Jean-Luc agradeceu a Deus por estar voando e não andando e parou no campo próximo de Galeg Morghi, sem problemas. Guardou o 206 no hangar da S-G e conseguiu imediatamente transporte para a cidade, com a ajuda de uma nota de dez dólares. Primeiro parou no escritório de Schlumberger e marcou a viagem de volta para Zagros. Depois foi para o apartamento dela. Sayada estava em casa. Como sempre, a primeira vez depois de estarem separados há tanto tempo foi imediata, impaciente, bruta, egoísta e mutuamente explosiva.
Ele a conhecera numa festa de Natal em Teerã há um ano, dois meses e três dias atrás. Ele se lembrava daquela noite com todos os detalhes. A sala estava cheia e assim que entrou, ele a percebeu, como se a sala estivesse vazia. Ela estava sozinha, tomando uma bebida, com um vestido branco e transparente.
—Vous parlez français, madame? — ele tinha perguntado, estonteado com sua beleza.
— Sinto muito, m'sieur, só umas poucas palavras. Prefiro falar inglês.
— Então em inglês: estou radiante por tê-la conhecido, mas estou num dilema.
— Oh? Qual?
— Gostaria de fazer amor imediatamente.
— Hein?
— Você é a personificação de um sonho... — Isso teria soado muito melhor em francês, mas não faz mal, ele tinha pensado. — Eu venho procurando por você a vida inteira e preciso fazer amor com você, você é extremamente desejável.
— Mas... mas o meu... marido está ali. Eu sou casada.
— Isto é um empecilho, madame, não um impedimento.
Ela tinha rido e ele soube que ela seria sua. Só mais uma coisa tornaria tudo perfeito.
— Você sabe cozinhar?
— Sim — ela respondera com tanta confiança que ele percebeu que ela seria soberba, que na cama seria divina, e o que ela não soubesse ele poderia ensinar-lhe. Que sorte ela tem por ter-me conhecido, pensou alegremente, e tornou a bater na porta.
Seus meses juntos tinham voado. O marido dela raramente visitava Teerã. Ele era um banqueiro libanês em Beirute, de ascendência francesa.
— E portanto civilizado — dissera Jean-Luc com total confiança —, e portanto, evidentemente, ele aprovaria a nossa liaison, chérie, caso venha a descobrir. Ele é muito velho comparado com você, é claro que ele aprovaria.
— Eu não tenho tanta certeza, chéri, e ele só tem cinqüenta anos e você é...
— Divino — ele dissera, ajudando-a —, como você. — Para ele, isso era verdade. Ele nunca tinha visto um cabelo e uma pele tão macios, pernas tão longas e uma paixão ardente que era um presente dos céus. — Mon Dieu — ele tinha gemido uma noite, mantido no auge da paixão pela magia dela. — Eu morro nos seus braços.
Mais tarde, ela o beijara e trouxera-lhe uma toalha quente, voltando para a cama. Isto foi numas férias em Istambul, no outono do ano anterior, e a sensualidade daquela cidade os envolvera.
Para ela, o caso era excitante, mas não o fim de todos os casos. Ela tinha discutido Jean-Luc com o marido na noite da festa.
— Ah — ele tinha dito, achando graça —, foi por isso que você quis conhecê-lo!
— Sim, eu o achei interessante. Embora sendo francês e totalmente egocêntrico como todos eles. Mas ele me excitou, sim, é verdade.
— Bem, você ficará aqui em Teerã por dois anos, eu não posso ficar mais do que alguns dias por mês; é perigoso demais. E seria uma pena você ficar sozinha toda noite. Não seria?
— Ah, então eu tenho a sua permissão?
— Onde está a esposa dele?
— Na França. Ele fica dois meses no Irã e depois passa um mês com ela.
— Talvez fosse uma boa idéia, esta ligação. Boa para o seu ânimo, boa para o seu corpo, e boa para o nosso trabalho. E o que é mais importante, desviaria a atenção.
— Sim, isso também me ocorreu. Eu disse a ele que não falava francês e ele oferece muitas vantagens. Ele é membro do Clube Francês.
