Ele queria urrar de raiva. Maldito xá que não quis ouvir, não quis esperar, não teve o bom senso de esmagar uma rebelião de segunda classe instigada pelos mulás há vinte anos e mandar o aiatolá Khomeini para o inferno como eu aconselhei e pôs em risco o nosso domínio absoluto, inevitável, sobre o mundo inteiro exceto a Rússia, czarista ou soviética — o nosso verdadeiro inimigo.
Nós estávamos tão perto: os Estados Unidos estavam comendo nas nossas mãos, adulando-nos e empurrando-nos as suas armas mais avançadas, implorando-nos para policiar o golfo e assim dominar os malditos árabes, absorver o seu petróleo, torná-los nossos vassalos assim como os seus malditos parasitas, os xeques sunitas, da Arábia Saudita até Omã. Nós poderíamos ter dominado o Kuwait num dia, o Iraque numa semana os xeques sauditas e dos emirados árabes teriam fugido para o deserto implorando piedade! Nós poderíamos conseguir qualquer tecnologia que quiséssemos, navios, aviões, tanques, armas à vontade, até mesmo a bomba atômica, por Deus! — os nossos reatores alemães teriam feito isso para nós.
Tão perto de cumprir a vontade de Deus, nós, os xiitas do Irã, com nossa inteligência superior, nossa história milenar, nosso petróleo e nosso domínio do estreito que, no fim, deverá pôr de joelhos todo o Povo da Mão Esquerda. Tão perto de conquistar Jerusalém e Meca, controlar Meca — a mais Santa das Santas.
Tão perto de nos tornarmos os primeiros sobre a terra, como é nosso direito, mas agora, agora tudo isso está ameaçado e nós temos que começar de novo, e mais uma vez superar os bárbaros satânicos do norte, e tudo por causa de um único homem.
Insha'Allah!, ele pensou, e isso o acalmou um pouco. Mesmo assim, se Mzytryk não estivesse na sala, ele teria gritado e esbravejado e batido em alguém, em qualquer um. Mas o homem estava aqui e tinha que ser manobrado, os problemas do Azerbeijão tinham que ser contornados, então ele controlou a raiva e meditou sobre a sua próxima jogada. Apanhou o último doce e enfiou-o na boca.
— Você gostaria de se casar com Azadeh, Petr?
— Você gostaria de ter-me, eu que sou mais velho do que você, como genro? — O homem disse com uma risada.
— Se esta fosse a Vontade de Deus — ele respondeu com a quantidade certa de sinceridade e sorriu para si mesmo, pois tinha visto o brilho súbito nos olhos do amigo, rapidamente disfarçado. Então, pensou, você já a deseja tendo-a visto apenas pela primeira vez. E se eu realmente a entregasse a você quando me livrasse do monstro, que vantagem isso me traria? Muitas! Você é qualificado, você é poderoso, politicamente isso seria muito sábio, muito sábio, e você poria algum juízo na cabeça dela e a trataria como ela precisa ser tratada, não como o finlandês, que a trata com mimos. Você seria um instrumento de vingança sobre ela. Há muitas vantagens...
Há três anos, Petr Oleg Mzytryk tinha tomado posse da imensa propriedade que pertencera a seu pai — também um velho amigo dos Gorgons — perto de Tbilisi, onde, por gerações, os Gorgons também possuíam muitas importantes ligações comerciais. Desde então, Abdullah Khan viera a conhecê-lo intimamente, hospedando-se na propriedade durante suas freqüentes viagens de negócios. Ele tinha achado Petr Oleg, como todos os russos, muito discreto, revelando muito pouco. Mas, ao contrário da maioria, extremamente prestativo e simpático — e mais poderoso do que qualquer soviético que conhecia, um viúvo com uma filha casada, um filho na marinha, netos — e hábitos estranhos. Ele morava sozinho na enorme propriedade, exceto pelos empregados e por uma mulher de uma beleza estranha e cruel, uma russa-eurasiana chamada Vertinskya, de uns trinta e tantos anos, com quem ele só tinha aparecido duas vezes em três anos, quase como se fosse um tesouro particular. Ela parecia ser ao mesmo tempo escrava, prisioneira, companheira de bebida, meretriz, torturadora e gata selvagem.
