— O Azerbeijão tem sido sempre um foco de interesse para nós. Sempre dissemos que ele deveria ser um Estado independente. Tem riqueza, poder, minerais e petróleo em quantidade mais do que suficiente para sustentá-lo e... — Mzytryk sorriu — e uma liderança esclarecida. Você poderia levantar esta bandeira, Abdullah. Tenho certeza de que você conseguiria todo o apoio necessário para ser presidente. Com nosso reconhecimento imediato.
E então eu seria assassinado no dia seguinte enquanto os tanques estivessem entrando pelas fronteiras, o khan disse a si mesmo sem maldade. Oh, não, meu bom amigo, o golfo é uma tentação grande demais até mesmo para você.
— E uma grande idéia — disse veementemente —, mas eu precisaria de tempo. Enquanto isso eu poderia contar também com o fato dos comunistas do Tudeh virem se voltar contra os insurretos?
O sorriso de Petr Mzytryk permanceceu o mesmo, mas seu olhar mudou.
— Seria estranho se o Tudeh atacasse os seus irmãos de criação. O marxismo-islâmico é defendido por muitos intelectuais muçulmanos. Eu ouvi dizer que até você os apoia.
— Concordo que deve haver um equilíbrio no Azerbeijão. Mas quem mandou os esquerdistas atacarem o campo de aviação? Quem os mandou atacar e incendiar a nossa estação de trem? Quem ordenou que o nosso oleoduto fosse destruído? Obviamente ninguém de bom senso. Ouvi dizer que foi o mulá Mahmud, da mesquita Hajsta. — Ele observou Petr cuidadosamente. — Um dos seus.
— Eu nunca ouvi falar nele.
— Ah — Abdullah Khan disse com uma jovialidade fingida, sem acreditar. — Estou contente, Petr, porque ele é um falso mulá, não é nem mesmo um verdadeiro islâmico-marxista, ele é um agitador. Foi ele que invadiu a base de Yokkonen. Infelizmente, ele tem quinhentos combatentes apoiando-o, todos igualmente indisciplinados. E recebe dinheiro de algum lugar. E tem ajudantes como Fedor Rakoczy. O que Rakoczy significa para você?
— Não muito — disse Petr, imediatamente, com o mesmo sorriso e o mesmo tom de voz, esperto demais para evitar a pergunta. — Ele é um engenheiro mecânico em Astara, na fronteira, um dos nossos conterrâneos muçulmanos que parece ter-se juntado aos mujhadins como um dos Combatentes da Liberdade, sem permissão nem aprovação.
Petr manteve o rosto impassível, mas por dentro estava praguejando obscenamente, com vontade de gritar: Meu filho, meu filho, você nos traiu? Você foi mandado para espionar, para se infiltrar no meio dos mujhadins e nos manter informados, só isso! E desta vez você foi enviado para tentar recrutar o finlandês, depois para ir para Teerã e organizar os estudantes universitários, não para se aliar a um cão danado de um mulá ou para atacar campos de aviação ou matar uns vagabundos numa estrada. Você enlouqueceu? Seu idiota, e se você fosse ferido e apanhado? Quantas vezes eu lhe disse que eles — e nós — podemos quebrar a resistência de qualquer um no devido tempo e esvaziá-lo dos seus segredos? É burrice se arriscar assim! O finlandês é importante agora, mas não o suficiente para que você desobedeça as ordens, arrisque o seu futuro, o futuro do seu irmão — e o meu!
Se o filho é suspeito, o pai também é. Se o pai é suspeito, a família também é. Quantas vezes eu lhe disse que a KGB trabalha de acordo com o Livro, destrói aqueles que não obedecem ao Livro, que pensam por si mesmos, que se arriscam e que ultrapassam as instruções.
— Este Rakoczy não é importante — respondeu com suavidade. Fique calmo, ele ordenou a si mesmo, começando a ladainha: Não há com o que se preocupar. Você sabe segredos demais para ser importunado. Assim como o meu filho. Ele é bom, devem estar enganados sobre ele. Ele foi testado muitas vezes, por você e por outros especialistas. Você está seguro. Você é forte, você tem saúde, e você podia surrar e trepar com aquela lindeza da Azadeh e ainda estuprar Vertinskya no mesmo dia. — O importante é que você é o foco principal do Azerbeijão, meu amigo — ele disse na mesma voz apaziguadora. — Você vai ter todo o apoio de que necessitar e suas opiniões a respeito dos islâmicos-marxistas vão chegar à fonte certa. Você terá o equilíbrio que deseja.