— Ah! Então eu concordo. Ótimo, Sayada. Diga-lhe que eu sou um banqueiro de ascendência francesa, o que em parte é verdade. Meu trisavô não foi soldado de Napoleão na sua caminhada pelo Oriente Médio em direção à índia? Diga ao seu francês que nós somos libaneses de várias gerações, não de poucos anos.
— Sim, você está sendo esperto, como sempre.
— Consiga que ele a faça sócia do Clube Francês. Isso seria perfeito! Há um bocado de poder lá. De algum modo, o acordo Irã-Israel tem que ser rompido, de algum modo o xá tem que ser dobrado, de algum modo nós temos que afastar Israel do petróleo do Irã ou o maldito Begin ficará tentado a invadir o Líbano para expulsar os nossos soldados. Com o petróleo iraniano ele conseguiria, e seria o fim de outra civilização. Eu estou cansado de me mudar.
— Sim, sim, eu concordo...
Sayada estava muito orgulhosa. Tanta coisa acontecera naquele ano, era inacreditável! No próximo ano, o líder Yasir Arafat estava convidado para vir a Teerã para um encontro triunfal com Khomeini, em agradecimento ao seu apoio à revolução; as exportações de petróleo para Israel tinham sido suspensas, Khomeini, inimigo fanático de Israel estava instalado no poder — e o xá, pró-Israel, tinha sido expulso, coberto de vergonha. Tantos progressos desde que ela conhecera Jean-Luc. Um progresso inacreditável! E ela sabia que tinha ajudado o marido, que ocupava um lugar de destaque na OLP, agindo como mensageira especial, levando e trazendo mensagens e cassetes de Istambul, do Clube Francês em Teerã — oh, quanta intriga fora necessária para convencer os iraquianos a permitirem a ida de Khomeini para a França, onde ele não seria mais amordaçado — e de todos os tipos de lugares, escoltada pelo meu belo amante. Oh, sim, pensou satisfeita, os amigos e contatos de Jean-Luc foram muito úteis. Em breve voltaremos para Gaza e recuperaremos nossas terras, nossas casas, lojas c vinhedos...
A porta do apartamento de McIver se abriu. Era Charlie Pettikin.
— Meu Deus, Jean-Luc, que diabo você está fazendo aqui? Olá, Sayada, você está mais linda do que nunca, entrem! — Ele trocou um aperto de mão com Jean-Luc e beijou-a dos dois lados do rosto, sentindo o calor que emanava dela.
O longo casaco e o capuz a escondiam quase toda. Ela conhecia os perigos de Teerã e se vestia de acordo:
— Isso poupa tantos problemas, Jean-Luc; eu concordo que é estúpido e arcaico, mas eu não quero ser atacada, nem quero que algum imbecil fique sacudindo o pênis para mim ou se masturbe quando eu passar. Isso aqui não é nem nunca será a França. Concordo que é inacreditável que agora, em Teerã, eu tenha que usar uma espécie de chador para ficar segura, quando, há um mês atrás, isso não era preciso. Diga você o que disser, chéri, a velha Teerã acabou para sempre...
De certo modo é uma pena, pensou, entrando no apartamento. Ela tinha o que havia de melhor no Ocidente e no Oriente — e o pior. Mas agora, agora eu tenho pena dos iranianos, principalmente das mulheres. Por que será que os muçulmanos, principalmente os xiitas, são tão bitolados e não deixam suas mulheres se vestirem de uma maneira moderna? Será por serem tão reprimidos e maníacos por sexo? Ou por que eles têm medo delas se destacarem? Por que eles não podem ser abertos como nós, palestinos, ou como os egípcios, shargazianos, dubaianos, ou como os indonésios, paquistaneses e tantos outros? Deve ser impotência. Bem, nada vai me impedir de comparecer à Marcha de Protesto das Mulheres. Como Khomeini ousa tentar trair a nós, mulheres, que fomos lutar por ele nas barricadas?
Estava frio dentro do apartamento, com o aquecimento ainda trabalhando apenas com a metade da potência, e ela conservou o casaco, apenas desabotoou-o para ficar mais confortável, e se sentou num dos sofás. Seu vestido era quente, parisiense, e aberto até a coxa. Os dois homens notaram. Ela estivera ali muitas vezes e achava o apartamento sem vida e desconfortável, embora gostasse muito de Genny.