— Por que você não a mata e acaba com isso, Petr? — Ele tinha dito um dia em que assistiu a uma violenta discussão e Mzytryk a tinha chicoteado, com a mulher cuspindo e xingando e lutando até que os empregados a levaram embora arrastada.
— Não... ainda não — dissera Mzytryk, com as mãos trêmulas — ela é... é valiosa demais.
— Ah, sim, sim, agora eu compreendo — dissera Abdullah Khan, igualmente provocado, sentindo quase a mesma coisa a respeito de Azadeh: a relutância em se livrar de um objeto antes que estivesse realmente acovardado, humilhado e rastejante. E ele se lembrou de como tinha invejado Mzytryk pelo fato de Vertinskya ser amante e não filha, de modo que o ato final de vingança pudesse ser consumado.
Que Deus amaldiçoe Azadeh, pensou. Amaldiçoe-a porque podia ser a gêmea da mãe que me deu tanto prazer, ela que me faz lembrar constantemente a minha perda, ela e seu maldito irmão, ambos cópias da mãe na aparência e nos modos mas não em qualidade, ela que era como uma huri do Jardim de Deus. Eu pensei que os nossos dois filhos me amassem e respeitassem, mas não, assim que Napthala foi para o paraíso a verdadeira natureza deles se manifestou. Eu sei que Azadeh estava conspirando com o irmão para me matar. Eu não tenho a prova? Oh, Deus, eu gostaria de poder espancá-la como Petr faz com a sua Nêmesis, mas não posso, não posso. Toda vez que eu levanto a mão contra ela, eu vejo a minha bem-amada, maldita Azadeh, que Deus a mande para o inferno...
— Acalme-se — disse Mzytryk gentilmente.
— O quê?
— Você parecia tão perturbado, meu amigo. Não se preocupe, tudo vai dar certo. Você encontrará um meio de exorcizá-la.
Abdullah Khan balançou a cabeça gravemente.
— Você me conhece bem demais. — Isso é verdade, ele pensou, pedindo um chá para si mesmo e vodca para Mzytryk, o único homem com quem ele sempre se sentira à vontade.
Eu me pergunto quem você realmente é, ele pensou, observando-o. Há muitos anos, no tempo do seu pai, quando nos encontrávamos na propriedade, você costumava dizer que estava de licença, mas nunca dizia de licença de quê, eu nunca consegui descobrir, por mais que tentasse. Primeiro, eu achei que fosse do exército soviético, pois uma vez, quando estava bêbado, você me disse que tinha sido comandante de tanques durante a Segunda Guerra Mundial em Se-bastopol, indo até Berlim. Mas então eu mudei de idéia e achei mais provável que você e seu pai fossem da KGB ou da GRU, pois ninguém em toda a URSS se recolhe a uma propriedade dessas na Geórgia, a melhor parte do país, sem ter ligações muito importantes e muita influência. Você diz que está aposentado — aposentado de onde?
Ao tentar descobrir a extensão do poder de Mzytryk nos primeiros tempos, Abdullah Khan mencionara que uma célula clandestina de comunistas do Tudeh em Tabriz estava planejando assassiná-lo e ele gostaria que a célula fosse destruída. Isto só era verdadeiro em parte, a verdadeira razão era o fato do filho de um homem que ele secretamente odiava e não podia atacar abertamente fazer parte do grupo. Na mesma semana, todas as cabeças dos membros do grupo foram enfiadas em estacas perto da mesquita com um aviso: ASSIM MORRERÃO TODOS OS INIMIGOS DE DEUS. Ele tinha derramado lágrimas fingidas no funeral e rido em particular. O fato de Petr Mzytryk ter poder para eliminar uma das suas próprias células significava que ele tinha mesmo poder. E Abdullah Khan viu também a importância que tinha para eles.
— Por quanto tempo você vai precisar do finlandês? — perguntou Abdullah.
— Por algumas semanas.
— E se os Faixas Verdes o impedirem de voar ou o interceptarem? O soviético deu de ombros.
— Vamos esperar que ele conclua a missão. Duvido que haja algum sobrevivente — seja ele ou Cimtarga — caso sejam encontrados deste lado da fronteira.
— Ótimo. Agora voltemos ao que conversávamos antes de sermos interrompidos: você concorda que não haverá apoio ostensivo para os membros do Tudeh aqui, desde que os americanos fiquem de fora e Khomeini não inicie um programa contra eles?