— Ótimo, conto com isso — disse o khan.
— Enquanto isso — e Mzytryk voltou ao motivo principal da sua súbita visita —, e quanto ao capitão inglês? Você pode nos ajudar?
Há dois dias, chegara em sua casa, perto de Tbilisi, um telex altamente secreto, em código, informando-o que o posto secreto da CIA de escuta de radar na face norte de Sabalan fora explodido por sabotadores pouco antes da chegada de grupos simpatizantes locais, que tinham sido enviados para remover todos os livros de código, máquinas cifradas e computadores. "Veja Ivanovitch pessoalmente imediatamente", continuava o telex, usando o nome em código de Abdullah Khan. "Diga-lhe que os sabotadores eram britânicos — um capitão e dois gurkhas — e um agente da CIA chamado Rosemont (nome de código Abu Kurd), guiados por um dos nossos mercenários que foi morto por eles antes de conseguir conduzi-los até a emboscada. Um dos soldados e o agente da CIA foram mortos durante a fuga e acredita-se que os dois sobreviventes estejam indo para o setor de Ivanovitch. Providencie a cooperação dele. Seção 16/a. Acuse recebimento." Seção 16 significava: esta pessoa ou pessoas são inimigos importantes e devem ser interceptados, detidos e trazidos para interrogatório por quaisquer meios que forem necessários. O Va' significava: se isto não puder ser feito, elimine-os sem demora.
Mzytryk tomou um gole de vodca, esperando.
— Nós apreciaríamos a sua ajuda.
— Vocês sempre tiveram a minha ajuda — disse Abdullah. — Mas encontrar dois sabotadores experientes no Azerbeijão, que certamente devem estar disfarçados, é quase impossível. Eles devem ter lugares seguros para se esconder. Há um consulado britânico em Tabriz, e dezenas de rotas pelas montanhas desviando-se daqui. — Ele se levantou e foi até a janela, olhando para fora. Dali ele podia ver o 206 estacionado no pátio, sob guarda. O dia ainda estava sem nuvens. — Se eu estivesse conduzindo esta operação, fingiria estar indo para Tabriz, e em seguida faria a volta e atravessaria o Cáspio. Como foi que eles entraram?
— Cáspio. Mas a pista deles foi seguida vindo para cá. Dois corpos foram encontrados na neve, e as pegadas dos dois homens se dirigiam para cá.
O fracasso da missão Sabalan tinha causado acessos de raiva. O fato de haver tanto equipamento secreto da CIA assim tão perto provocara infiltrações e compra de informações durante anos. Nas últimas duas semanas, a informação de que alguns postos de radar tinham sido evacuados mas que não foram destruídos na fuga e no pânico que eles tinham ajudado a espalhar, tinha feito os gaviões se prepararem para avançar imediatamente, com força total. Mzytryk, conselheiro-chefe desta região, aconselhara cautela, que eles usassem grupos locais em lugar de soviéticos, para não entrar em choque com Abdullah Khan — seu contato exclusivo e agente mais importante — para não arriscar um incidente internacional.
— É totalmente desaconselhável arriscar um confronto — ele tinha dito, mantendo-se dentro do Livro. E do seu plano particular. — O que é que nós ganhamos com uma ação imediata? Se é que não nos forneceram informações erradas e Sabalan não passa de uma grande cilada, o que é provável? Uns poucos livros de código que talvez até já tenhamos. Quanto aos computadores avançados, a nossa operação Zatopek já tem isso nas mãos.
Esta era uma operação secreta da KGB altamente controvertida e inovadora, que recebera o nome do corredor tcheco, e que fora preparada em 1965. Com uma verba inicial de 10 milhões de dólares, moeda estrangeira tremendamente escassa, a operação Zatopek deveria adquirir um suprimento contínuo da melhor e mais avançada tecnologia ocidental pela simples compra através de uma rede de companhias fictícias e não pelo método convencional e muito caro do roubo e da espionagem.