, é... eu... eu devo ir... — E saiu correndo antes que ele pudesse impedi-la.

O homem com o rosto asiático quebrou o silêncio.

— Você não tem nada a temer. Nós só precisamos dos seus serviços. Erikki Yokkonen não respondeu, certo de que estava encurralado, que tanto ele quanto Azadeh estavam encurralados e perdidos, e sabendo que, se não houvesse nenhum guarda ali ele teria atacado agora, sem hesitação, teria matado Abdullah Khan e provavelmente os outros dois. Os três homens sabiam disto.

— Por que o senhor mandou chamar minha mulher, Alteza? — perguntou na mesma voz calma, já sabendo a resposta agora. — O senhor mandou duas mensagens.

Abdullah Khan disse com um esgar de desprezo:

— Ela não tem nenhum valor para mim, mas tem para os meus amigos: para trazê-lo de volta e fazê-lo comportar-se. E por Deus e pelo Profeta, você vai se comportar. Você vai fazer o que este homem mandar.

Um dos guardas fez um pequeno movimento com a metralhadora e o barulho ecoou na sala. O soviético e o homem de feições asiáticas se levantaram.

— Primeiro a sua faca, por favor.

— Você pode vir buscá-la. Se realmente a quiser.

O homem hesitou. Repentinamente, Abdullah Khan deu uma gargalhada. A gargalhada foi cruel e os fez ficar tensos.

— Deixe a faca com ele. Isto vai tornar a sua vida mais interessante. — Então voltou-se para Erikki: — É aconselhável você ser obediente e se comportar.

— Seria mais aconselhável deixar-nos partir em paz.

— Você gostaria de ver o seu co-piloto pendurado pelo dedão do pé agora mesmo? — Os olhos de Erikki apertaram-se ainda mais. O soviético mais velho inclinou-se para cochichar com Abdullah Khan, cujo olhar não se afastou de Erikki. Suas mãos brincavam com a adaga coberta de jóias. Quando o homem terminou de falar, ele balançou a cabeça. — Erikki, você vai dizer ao seu co-piloto que é para ele obedecer enquanto estiver em Tabriz. Nós vamos mandá-lo para a base, mas o seu pequeno helicóptero vai ficar aqui. Por enquanto. — Ele fez sinal para o homem de feições asiáticas sair.

— Meu nome é Cimtarga, capitão. — O homem não era tão alto quanto Erikki, mas era muito forte, com ombros largos. — Primeiro nós...

— Cimtarga é o nome de uma montanha, a leste de Samarcanda. Qual é o seu verdadeiro nome? E o seu posto?

O homem deu de ombros.

— Meus antepassados andavam com Timur Tamerlão, o Mongol, aquele que gostava de erguer montanhas de crânios. Primeiro nós vamos para a sua base. Vamos de carro. — Passou por ele e abriu a porta, mas Erikki não se moveu, ainda olhando para o khan.

— Eu verei minha mulher esta noite.

— Você a verá quando... — Abdullah Khan parou porque o homem mais velho mais uma vez se inclinou e cochichou. Novamente o khan balançou a cabeça, concordando. — Ótimo. Sim, capitão, você a verá esta noite e a cada duas noites. Desde que... — Ele deixou a expressão no ar. Erikki virou-se e saiu.

Quando a porta se fechou atrás deles, a tensão abandonou a sala. O homem mais velho riu.

— Alteza, o senhor foi perfeito, perfeito como sempre.

Abdullah Khan relaxou o ombro esquerdo, incomodado pela dor que sentia na articulação atacada de artrite.

— Ele vai ser obediente, Petr — disse —, mas só enquanto a minha desobediente e ingrata filha estiver ao meu alcance.

— Filhas são sempre difíceis — respondeu Petr Oleg Mzytryk. Ele vinha do norte da fronteira, de Tbilisi, Tiflis.

— Não é assim, Petr. Todas as outras me obedecem e não me causam problemas, mas esta... ela me deixa furioso.

— Então mande-a embora assim que o finlandês tiver feito o que é preciso. Mande os dois embora. — Os olhos eslavos brilharam na face bondosa e ele acrescentou alegremente: — Se eu fosse trinta anos mais jovem, e ela fosse livre, eu me candidataria a livrá-lo dela.

— Se você tivesse pedido antes deste louco aparecer, você poderia tê-la com a minha bênção — Abdullah Khan disse com amargura, embora tivesse notado uma esperança oculta, e ocultasse a surpresa, pondo-a de lado para consideração posterior. — Eu me arrependo de tê-la dado a ele. Achei que ela também o levaria à loucura. Arrependo-me do meu juramento diante de Deus de deixá-lo vivo. Foi um momento de fraqueza.

— Talvez não. É bom ser generoso, às vezes. Ele realmente salvou sua vida.

— Insha'Allah! Foi um Ato de Deus. Ele foi apenas um instrumento.

— É claro — Mzytryk disse apaziguadoramente. — É claro.

— Este homem é um demônio, um demônio ateu que tem sede de sangue. Se não fosse pelos meus guardas, você mesmo viu, nós estaríamos lutando por nossas vidas.

— Não, não enquanto ela estiver em seu poder para ser manobrada... impropriamente. — Petr sorriu estranhamente.

— Se Deus quiser, eles logo estarão no inferno — disse o khan, ainda furioso por ter tido que manter Erikki vivo para ajudar Petr Oleg Mzytryk, quando poderia tê-lo entregue ao mujhadin esquerdista e assim livrar-se dele para sempre.

O mulá Mahmud, um dos líderes em Tabriz da facção mujhadin islâmico-marxista que tinha atacado a base, viera até ele há dois dias e lhe contara o que tinha acontecido na barreira da estrada.

— Aqui estão os papéis dele como prova — dissera o mulá com truculência. — Dos dois estrangeiros, que devem ser da CIA, e da moça, sua filha. Assim que ele voltar a Tabriz, nós o levaremos diante do komiteh, o julgaremos, o levaremos para Qazvin e o executaremos.

— Pelo Profeta, vocês não o farão, não enquanto eu não tiver aprovado. — Ele tinha respondido imperiosamente, apanhando os papéis. — Aquele cão danado estrangeiro é casado com a minha filha, não é da CIA, está sob minha proteção até que eu a cancele, e se você tocar num único fio daquele cabelo vermelho ou se meter com ele ou com a base sem minha permissão, eu retirarei todo o meu apoio secreto e nada vai impedir os Faixas Verdes de acabarem com os esquerdistas de Tabriz! Ele será entregue a você quando eu decidir, não você

— O mulá se retirara aborrecido e Abdullah tinha imediatamente acrescentado Mahmud à sua lista de prioridades. Quando ele examinou com cuidado os papéis e encontrou o passaporte e a identidade de Azadeh e outros documentos, tinha ficado encantado, pois isso lhe dava um poder extra sobre ela e o marido.

Sim, pensou, olhando para o soviético, ela agora fará qualquer coisa que eu mandar. Qualquer coisa.

— Seja como Deus quiser, mas ela pode ficar viúva muito em breve.

— Vamos esperar que não depressa demais! — A gargalhada de Mzytryk foi gostosa e contagiante. — Não antes do marido terminar a sua missão.

Abdullah Khan estava satisfeito com a presença do homem e com o seu conselho inteligente, e contente por Mzytryk fazer o que tinha que ser feito. Mas eu vou ter que ser um manipulador de fantoches melhor do que nunca, ele pensou, se quiser sobreviver e se quiser que o Azerbeijão sobreviva.

Por toda a província e em Tabriz a situação agora era muito delicada, com insurreições de vários tipos e facções lutando contra facções, com dezenas de milhares de soldados soviéticos a postos, do outro lado da fronteira. E tanques. E nada entre eles e o golfo para atrapalhá-los. Exceto eu, ele pensou. E uma vez de posse do Azerbeijão — com Teerã indefensável como a história já provou diversas vezes — então o Irã cairá nas mãos deles como a maçã podre que Krushchev previu. Junto com o Irã, o golfo, o petróleo mundial e Ormuz.